Quanto custa uma linha editorial

A coluna Política, do jornal O Povo, comandada pelo jornalista Fábio Campos, é uma referência da crônica política cearense. Envolvido em outros projetos, o titular passou a compartilhar a assinatura da coluna com mais dois colaboradores. Essa opção editorial merece uma reflexão sobre alguns riscos. Falo como leitor assíduo daquele espaço.

Primeiro, a coluna e seu editor, com o tempo, se associaram indelevelmente. Existe ali uma identidade e um estilo bem construídos e devidamente aceitos por seus leitores. Ainda que se discorde que lá é publicado, é preciso reconhecer que suas ideias são colocadas com cuidado e esmero. Mesmo quando somente às segundas o texto era escrito por outra pessoa, mantinha-se mais ou menos o tom da coluna.

Mas ultimamente a linha editorial que fez o sucesso da coluna parece não ter mais a mesma unidade. É claro que os outros jornalistas que divedem o memso espaço tem suas próprias análises, mas quando elas passam a destoar demasidamente do estilo e da essência do titular, fica estranho.

O texto deste domingo (30), assinado por Kamila Fernandes, é um bom exemplo. Transcrevo trecho abaixo e em seguida comento:

Quanto custa uma aliança
Que o Governo Lula depende do PMDB para a sua “governabilidade”, ninguém duvida. (…) A situação é explicável pela seguinte lógica: se a disputa ao Senado ganhar um terceiro candidato forte, além de Tasso e Eunício, como defende a futura presidente do Diretório Estadual do PT, a prefeita Luizianne Lins, que já repetiu que quer o ministro José Pimentel no páreo, o embate ficará bem mais acirrado, já que um dos três ficará sem mandato no final. (…) Afinal, o que se quer, eleger um aliado específico a todo custo ou fortalecer a base governista – para, aí sim, garantir a tal da “governabilidade” sem precisar passar por constrangimentos como os vistos no caso Sarney e no Mensalão (na hipótese de Dilma Rousseff se eleger)?

Vamos entender a lógica do que foi exposto por uma analista política profissional que passou a ocupar um valioso espaço. De cara, para ela, o mensalão e a indecência do apoio a Sarney foram meros “constrangimentos” impostos ao petismo por conta da governabilidade. O PT mesmo nem queria, mas se viu obrigado…

Em seguida, de forma explícita, é sugerido o  reforço da base governista no Senado para que o Planalto não necessite dos serviços de parlamentares inescrupulosos. Fica claro então, que a solução, no Ceará, é o governo Cid pensar na governabilidade do PT e apoiar as candidaturas de Eunício e de Pimentel. Mas, o que Cid ganharia com isso? Ela não diz, pois sua argumentação se baseia no ponto de vista de apenas uma das partes.

Resumindo: para evitar constrangimentos, a solução, segundo a analista, é riscar do mapa o único desses políticos que critica abertamente o mensalão e a presidência de Sarney no Senado, que é o senador Tasso Jereissati. Dessa simpática equação, podemos concluir que os problemas éticos do governo Lula são causados pela… oposição. Quanto menor e mais fraca ela for, mas virtuoso será o governo petista. Quem sabe, para que o governo não tivesse mais problemas com a governabilidade, a oposição devesse aderir (!?). José Dirceu iria às lágrimas.

A hipótese de Lula romper com Sarney e apoiar outro candidato no Maranhão não existe.

A possibilidade de que picaretas que haviam perdido poder nos últimos anos tenham voltado a se fortalecer porque o governo Lula patrocina o descrédito institucional do parlamento também não existe.

A sugestão de que o mensalão foi uma ação deliberada e calculada justamente para fortalecer picaretas, essa nem passa no horizonte.

José Pimentel, com certeza, concorda com a coluna deste domingo. E Fábio Campos? Endossaria ele o texto de Kamila Fernandes?

Degradação institucional calculada

Artigo publicado no jornal  O Estado

O expurgo promovido pelo governo Lula na Receita Federal, com a demissão de funcionários ligados à ex-secretária Lina Vieira, pode até parecer uma novidade, mas trata-se apenas de mais um ataque às instituições democráticas, algo comum nos últimos anos. O mesmo vem sistematicamente acontecendo em outros órgãos, como Polícia Federal, SNI e até o Senado, onde a oposição é mais forte.

Os dois primeiros foram utilizados para perseguir adversários de Lula em diversos episódios, como o dos aloprados ou dos grampos telefônicos. A matriz de toda essa degeneração está no modo como o governo enxerga essas instituições. No fundo, desejam subjugá-las  partido a que pertencem.

