Um esquerdista europeu

Não é de hoje que afirmo que o debate ideológico no Brasil está deslocado no tempo, preso nos idos de 1968, congelado entre a Guerra Fria e o advento da contracultura. Nossos eternos hippies queriam construir o comunismo sem violência e sonhavam com a implantação pacífica da ditadura do proletariado. Como os conceitos de paz e revolução são inconciliáveis, aqueles sonhos esfumaçados se transformaram, num primeiro momento, em frustração, e posteriormente em ressentimento contra a livre iniciativa, o lucro, o direito e a liberdade de imprensa, pilares que sustentam as democracias liberais. Desconsolados, esses órfãos da utopia igualitária buscaram outras saídas e se transformaram em professores, jornalistas, políticos e artistas que teimam, cada um a seu modo, em projetar o descontentamento com a “caretice” do mundo.

Imersos nesse ambiente obsoleto e agarrados a chavões carcomidos, nossos intelectuais, com honrosas exceções, se regozijam na idolatria de figuras como Che Guevara e Osama Bin Laden, sempre prontos a apoiar ditadores como Fidel Castro, dispostos a sacrificar os empecilhos impostos pelo Estado de Direito. Vivendo no passado, tais figuras insistem em discutir temas como estatização dos meios de produção, controle social da imprensa, imperialismo norte-americano e o marxismo. Começo a suspeitar que, mais do que um entrave ideológico, essa situação deriva de algum trauma coletivo, uma espécie de complexo de inferioridade generalizado, como já assinalava Nelson Rodrigues.

Basta o contato com estudiosos de centros mais avançados para constatarmos a imensa distância que separa a atividade intelectual produzida lá e aqui. Foi o que aconteceu na última segunda-feira (01), quando assisti a uma palestra na Faculdade 7 de Setembro (FA7), proferida pelo professor Antônio Galindo, da Universidade de Málaga (Espanha). Especialista em Comunicação Social e esquerdista, Galindo falou sobre comunicação e educação na era digital.

Ao final do encontro, um professor quis saber a opinião do convidado sobre a decisão de Hugo Chávez, que fechou uma rede de televisão que lhe fazia oposição. Por um instante imaginei que o corporativismo ideológico, tão comum em nossas escolas, pudesse prevalecer, e pressenti uma resposta de aprovação. Acostumado aos padrões locais, felizmente me enganei. Galindo afirmou que tal atitude não era compatível com a democracia, e lembrou que os governos devem conviver naturalmente com a crítica e com os adversários. O espanhol ainda ressaltou que  eventuais abusos da imprensa devem ser tratados pelo Judiciário, e que somente um longo processo de educação pode equilibrar o jogo de interesses que move a mídia, ou seja: cabe ao leitor decidir o que é bom. Ver um esquerdista que não abdica dos valores democráticos em nome de uma causa é algo demasiadamente inusitado na América Latina. Com alívio, constatei que existe vida inteligente na esquerda. Pelo menos lá na Europa.

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