Trecho do artigo da professora Adísia Sá, publicado no O Povo de hoje:
Candidatura para Fortaleza
Fortaleza parou no tempo e no espaço e os políticos parecem não estar atentos para isto. Aquilo que é competência do poder público não avançou: maquiou a cidade , não cuidou da Fortaleza de amanhã. E tem mais: o que de avanço para o futuro foi e é feito , é obra da iniciativa privada. Não fora o empresariado e Fortaleza estaria catando pedras portuguesas nas pracinhas decadentes, na beira mar aviltada e na Praia de Iracema prostituída. Fortaleza avançada, moderna – não tem um dedo prefeitural – nasceu da visão de quem escuta e vê o futuro.
É envergonhada que afirmo: não ouço uma palavra sobre a Fortaleza de amanhã, como tiveram desta cidade alguns de seus gestores , quase todos de antigos tempos. A preocupação dos políticos é com a eleição de outubro, com o horário de televisão, com-quem-pode-contar na hora das urnas, às custas, que vergonha! de conversinhas no pé do ouvido de quem é dono de partido X e de agremiação Y. (…) Ainda bem que a iniciativa privada está aí para garantir o pão-nosso- de Fortaleza …
Blog do Wanfil
Ler Adísia é ter a certeza de que o avançar da idade não é inibidor do senso crítico nem desculpa para a acomodação intelectual. Enquanto Oscar Niemayer louva tiranos de esquerda, a jovem Adísia enfrenta tabus sem medo de patrulhamento. Nem sempre concordo com o que ela escreve, como é normal de ser, mas admiro-lhe a vontade de ser livre, de negar o alinhamento automático aos pensamentos estabelecidos, de evitar o espírito de rebanho. Nesse sentido, creio que ela tem mais em comum com Themístocles de Castro do que muitos imaginam.
O cerne do seu artigo é a falta de um projeto para a cidade, cujos políticos deixam de lado para ocuparem-se apenas com disputas eleitorais. Mais adiante, no trecho que reproduzo acima, a jornalista faz uma digressão sobre o papel da iniciativa privada no desenvolvimento de uma cidade. Acertadamente, ela reconhece que nos últimos anos, o setor privado fez mais pela cidade do que os poderes públicos.
Geralmente, o capitalismo, o empresariado e o espírito do empreendedorismo são tomados, nos discursos políticos e nas salas de aula, por forças predatórias, e o Estado como solução salvadora e redentora. A verdade que Adísia desnuda é simples: a natureza produtiva do mercado deve ser liberada mais e mais, e não constrangida por impostos escorchantes. Isso, no entanto, é visto como pecado capital pelos profetas do estatismo. Eles querem é mais governo, é mais burocracia, é mais ineficiência. O falecido economista Roberto Campos dizia que o Brasil se notabilizou pela incrível capacidade de admirar o que sempre deu errado. Pois é!