Reparem na foto do painel e vejam o socialismo do século 21. Somos a lata de lixo da História.

Reparem na foto do painel e vejam o socialismo do século 21. Somos a lata de lixo da História

Certa feita o presidente Lula disse que na Venezuela de Hugo Chávez havia democracia em excesso, não obstante o fato de que o discípulo de Fidel Castro implanta, paulatinamente, uma ditadura populista de esquerda em seu país. Esses três, juntos com Rafael Corrêa, Evo Morales e gente como Manuel Marulanda (falecido chefe das Farc), entre outros, são companheiros de longa data, desde o início das atividades do Foro de São Paulo, grupo que reúne partidos e entidades de esquerda latino-americana para traçar planos de ação continental. O último encontro aconteceu em agosto passado, no México.

São líderes que ainda enxergam o mundo presos aos antolhos da paixão ideológica mais atrasada, de viés maniqueista, que pode ser resumida pela idealização de um antagonismo entre a esquerda boazinha e a direita perversa (apesar de que o comunismo foi a doutrina mais mortífera da história humana).

Assim, quando um membro do clube fala em excesso de democracia, na verdade acusa, quase perplexo, a ação do que consideram ilegítimos focos de resistência, como partidos de oposição e veículos de imprensa (outro pilar institucional da democracia) que teimam em exercer a liberdade de expressão. Como podem não aderir aos propósitos de seres tão angelicais e puros?

Não por acaso, os maiores alvos nos países liderados por esses elementos, são sempre a imprensa, os parlamentos e o Judiciário. Para eles, mais democracia é menos pluralidade e mais permissividade. Os neopopulistas alardeiam que a democracia deve ser direta sempre. Esse processo de mudança de eixo do significado de democracia para referendocracia, como bem ensina o jurista Paulo Bonavides, é um golpe cuja intensidade pode variar conforme o grau de estabilidade de um País.

De todos os membros do Foro de São Paulo, o Brasil tem o melhor arranjo institucional. No entanto, os sucessivos escândalos, as intromissões, os desvirtuamentos, a patrulha, o aparelhamento e os expurgos, são amostras claras de que o grupo hoje aboletado no poder trabalha para subjugar o Estado brasileiro às vontades de uma ideologia e de um partido.

Líderes que inspiram…

Não dizem que o exemplo vem de cima? Pois é, para o bem e para o mal. A charge do Amarildo para A Gazeta (ES), retrata bem essa máxima.

amarildo

Os piores na escala da degradação

Desde criança trago comigo a convicção de que assumir os próprios erros é uma questão de honra. A possibilidade de arcar com as consequências desses erros é algo de que devemos estar sempre conscientes. Menino ainda, nunca me rebaixei a pedir notas indevidas a professores. O preço de não estudar para um prova de biologia  (responda leitor: o que é um condrioma?), é ser reprovado nela.

Esse preâmbulo serve de referência para tratar de outro assunto. A falta de coragem de alguns políticos na hora de defender José Sarney no Conselho de Ética. Isso mesmo. Até para errar é preciso coragem, quando o erro é deliberado.

A revista Veja desta semana mostra como os senadores Delcídio Amaral e Ideli Salvatti, ambos do PT, foram obrigados a votar pelo arquivamento das denúncias contra o presidente do Senado. Sorrateiros, os dois proferiram seus votos longe dos microfones. Aloísio Mercadante, ex-estrela da sigla, chegou a simular indignação e fez um dos maiores papelões da história política do país (ver post anterior). A revista teve o cuidado de lembrar que a ressistência dos nobres petistas não foi fruto de nenhum escrúpulo ético, mas medo de ficarem mal vistos pelo eleitorado em 2010.

A Isto É também abordou o assunto, relacionando a tropa de choque que salvou Sarney. A matéria é muito bejm sintetizada por duas fotos montagens, que por si, bastam. Reproduzo abaixo a segunda. Adivinhem quem é o soldado raso no canto direito da imagem? Ele mesmo: Inácio Arruda (PC do B), o senador do Lula no Ceará. O homem da luta do povo! Ô Inácio, ô Inácio!

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Em comum, quase todos os que defendem Sarney exercem sua subserviência aos desmandos de Lula e Renan Calheiros nas sombras, silenciosamente. Quando cobrados, falam em deveres partidários, na manutenção da governabilidade, responsabilizam terceiros, sempre tergiversando a respeito da essência do debate.

