Artigo n’O Estado – Intelectuais ou ativistas políticos?
Artigo publicado no jornal O Estado – edição de 20 de março
Qual o papel dos intelectuais? Estudar e apresentar alternativas, estimular o debate e o dissenso, ou se contentar com a crítica inócua, com as teses impossíveis, substituindo a pesquisa e a dúvida pelo consenso fácil da pregação política?
É uma questão difícil para muitos, principalmente para quem os quer engajados, portadores de uma “consciência crítica”, que na verdade não passa de proselitismo partidário. Para o italiano Antonio Gramsci, teórico comunista, não é a erudição que faz o intelectual, e sim a sua capacidade de divulgar a ideologia esquerdista. Em outras palavras, ele deve ser um ativista de uma causa política. Com honrosas exceções, essa condição seduz muitos professores nas universidades, e os bons pensadores são minoria.
Quem não lembra da economista Maria da Conceição Tavares? Enquanto o PT foi oposição, ela brilhou condenando o Plano Real, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o capitalismo. Quando o partido chegou ao poder, a intelectual foi descartada. A vez agora é da filósofa Marilena Chauí, que ocupou espaços na “mídia golpista” para dizer que o mensalão não existiu, e que tudo não passou de uma armação das elites. A mulher que acredita que o grego Aristóteles era um aristocrata alienado emprestou o seu prestígio para reforçar a tese furada de teoria da conspiração. Não por acaso o seu sucesso decorre mais do alinhamento ideológico que do rigor analítico.
Esse é o papel do intelectual? Ser um fraudador do passado, um mistificador do presente, um vendedor de ilusões, um mágico de soluções fáceis para problemas difíceis, um doutrinador fanático, um prosélito oportunista? Certamente que não.
Por isso foi com satisfação que assisti, semana passada, a uma palestra do professor israelense Raphael Bar-El, da universidade de Bem Gurion, proferida no auditório da Fiec. Eis um bom exemplo de como deve agir um intelectual. O professor Bar-El discorreu sobre práticas exeqüíveis para combater e reduzir a pobreza. Falou também dos limites de ações assistencialistas, sem precisar recorrer a usual e inútil pregação anti-capitalista. Ele lembrou que devemos trabalhar metas de longo prazo, sugerindo ações e descartando, assim, as promessas revolucionárias que iludem tanta gente. Suas idéias, claro, podem ser contestadas. Mas é preciso reconhecer que elas fundamentam um conjunto mecanismos de intervenção para mudar uma realidade, testado com sucesso entre 1996 e 2006. Bem melhor que a propaganda político-partidária e maniqueísta que vigora em boa parte das universidades brasileiras.