17 Nov

Jornalismo transparente e textos de encomenda

Transparência
A revista Veja desta semana trouxe a público o drama do ator Fábio Assunção, da Rede Globo, afastado de suas atividades profissionais por causa do vício em cocaína. A decisão de expor histórias particulares sempre implica em discussões sobre o direito à privacidade, mas o caso em questão envolve uma pessoa pública, um artista de sucesso e influente, cujo currículo de bom comportamento o transformou em modelo de conduta para o público. Na outra ponta, claro, há o problema das drogas, com conseqüências diretas nas áreas de saúde e segurança pública. Mostrar a doença de Fábio Assunção, portanto, serve de informação com alto valor social, principalmente pelo seu aspecto pedagógico, quando os fatos desmentem a glamourização das drogas como substâncias “liberadoras” e detonam a mistificação sedutora de que seu consumo pode ser controlado, e que a dependência é uma eventualidade distante.

PS. A matéria deve ser conferida, de preferência, após a leitura do editorial da revista. Aliás, muita gente que a acusa Veja de não ter transparência, nunca lê os seus editoriais. Lá estão os valores e os pressupostos que nortearam a cobertura. Em relação às drogas, por exemplo, a posição foi clara: o sofrimento causado pelo vício não pode servir de atenuante para diminuir a responsabilidade social do usuário que, ao consumir substâncias ilegais, acaba por alimentar o submundo do crime. Mesmo que o viciado seja um artista carismático. Não há como ser mais claro.

Jornalismo a favor
Já a revista Carta Capital dessa semana trouxe a publico a relevante informação de que o presidente do STF, o ministro Gilmar Mendes, é irmão de um prefeito supostamente enrolado. Não se trata de tráfico de influência ou de formação de quadrilha, é apenas a constatação de laços sanguíneos. Para disfarçar, Carta faz ilações: “Talvez o Gilmar de Diamantino seja mais desabrido ao confraternizar com empresas investigadas por formação de cartel ou não poupar esforços por manter no poder o grupo político encabeçado por sua família. Talvez não.”  Se não fosse o talvez… É o critério analítico celebrizado pelo cantor Caetano Veloso, que costuma concluir suas afirmações com um “ou não”. E o pior é que o irmão de Gilmar perdeu nas últimas eleições.

O cerne da questão para a construção da matéria, ou os valores que não podem ser explicitados em editorial algum, diz respeito a uma disputa interna no PT. Carta Capital sobrevive mais de anúncios de empresas públicas e do governo federal do que de leitores. Dá até desconto de 50% para filiados do partido. Por isso ela se especializou no jornalismo a favor das teses que interessam ao governo. Gilmar Mendes desagradou setores desse mesmo governo ao liberar o banqueiro Daniel Dantas, que havia sido preso pela Polícia Federal a mando do juíz Fausto De Sanctis. Resultado: virou alvo da revista, que não titubeou ao tentar sujar a imagem do ministro, ligando alhos com bugalhos. Afinal, onde está o crime de Gilmar?

PS. Para saber os motivos que serviram para deixar Daniel Dantas livre, é só ler a Veja desta semana. Lá estão, com provas documentais, listadas as irregularidades cometidas durante a Operação Satiagraha, tantas a ponto de fazê-la perder a legitimidade. Sabem como é, o Estado de Direito tem suas liturgias, é é obrigação do STF garantí-las.

2 Respostas para “Jornalismo transparente e textos de encomenda”

  1. Manoel Almeida escreveu:

    Veja já fez e faz ilações de corrupção por laço sanguíneo. Quando ela faz pode?

    Tratar Veja, a revista do Boimate, como “jornalismo transparente”, choca tanto que faz rir para não chorar.

  2. Wanderley escreveu:

    Caro Manoel,

    Mostrei exemplos perfeitamente verificáveis. E li os textos sobre os quais me referi, além de conhecer profissionais das duas publicações. Quando falo em transperência, evidentemente, não pretendo dizer que inexistem erros, algo impossível. Falo de expôr a linha editorial que orienta as matérias, sem subterfúgios. Os interesses existem, óbvio, mas é preciso que estes se alinhem a uma proposta editorial permanente. Creio que nesse ponto as revistas citadas são diferentes, sim. Mas, claro, trata-se de uma opinião. Veja, agora tida por denuncista, faz com Lula o mesmo que fez com Collor, Sarney, Itamar e FHC: cutucou e apresentou escândalos. Ou não?

    Abraço.

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