Na última semana, quando Lula decretou que era preciso salvar Sarney, o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, foi claro ao abordar os reticentes: “Ser governo tem ônus e bônus. Agora é a hora do ônus”. 

Por isso é que no exército governista alguns são oficiais e outros não passam de bucha de canhão. Berzoini pelo menos tem a coragem de arcar com seus atos, ainda que sejam atos vis. Diferente desses outros que se acovardam.

Isso me faz lembrar do filme O Poderoso Chefão. Vocês sabem, para ascender na organização, até os mafiosos precisam demonstrar uma certa hombridade.

Esses covardes que sustentam as pilantragens do governo mas que escondem o rosto e baixam a voz na hora do serviço, conseguem ser piores que seus chefes.

A diferença entre Sarney e o brasileiro comum

Meus amigos,

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Nos últimos três dias não pude postar por causa de compromissos profissionais. Na verdade, estou me aventurando na condição de pequeno empresário, com uma empresa de produção e gestão de conteúdo para a internet.

Para conseguir empreender essa atividade, é preciso se envolver num emaranhado burocrático composto de visitas a repartições públicas, coleção de certidões negativas de débito, siglas, impostos e taxas.

É óbvio que essas precauções são importantes, para preservar a saúde do sistema produtivo. Todo esse trabalho deveria servir para impedir, ou pelo menos dificultar a ação de bandidos.

Mas durante esses dias fiquei com uma sensação constrangedora. É que dá trabalho você provar que é honesto, que não é ladrão. Qualquer um que tenha pleiteado um financiamento habitacional na Caixa Econômica sabe o que estou falando.

E nessa luta para provar que não devo nada e que tenho o nome limpo, me lembrei do arquivamento das denúncias contra José Sarney no Conselho de Ética do Senado. Assim, fica claro que Lula tinha razão. Sarney não é uma pessoa comum, assim como eu. A ele, pessoa pública, tudo é permitido. Nada lhe é cobrado.

PS. Aloísio Mercadante, que simulou uma indignação com o teatro do Senado, blefou alardeando que renunciaria à liderança do PT, mas depois recuou. Quis transferir o ônus da malandragem para o Planalto. Se deu mal, uma vez que ficou com a imagem desgastada como promotor de maracutaias e subserviente covarde. Mercadante é a face expressa do petismo no legislativo.

Lula desafia ex-secretária da Receita. Aí tem…

Vez por outra afirmo que política é coisa para profissional. Afora o calor de um debate, a regra é que as declarações de um ator político sejam calculadas. As mensagens enviadas ao público via imprensa são pensadas em várias etapas. Desde o escalado para falar (a depender da autoridade e da credibilidade) até a forma como o conteúdo será tratado. Não se fala de graça. Todo pronunciamento tem um objetivo certo. Muitas vezes pode parecer tolo, despropositado, mas nas entrelinhas há sempre um recado para aliados e/ou adversários.

Faz mais de uma semana que o disse-me-disse entre  a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ocupa o noticiário. Lina hoje vai ao Senado falar sobre o tema. Por enquanto, é a palavra de uma contra a da outra. E mesmo assim, mesmo sem ter apresentado, até o momento, provas de ter sido pressionada a encerrar uma investigação contra a família Sarney a mando de Dilma, o assunto rende. Por quê?

Simples. Dilma não tem credibilidade. Já foi pega mentindo em várias ocasiões, como quando negou ter produzido um dossiê contra o ex-presidente FHC e depois, comprovada a existência do dossiê, ela passou a chamá-lo de “banco de dados”. Também teve o caso do falso currículo apresentado pela ministra, que dizia ser mestra e doutora, e que depois foi desmentida pela revista Piauí e pela Unicamp.

Mas mesmo um mentiroso – no caso, mentirosa – pode, eventualmente, falar a verdade. Pode ser que Dilma não tenha feito o que Lina disse. Nesse caso, não haveria porque se preocupar tanto. Mentira, como bem sabe a ministra, tem perna curta.

Chamem o Lula
Desta feita, é curioso e aparentemente um exagero ver Lula escalado para desafiar uma ex-subalterna de segundo escalão, como mostra notícia d’ O Globo de hoje (clique para ler):

Lula desafia ex-secretária da Receita a provar que se encontrou com Dilma

Há duas hipóteses para a ação de socorro. Lula tenta desqualificar a acusadora montado em sua popularidade porque já teria percebido que a imagem da ministra foi duramente atingida por uma simples acusação – fato que pode minar a candidatura dela, por se apresentar demasiadamente frágil a ataques. Ou então, bem, Lula sabe que Dilma tem culpa no cartório e que o caso tem potencial para se transformar em um escândalo daqueles.

