Meia notícia pode render um mentira inteira

O site Congresso em Foco publicou na sengunda-feira (27) a seguinte matéria: Sarney foi o mais faltoso do primeiro semestre. Otexto falava sobre a assiduidade dos parlamentares no Senado, contabilizando anotações de presença, faltas e ausências em plenário. As informações foram tabuladas nessa tabela.

Um dia depois, o jornal O Povo abordou o tema na matéria Faltas dos cearenses, para relatar o desempenho dos três senadores que representam o Ceará.  Curiosamente o jornal mostrou apenas parte das informações disponíveis, deixando de lado outras essenciais para a correta compreensão do público. No final, O Povo mostra o seguinte resumo:

O percentual desconsidera os períodos de licença ou viagem em missão oficial
TASSO JEREISSATI. 3 sessões; 5,5% de faltas
PATRÍCIA SABOYA. 1 sessão; 2,5% de faltas
INÁCIO ARRUDA. 1 sessão; 2% de faltas

“Esquecimento”
Engraçado que O Povo utilizou as faltas mas não mostrou as ausências (que é a soma de faltas e licenças), como fez Congresso em Foco. Nesse segundo ponto, Patrícia Saboya (PDT), apesar de ter apenas uma falta, contabiliza 21 ausências (35% do total).  O senador Inácio Arruda (PCdoB), tem 12 ausências (20% do total). Já Tasso Jereissati, apontado como o “menos assíduo” pelo O Povo, tem apenas 8 ausências (13,3% do total) resgistradas nas sessões de trabalho.

Ou seja, dado o critério de presença física no Senado, dos três senadores, o tucano é o mais assíduo. Deve ter sido um esquecimento na hora de compilar o material.

Exercício kafkaniano – ou as sutis sugestões de Roberto Smith

Alguns amigos me perguntam se existe ilegalidade na declaração do presidente do BNB, Roberto Smith, em apoio ao seu (dele) correligionário petista (ver post Presidente de banco estatal faz campanha política para correligionário), o ministro do déficit previdenciário, José Pimentel.

Para responder, vamos a um exercício de imaginação:

Um empresário solicita um empréstimo ao BNB e aguarda a aprovação do seu pleito, que caminha vagaroso no mar da burocracia. Um belo dia, ele escuta o presidente daquela instituitção ENDOSSAR a campanha de um candidato ao Senado. Em seguida, o candidato envia emissários ao empresário para pedir uma doação de campanha, e aproveita para dizer que, em retribuição, irá ver se consegue agilizar aquele pedido de empréstimo lá do início, uma que o presidente do banco é seu amigo e inclusive vota nele.

“Ah, Wanderley, na imaginação tudo pode acontecer”, diriam os mais céticos. Tudo bem. Mas se é assim, a prática de servidores que trabalho no mercado financeiro saírem alardeando seus candidatos deve ser tomada como referência. De resto, certas dúvidas properam por serem mais verossímeis do que outras. Sabem o banqueiro Daniel Dantas? Pois é. Existe gente imaginando que ele não é santo. Por que será?

O fato é que assim como Pompéia Sula, a primeira mulher de César (Calpúrnia, a do sonho premonitório, foi a segunda), para a qual não bastou ser honesta, pois as aparências eram igualmente importantes, também os gestores públicos precisam cuidar de não parecerem desonestos.

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