20 Nov

As vantagens da malandragem política (O Estado)

Como estabelecer uma discussão salutar quando as regras da coerência e o rigor da convicção são cobrados de uns, enquanto outros ficam livres dessas amarras formalísticas? Que síntese pode surgir na disputa onde apenas uma parte dos contendedores é obrigada a arcar com sua própria história, ficando a outra livre para agir ao sabor das conveniências e circunstâncias? Pior ainda é quando o público passa a ver na inconsistência argumentativa sinal de evolução intelectual, ao passo que a tentativa de harmonizar atos e pensamentos é tomada por marca de fragilidade ou burrice.

Trata-se, obviamente, de uma distorção, da vitória da malandragem sobre a honestidade, e é justamente isso o que acontece no debate político nacional e local. Isso é fácil de verificar, basta ver o noticiário. O senador Paulo Paim (PT-RS) é o autor de um projeto que cria um novo índice de reajuste de aposentadorias e pensões. Segundo o ministro da Previdência, José Pimentel (PT-CE), a mudança significa um gasto de R$ 76,6 bilhões anuais para os cofres do governo, valor impossível de ser pago. Pelo que podemos ver, o Partido dos Trabalhadores é simultaneamente contra e a favor do projeto. É a favor quando isso significa dizer que a sigla prioriza o social perante o econômico; e é contra quando é necessário sinalizar aos mercados que a agremiação preza pela racionalidade técnica.

Esse teatrinho é celebrado entre certos especialistas como sinal de vitalidade e pluralidade, quando na verdade não passa de estratégia de ocupação de espaços. O que sobra para a oposição fazer? O que quer que ela decida, obrigatoriamente concordará com parte do PT, que, em retribuição, timidamente a parabenizará. Por sua vez, a parte derrotada ganhará a mídia vociferando contra o oportunismo da oposição, que arcará com o ônus da medida aprovada ou rejeitada. Caso votem pelo projeto, os opositores serão acusados de apostar no quanto pior, melhor. Se votarem contra, os petistas “independentes” lhes rotularão de neoliberais aliados dos patrões exploradores e lacaios do FMI.

Esse movimento é calculado e predispõe acertos. A disposição de aceitar a defesa de causas impopulares é uma das qualidades que fizeram de José Pimentel um ministro e membro de destaque no governo Lula. Não por acaso o presidente, que passou a vida criticando a taxação dos inativos, o escolheu para ser o relator da reforma da Previdência. Existem outros, como Antonio Palocci e Ricardo Berzoini, capazes de assumir o fardo de “trair” as lutas históricas do petismo, devidamente recompensados com prestígio e cargos importantes.

Cobrados a dar explicações sobre o passado de obstrução sistemática a tudo o que viesse do governo, esses senhores falam em amadurecimento, insinuando que, se erraram no passado, foi por excesso de boa vontade. Tá bom. Alguém imagina o deputado Pimentel criticando Paulo Paim em nome da saúde orçamentária nacional se o presidente fosse José Serra?

Deixe uma Resposta