É sintomático que seja necessária a ação do presidente. Normalmente, para ajudar a colega seriam escolhidos parlamentares, ministros, como o da Fazenda , ou mesmo o atual secretário da Receita, sei lá. Mas se Lula entrou no disse-me-disse foi por cálculo. Nunca é de graça.

Como um oposicionista é o favorito na sucessão do presidente mais popular?

O jornal Folha de São Paulo publicou neste final de semana uma rodada de pesquisas do Instituto DataFolha para a disputa presidencial e sobre a popularidade do presidente Lula. Eis as manchetes na Folha Online:

1 – Lula passa por crise sem perder alta aprovaçãoSegundo a pesquisa, para 67%, seu governo é ótimo ou bom, variação dentro da margem de erro na comparação com a última pesquisa, feita em maio, quando Lula atingiu 69% de aprovação;

2 – José Serra mantém dianteira sobre Dilma e Ciro; Marina tem 3%O tucano tem 37% das intenções de voto. Presença constante com o presidente Lula em eventos pelo país, Dilma manteve 16% e está tecnicamente empatada com o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), com 15%.

Wanfil
A indagação mais interessante a ser feita nasce do cruzamento das duas pesquisas. Afinal, como um presidente com tamanha popularidade pode ter como favorito à sua sucessão justamente um político do maior partido de oposição?

A resposta é longa. Serra evita o confronto direto com Lula, uma vez que ele não será candidato. Mais ainda. Evita críticas radicais aos principais programas do atual governo. A intenção óbvia é evitar a impressão de candidato de ruptura. Serra voltará ao lema “continuidade sem continuísmo”. traduzindo: se mostra ao eleitorado como alguém que preservará o que é bom e ajustará o que saiu dos trilhos.

É uma boa fórmula, por enquanto, como atestam os números. E sua verossimilhança, para o público, advém de um fato que a candidata Dilma não pode negar: o governo Lula foi, em grande medida, uma continuidade e um aprofundamento das diretrizes lançadas no governo FHC. É só lembrar. Enquanto Lula falava em romper “com tudo o que aí está”, perdeu. Mas depois de moderar o discurso, levou.

Quer dizer que Serra já ganhou? Não, claro. Significa que na largada ele tem a melhor estratégia. Boa parte desse desempenho pode ser creditado ao recall de sua últimas candidaturas. Contra ele pesa o desempenho irregular no Nordeste (onde lidera com a menor folga, mas lidera) e a fama de antipático. Mas Dilma, sua principal concorrente até o momento, não é um flor de simpatia,não é mesmo?

Mais tarde volto a tocar no assunto, abordando Dilma e Marina.

Aos patrulheiros do blog

Ei, psiu! Você mesmo que anda me patrulhando. Quero dizer algumas palavras que não são dirigidas a sua pessoa em especial. Fazer isso seria negligenciar as causas de um fenômeno mais complexo. No fundo, não o vejo como má pessoa. Por isso essas linhas resumem um esforço interpretativo de um quadro geral no qual você está inserido, provavelmente sem se dar conta disso, por obra de um processo educacional deficiente.

Saiba, desde já, que aquilo o que você entende por isenção jornalística não passa de subserviência a uma agenda político partidária cuidadosamente elaborada e minuciosamente trabalhada durante os últimos 40 anos no Brasil. Evidentemente você não dispõe das ferramentas conceituais ideais para entender certos processos de dominação cultural que fazem a assimetria no debate público parecer algo normal na sua visão. Aliás, você nem sequer vê assimetria. Por isso tentarei ser o mais didático possível.

A quase totalidade dos jornalistas hoje no Brasil foram formado a partir de um projeto de “hegemonia” adaptado da obra do pensador comunista italiano Antonio Gramsci. Assim, caro patrulheiro, seus professores queridos lá da faculdade de jornalismo – os intelectuais – eram na verdade agentes de influência imbuídos da missão de preparar profissionais aptos a enxergar o mundo, e também a julgá-lo, de acordo com “imperativos categóricos” definidos pelo Partido Comunista. No Brasil, o ator desse enredo é mais amplo e por isso mais capilarizado: é o movimento esquerdista quase inteiro, com suas várias nuances. No princípio, o trabalho foi coordenado por grupo consciente do que fazia, mas depois, com o tempo, a prática virou regra e a regra virou vício até ser incorporado ao senso comum. Daí que no Brasil os jornalistas chamam Fidel de “presidente” ou “líder” cubano, e nunca de ditador, tudo com a maior naturalidade e sem o menor estranhamento.

