Segurança pública: inversão de responsabilidades

Ai meu Deus. Estamos perdidos mesmo. Vejam a manchete do Jornal O Povo desta terça-feira:

“Não deem alimentos”, diz coronel” – O coronel Joel Brasil, coordenador do Ronda do Quarteirão, pede que comerciantes não alimentem integrantes do Ronda ou qualquer outro policial. Ele explica que a sociedade tem que se organizar para saber qual polícia deseja

O POVO/CBN - Há autorização do Batalhão Comunitário para que policiais do Ronda façam refeições nos bares e restaurantes da área onde estão patrulhando?

Coronel Brasil - Não. Eles recebem um vale refeição e têm gratificações. Aí é o que eu falo: devemos nos organizar como sociedade. Muitos comerciantes, com o objetivo de ter aquele policiamento próximo a eles, ficam dando alimentos para os nossos policiais. Isso não é para acontecer. Eles têm condição de almoçar, de jantar, de fazer a refeição. E como sociedade eu diria: evitem fazer esse tipo de coisa, não deem alimentos, eles não precisam desse benefício.

Wanfil
O coronel Brasil foi bem durante a entrevista, mas na pergunta final, revelou um pensamento que ao pouco se estabelece como cultura nas autoridades responsáveis pela segurança pública. Ao apelar para que a população não forneça alimentos para os policiais, o coronel transfere a responsabilidade pela segurança àqueles que devem ser protegidos. Opera-se, com ares de indignação, uma inversão inaceitável.

Atenção. Mesmo que comerciantes e populares queiram doar alimentos em troca de proteção, OS POLICIAIS É QUE NÃO DEVEM ACEITAR, uma vez que já são remunerados. Caso contrário, que sejam EXPULSOS. O coronel Brasil, mesmo considerando sua boa intenção, não tem que dar lições à população, deve é exigir disciplina da tropa. Até por que, convenhamos, muitos procuram agradar policiais por causa da insegurança. Querem um privilégio? Sim. Devem ser informados pelos policiais que isso é errado. Eis uma boa ação educativa.

E porque digo que isso está se transformando numa cultura? Simples. Vez por outra é comum delegados, policiais, militares e especialistas aconselhando as pessoas a não saírem de casa portando dinheiro, relógios, joias etc. Alguns chegam a dar dicas de locais que não devem ser frequentados. Ora, que prendam os bandidos. As pessoas de bem devem andar como quiserem.

Ideologia
Nada disso acontece por acaso, ou é fruto de um esperteza momentânea. É antes resultado de um longo processo degenerativo com base ideológica clara. Mais ou menos assim: como criminosos são vítimas da exclusão social e do sistema, eles não podem ser culpados ou responsabilizados por seus atos de resistência. Da mesma forma, as vítimas desses crimes são aqueles que estimulam a sociedade de consumo e desse jeito perpetuam o sistema de exclusão. São, portanto, culpados pela criminalidade. E onde todos são culpados, ninguém é inocente. Daí o conselho das autoridades. Não reajam, não andem com muitos objetos, não comprem segurança. Fiquem quietinhos enquanto os bandidos fazem justiça social.

E assim conseguimos ser um dos países mais violentos do mundo, com registro de 50 mil homicídios por ano. O que a sociedade tem que definir é o seguinte: se ele considera que indivíduos criminosos são ou não responsáveis pelos seus próprios atos. Eu creio que sim. E penso que devem ser excluídos do convívio social. As ^condições sócio-econômicas, psicológicas e educacionais devem ser consideradas sim, mas como agravantes ou atenuantes, e nunca como determinantes.

WordPress Themes