Serei uma excentricidade em extinção?
Em certas ocasiões informais, meus amigos mais próximos gostam de me apresentar a terceiros como um dedicado defensor da “direita”. Conhecendo-os, sei que se trata de uma provocação ao desavisado que acaba de me conhecer. Por alguns instantes esse interlocutor me olha atônito, sorrindo de lado, como se pensasse: “É verdade? Será possível? De direita? Como pode alguém professar isso? Existe gente que não é de esquerda ou centro?”
Nesses momentos de suspense, em que sou observado como uma ave rara em extinção, fico constrangido em decepcionar as pessoas, e sabendo que um debate mais aprofundado levaria horas, termino por confirmar a rotulação simplória. Quase sempre a reação se assemelha a do antropólogo que descobre um membro de uma sociedade perdida, no caso, o direitista que admite essa condição. Ao final, eles se despedem com aquela sensação de terem visto algo excêntrico. No Brasil, a divergência causa estranhamento…
Particularmente, penso que as ideologias são prisões do pensamento. Constituem um conjunto de regras previamente estabelecidas e da quais não se pode fugir, sob pena de não pertencer mais ao grupo militante. Para mim, a aceitação automática das regras grupais prevalecendo sobre os critérios individuais já basta para qualificar o sujeito como bovino sem vontade própria. Se há algo que procurei ensinar aos meus alunos foi que nada está acima da investigação particular – daí a necessidade de duvidar antes de acreditar.
Por que falo isso? Por causa de um texto de Nelson Motta, publicado na Folha de São Paulo de ontem. Ao lê-lo, me senti menos solitário. Confiram abaixo.
Jovem e fervoroso revolucionário, um dia comentei com meu avô que alguma coisa era boa, mas cara, e ouvi, chocado, um velho professor amigo dele me dizer com naturalidade: “Mas tudo que é caro é bom, meu filho”.
Sorrindo da minha indignação, ressalvou que nem tudo que é barato é ruim, que era possível que algo barato fosse bom, e que nem tudo que é bom é caro, já que algumas das melhores coisas da vida são de graça. Mas manteve a frase obscena.
E mais: me assegurou que o ser humano não vende mais barato o que pode vender mais caro, que ninguém quer o pior se pode ter o melhor e que uma das leis irrevogáveis da humanidade é a da oferta e da procura. Me senti ultrajado.
Mas ao longo dos 40 anos seguintes fui entendendo que era só uma generalização provocativa paulo-franciana, nelson-rodrigueana, pelo prazer da frase e da ironia, e me lembrei dele muitas vezes, com um sorriso, do velho cínico. E sábio.
O que diria ele agora, quando tantos ainda crêem que “tudo que é de esquerda é bom”? Sem ressalvas, já que tudo que não é de esquerda, de direita é, portanto, do mal. Quem ler, digamos, o Zé Dirceu, vai acreditar que a esquerda é generosa com os pobres e oprimidos, quer a igualdade e a fraternidade, é trabalhadora, honesta, não rouba, só pensa no bem do povo e do país. Os que apenas são contra a esquerda são autoritários, gananciosos, só pensam em dinheiro, em explorar os pobres, em atrasar o país, em pilhar o Estado. É patético.
O óbvio ululante é que há cada vez mais gente que não é de esquerda mas tem as qualidades que ela se atribui, assim como há muitos esquerdistas no poder que fazem justamente o que atribuem a seus opostos. Mas, o que seria dos zé-dirceus se não fosse “a direita”?
3 Comentários
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By Ulisses, 23/03/2008 @ 10:20
Mas meu amigo, você é um espécime raro, de uma linhagem em franca extinção: a dos pensantes. De mais a mais, não é de agora que o indivíduo com idéias próprias, diferentes das estabelecidas como aceitáveis pelo grupo, é olhado de soslaio e apontado como um pária.
By Reginaldo Almeida, 25/03/2008 @ 10:45
WanFil, felizmente você não é o único, mas infelizmente também não somos muitos.
Gramsci está quase vencendo no Brasil, e para o meu pesar, creio que já venceu no Nordeste, principalmente no Ceará.
Depois da última eleição do Lula, assim como a eleição da Exma Prefeita de Fortaleza (contemporánea minha na UFC – a minha opinião a respeito dela só a desabona), cheguei à conclusão de que o Ceará é um covil de socialistas (esclarecidos ou não).
Meus amigos no CE, que possivelmente não saibam exatamente o que é o capitalismo (apesar de vivê-lo), preferem muitas vezes as prebendas do estado, um empreguinho nomeado pelo pai de um amigo, etc.
Quisera crer que o espírito socialista do Ceará é um misto de casuísmo e o fato de por ser um estado periférico, muitos dos empregos estarem ligados ao estado, e como eu abomino o estado…
Mas quem estudou e trabalha, sem adulações ou peixadas, sabe que ser direitista é a única forma de defender o nosso parco patrimonio, adquirido através do nosso suor, das cigarras e cupins sociais que nos rodeiam.
By Bruno Pontes, 26/03/2008 @ 19:35
É, Wanderley, somos poucos. Sei bem o que você sente: estudo Jornalismo na UFC, curso que é um verdadeiro laboratório do esquerdismo juvenil. Imagine as coisas que escuto e vejo diariamente.