Dominadas as escolas e as faculdades, o passo seguinte foi o da “ocupação de espaços” nos veículos jornalísticos. Sim, os “patrões” tinham a propriedade material desses instrumentos, mas não dispunham dos corações e mentes de seus operadores. Feito o “trabalho de base” nas redações, a esquerda nacional conseguiu impor seus critérios ideológicos como se fossem a única norma existente, a única norma possível do bom jornalismo.

Portanto, entenda o seguinte: o que você imagina ser pensamento crítico é na verdade propaganda esquerdista inoculada desde a escola até a universidade, quando você aprendeu que ser jornalista é ser um “agente de transformação social” (a senha politicamente correta para militante). O seu trabalho não consiste em informar o público, mas fazê-lo dócil para a absorção inconsciente de um hábito. Com você, esse público aprende que certas “causas” são justas em suas origens, como o ambientalismo e os movimentos sociais, entre outras, sem questionar sua vinculação com partidos políticos e o acesso privilegiado que seus líderes tem ao dinheiro público. Aliás, para você, fazer tais questionamentos é um ato de lesa-pátria, de traição ao que há de bom no mundo, é, em suma, ser de direita, o maior dos pecados. Isso é discriminação ideológica, mas longe de você se imaginar alguém capaz de discriminar, não é?

Essa formação se alia ao espírito corporativo das categorias. Assim, quem quer que destoe dessa postura, cínica e convenientemente chamada de preceito ético pelos que a normatizaram acaba por ser rapidamente rotulado de direitista, reacionário, etc. No fundo, você não tem a mínima ideia do que seja direita ou conservadorismo no Brasil e ndico a leitura de Paulo Mercadante)mais ainda no mundo (i, uma vez que essas informações lhes foram negadas na sua educação. Você apenas apreendeu, como um animal amestrado, os preconceitos e as distorções sobre essas linhas de pensamento político. E as repete com ares de sapiência, tal como seus colegas.

Assim é que você, ao ler o meu blog, se assusta. E para matar a semente de qualquer dúvida que possa abalar as certezas que lhe garantem a paz de espírito (o trio luta de classes, maniqueísmo e dialética lhe bastam para explicar o mundo) você passa a me difamar, alertando os demais contra o perigo daquilo o que digo e penso, na certeza de que age candidamente pelo bem geral do jornalismo. E aí, voluntariamente, você escolhe a ignorância que um dia lhe impuseram.

Cuca: na ruína de uma escola em construção

O título do post foi pinçado de uma música de Caetano Veloso: Fora de Ordem. Cabe como uma luva para retratar, digamos assim, o “padrão de excelência” das obras feitas pela Prefeitura de Fortaleza.

Cuca
Vejamos o mais recente exemplo prático dessa realidade. Promessa para primeiro mandato de Luizianne Lins, somente agora o Centro Urbano de Cultura, Artes, Ciência e Esportes (Cuca) de Fortaleza, localizado na Barra do Ceará, será entregue à população (faltam mais quatro, que nesse ritmo, precisarão de mais oito mandatos para serem concluídos).

No entanto, mesmo antes de ser inaugurado, o Cuca já apresenta pichações em muros extenos, além – vejam só – de paredes rachadas e buracos no calçamento. Começo a desconfiar que o nome Che Guevara para o Cuca é mais do que adequado, uma vez que o sanguinário revolucionário, como administrador, foi um retumbante fracasso. Bom, melhor do que palavras, somente imagens. Vejam as fotos publicadas no site Jangadeiro Online.

PS. Outro trecho da música: “O asfalto, a ponte, o viaduto / Ganindo prá lua / Nada continua…”

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As lições da crise no Senado

Artigo publicado no jornal O Estado

Os escândalos e os desacertos, apesar de sua natureza negativa, podem servir de alerta ou lição para os que souberem tirar bom proveito deles. O homem inteligente – ensinava Aristóteles – aprende com os deslizes alheios. Assim, é possível afirmar que os erros possuem, ainda que involuntariamente, um aspecto pedagógico.

