20 Out

A crise mundial e a didática da simplificação furada

No Brasil, nos últimos anos, com a ascensão de um “homem do povo” ao poder, todo e qualquer assunto complexo passou a ser tratado com o auxílio de parábolas futebolísticas ou de economia doméstica. É uma, digamos assim, opção “didática”.

Pois bem. Recebi um e-mail com um texto retirado do blog do jornalista Paulo Henrique Amorim (”Olá, tudo bééiiiiiiim!”), biógrafo do bispo e empresário Edir Macêdo, que transcrevo abaixo. Em seguida, volto para comentar.

Explicando a crise dos EUA de maneira caseira.

O seu Benê tem um bar, na Vila Capanema, e decide que vai vender cachaça ‘na caderneta’ aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobrepreço que os pinguços pagam pelo crédito).

O gerente do banco do seu Benê, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento tendo o pindura dos pinguços como garantia. Uns seis zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer. Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Benê). Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

Até que alguém descobre que os bebum da Vila Capanema não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu Benê vai à falência. E toda a cadeia vai pro saco… Em tempo: o prefeito de Vila Capanema resolveu colocar US$ 850 bilhões no negócio para não deixar fechar nem o alambique nem o boteco. Para ler o original, clique aqui.

O seu Benê é otário?
A ilustração até que é engenhosa e explica parte do que aconteceu. Só falha em um ponto, logo o mais importante e crucial. Em qualquer botequim é comum que os clientes vejam afixados cartazes com o alerta: Fiado só amanhã. Para ter crédito nesses estabelecimentos, é preciso ter um histórico de consumo e de assiduidade nos pagamentos anteriores. Só um burro vende fiado para um desconhecido, e nem o José Airton Cirilo venderia cachaça para um desempregado.

A questão que não abordada, portanto, diz respeito às motivações do seu Benê. Por que diabos ele venderia algo sabendo que o cliente não poderia pagar? A resposta é simples. A dívida era assegurada em parte pelo governo, que também ameaçava punr o seu Benê com impostos e fiscalizações, caso a bodega não fizesse essa “ação social” para os bêbados, que, no fim das contas, também são eleitores.

Uma Resposta para “A crise mundial e a didática da simplificação furada”

  1. Leonardo Fontes escreveu:

    Mas a explicação das motivações é boa apenas e exclusivamente para o subprime, como desculpa neoliberal para a idéia de que o sistema só funciona com o mercado dono das próprias ventas. É boa apenas para a superfície, para a camadinha de gelo fina que encobre a questão, ou para o desfecho, não para as inúmeras crises dos últimos 30-40 anos.

    Não explica, nem chega perto, de explicar como o mercado conseguiu vender bosta por ouro, como essa alquimia foi realizada e como, a fraude descoberta, o mercado não é punido, mas salvo - e não apenas no caso do subprime, mas em todas, desde a queda de Bretton Woods até hoje.

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