Por esse ângulo, a crise no Senado Federal brasileiro é uma rica oportunidade de aprendizado. O seu desenrolar é a confluência de uma série de vícios antigos e recentes que se misturam num caldo de interesses e disputas. Nela podemos ver a fragilidade do sistema partidário brasileiro, com siglas de aluguel e partidos sem programas. Há patrimonialismo, o clientelismo, e a impunidade, representada na composição do atual Conselho de Ética do Senado. O desgaste institucional, com a excessiva interferência do poder Executivo em assuntos do Legislativo, também deteriora o quadro.

Tudo isso é matéria para estudiosos analisarem, de magistrados a cientistas políticos. No entanto, é possível também que o maior interessado nisso tudo tire lições positivas. Afinal, essa crise política é uma oportunidade para o eleitor perceber que o seu voto é também uma responsabilidade.

O Ceará possui três representantes no Senado. Como eles estão agindo nesse momento difícil? Estão do lado de quem? O seu senador é a favor ou contra a permanência de José Sarney na presidência do Senado? Ele está junto com Renan Calheiros e Collor de Mello? O senador que pediu o seu voto age como você esperava?

É bom lembrar que Sarney, Renan e Collor são poderosos porque lideram outros senadores. O seu senador é liderado por eles? Muitos parlamentares ficam calados, evitam o assunto, tergiversam a respeito e são dúbios. Esses é que dão sustentação às imoralidades que temos visto. Agem em surdina e escondidos. O seu senador veio a público dizer que não aceita esses líderes no Congresso Nacional?

Ano que vem tem eleições para o Senado. Os candidatos articulam, buscam apoios, testam imagens. O que eles acham da crise? Como se comportam? Tasso Jereissati (PSDB), que pode postular um novo mandato, firmou posição contrária a trinca que hoje dá as cartas naquela Casa. O que dizem outros possíveis candidatos? O que dizem hoje Eunício Oliveira (PMDB), Chico Lopes (PCdoB) e José Pimentel (PT)? Esses senhores poderiam utilizar as páginas deste jornal e posicionar-se a respeito. A não ser que prefiram o silêncio obsequioso dos omissos. Ou que esperem que o eleitor não tire lição alguma de tudo o que está acontecendo.

Por que Lula não rompe com as velhas práticas?

Trecho do artigo assinado pelo engenheiro-civil Francisco de Queiroz Maia Júnior, no O Povo desta quarta:

A crise não é só do Senado…
Como um governo e um presidente que alardeiam ter aceitação de quase 80% se submetem aos caprichos de Sarney, Renan e sua trupe? Por que Lula não usa seu prestígio para romper com velhas práticas e aprimorar as instituições republicanas?

Wanfil
Qualquer governista sacará do bolso aquela conversa sobre a impossibilidade de um homem sozinho lutar conta o status quo. Existe discurso mais establishment do que esse?

A desculpa torna-se tanto mais verossímil pelo motivo de que realmente é difícil, dificílimo, alguém liderar mudanças nas estruturas políticas de uma nação. Como é de se esperar, reações dos que estãoacomodados em vantagens no sistema vigente, haverão de surgir.

O dado constrangedor a ser observado, instigados pela pergunta de Maia Júnior, é o seguinte: Lula fez algo pelo menos parecido com uma ruptura com práticas políticas arcaicas que dominam o Brasil? A resposat é NÃO! Os programas de transferência de renda, que de certo modo eliminaram os atravessadores de benesses estatais que existiam no passado, foram criados pelo governo anterior.

Ah! Mas FHC não rompeu com Renan e Sarney! Sim, é verdade. E por isso o povo brasileiro elegeu para substituí-lo aquele que dizia que romperia com isso. Ou não foi assim?

O fato inegável é que Lula optou pela tática do caminho mais fácil: o da cooptação pelo vício. Aprimorou isso com o mensalão e acabou refém do PMDB. Mas a tática, como sabemos, serve a uma estratégia. E aí reside a resposta para a indagação do título deste post. Lula e o PT não vieram para mudar o sistema, mas para dominá-lo, para se assenhorear dele para extrair poder.

Os acordos com parlamentares venais são uma forma de ganhar tempo, enquanto os companheiros assumem o controle da máquina pública, completando o serviço que iniciado no sindicalismo e depois na sociedade civil organizada – hoje, com poucas exceções, um mero apêndice do petismo. Em breve chegará o tempo em que o PMDB poderá ser descartado. Mas isso não implicará em ruptura. A mudança é que o estado brasileiro terá apenas um senhor.

Sociologia para principiantes

Reproduzo abaixo um artigo do sociólogo Luís Gustavo Guerreiro Moreira, do Observatório das Nacionalidades – UFC/Uece, publicado no jornal O Povo desta segunda-feira (10). Merece alguns comentários, que faço na cor azul e intercalados ao texto original, que segue em vermelho.

A nova ofensiva imperialista

Outro dia escrevi sobre o equívoco de se encarar Barack Obama como salvador do mundo na era pós-Bush. Naquele momento, Obama havia colocado um ex-oficial linha dura, alinhado com os interesses de Israel na sua chefia de gabinete, sinalizando o rumo da política externa estadunidense.

Quer dizer que ser alinhado com Israel prova de má fé? Por que? Os diplomatas gostam de dizer que a melhor postura é a da neutralidade, eu sei… Mas no caso escolhido como refrência é preciso lembrar que a questão é mais complexa. No ano passado os israelenses lutaram contra os terroristas do Hamas, em território palestino. Uma postura de neutralidade seria uma forma indireta de coonestar com os terroristas. No entanto, parece que escolher o lado que combate essas forças, para alguns, é coisa de militar “linha dura” (existe linha mole?).   

Quis apenas alertar sobre um problema clássico da sociologia: a individualização do processo social; tão bem teorizado por Norbert Elias e Louis Dumont. O que caracteriza o lugar do indivíduo em sua sociedade é a extensão da margem de decisão que lhe é conferida pela estrutura e pelo processo histórico ao qual se insere. E aquilo que denominamos “poder” não passa da amplitude dessa margem de decisão. Obama é um exemplo clássico. Ao contrário do que se pensa, ele é o governante do establishment e da política “suave e inteligente”.

Traduzindo: uma pessoa não pode nada contra o sistema, é preciso uma conjuntura. Esse é o pensamento de sustentação do texto. Por isso seria ingenuidade esperar que Obama, tão celebrado como o anti-Bush, agisse contra os interesses de seu próprio país. O problema é que, mais a frente, no final do artigo, essa tese é contestada pelo próprio autor que a defende.

Previsão confirmada: basta ver o abrandamento das críticas ao governo golpista de Honduras e a instalação de três bases militares estadunidenses na Colômbia, que possui 1.644 km de fronteira com a Amazônia brasileira. Trata-se de um enorme problema para a soberania nacional, pois a ação militar se dará sob o falso pretexto de “combate ao narcotráfico e ao terrorismo das Farc”. Justificativa usual nas ações imperialistas militares dos EUA no restante do mundo. Não é de hoje a cobiça sobre a Amazônia. Também não é de se estranhar que as bases serão instaladas em um país cujo presidente está na contra-mão do quadro político regional.

Eis a motivação política do artigo: defender o bolivarianismo de Hugo Chávez, aqui chamado de quadro político regional. Daí a chateação com a Colômbia  e com Honduras, os únicos países que não aceitam a degradação institucional do modelo chavista. Ademais, o problema de combate ao narcotráfico não é pretexto coisa nenhuma. Parte do território colombiano é controlado por narcotraficantes marxistas das Farc, grupo terrorista que conta com o apoio político e operacional – agora atenção para o conceito de soberania nacional – da Venezuela. Ou seja, Chávez ajuda foras-da-lei a enfrentar um governo democrático. Pesquisem sobre os mísseis suíços vendidos ao exército venezuelano e que acabaram capturados nas mãos das Farc. Sobre a cobiça dos americanos em relação a Amazônia, isso é pura especulação, sem embasamento consistente. É histrionismo ideológico.

É real o perigo de instabilidade militar, política e de agressão à soberania dos países vizinhos. O governo Lula deve assumir o papel de protagonista no enfrentamento dessa questão na próxima reunião de cúpula da Unasul, no Equador. No âmbito interno, deve reforçar o Comando Militar da Amazônia. Caso falhe, teremos um novo foco de tensões internacionais, onde a Colômbia poderá a cumprir o mesmo papel de Israel no Oriente Médio. E não é isso que a nação colombiana, nem as sofridas nações latinas precisam nem desejam.

Sobre a questão militar já falei acima. Mas é nesse ponto, na finalização, que podemos ver como a ânsia da propaganda política derruba a lógica. Se Obama nada pode contra o “establishment” do poder, se a “margem de decisão que lhe é conferida pela estrutura e pelo processo histórico ao qual se insere”, como esperar que Lula, aquele que manteve a política econômica que antes criticava, que se alia a Sarney, Renan e Collor para manter a governabilidade, possa, sozinho, mudar algo?

Lula, Renan, Collor e Sarney: os bons companheiros

Semana difícil, muito trabalho, etc e tal, e que pode ser resumida pelas imagens das ações coordenadas e calculadas que colocaram no centro do debate político figuras que deveriam estar no ostracismo por ostentar um currículo de escândalos, processos e trapaças. Gente como Renan Calheiros e Collor de Mello, que para salvar a pele de Sarney, desafiaram, com ares de indiganção e com direito a lição de moral, senadores como Pedro Simon e Tasso Jereissati.

Quem acompanha o noticiário a mais tempo, desde a época em que Lula, Renan e Sarney eram adversários inconciliáveis, tem a noção de como esses três agem movidos a esperteza. A convicção deles é a conveniência da hora. Já Simon e Jereissati, ainda que não se goste deles, nunca precisaram dizer que hoje mudaram de convicção. O que diziam no passado é o que sustentam no presente. E isso diz tudo, não é mesmo? Collor agora defende quem antes ele acusava, os mesmos que um dia o acusaram. Renan, idem. Lula, idem.

Sobre os episódios da semana, reproduzo o comentário da jornalista Kézya Diniz, exibido no Jornal Jangadeiro 2ª Edição desta sexta-feira (7). Irretocável:

Depois do recesso [no Congresso], a volta dos trabalhos. E a crise, que não tirou férias, ganhou reforço nos embates cada vez mais acirrados. Mas em termos de ações efetivas, pouco foi feito no sentido de resolver o problema.

A CPI da Petrobras ficou em segundo plano, ainda sim, acabou aprovando uma agenda de trabalho que jogou toda a polêmica para depois. No caso de José Sarney, a tropa de choque partiu para chantagem com tentativas de intimidação contra quem encontrou pelo caminho. O Conselho de Ética é uma verdadeira piada. Como se não bastasse, a crise teve nova repercussão internacional.

O jornal americano The New York Times diz que Sarney vive um escândalo de nepotismo e corrupção que ameaça paralisar o governo do presidente Lula. Nosso presidente colhe os frutos que plantou. Vale lembrar que sem Lula, Sarney não seria sequer candidato. O nome indicado pelo PT foi outro:  senador Tião Viana.

O estrago já foi feito mas ainda dá tempo de juntar os cacos. Resta saber quando o quarteto nada fantástico formado por Collor, Renan, Sarney e Lula vai enfim deixar de olhar para o próprio umbigo e respeitar a opinião de quem os elegeu.

Nosso herói importado

Artigo publicado no jornal O Estado

“Pobre do país que precisa de heróis”, dizia Bertold Brecht, o dramaturgo oficial da extinta Alemanha Oriental, mas que no Brasil virou símbolo do humanismo socialista. Assim como Karl Marx, Brecht amava o povo, desde que se concordasse com ele. Para o resto, um bom pelotão de fuzilamento bastaria. Eis o humanismo dessa gente.

Sendo assim, o correto então é dizer: feliz o país que possui heróis. Mas heróis genuínos, forjados pela combinação de coragem para enfrentar as adversidades vividas por seus compatriotas e a consciência cívica no cumprimento dos deveres humanitários.

Na ausência dessas figuras capazes de representar a identidade e o espírito de um povo, o negócio é apelar para personagens de menor estatura e elevá-los a uma condição maior. Assim é que um país, ao viver crises profundas, mas carente de pessoas que possam servir de referência para atravessar o período conturbado, acaba confundindo ídolos com heróis. Erro semelhante ao de imaginar que paixão é amor.

O herói nacional que precisou sair do país para ter uma chance foi capa de Veja

O herói nacional que precisou sair do país para ter uma chance foi capa de Veja

No Brasil, esse fenômeno tem uma característica bem acentuada. É que nas últimas décadas, temos feito de esportistas heróis nacionais. O mais novo é o nadador César Cielo, o fenomenal campeão olímpico que na semana passada quebrou o recorde mundial dos 100 metros, em Roma.

Evidentemente ele possui qualidades que servem de exemplo não só aos brasileiros, mas a todos, sem distinção de nacionalidade. Mas herói? Isso é um exagero. Bem vista a trajetória de Cielo, podemos notar que ele é antes uma amostra cruel de como o Brasil abandona os seus jovens talentos a própria sorte.

Sim. Só temos o nosso herói campeão graças a Universidade Auburn, nos Estados Unidos, que lhe pagava bolsa de 35.000 dólares anuais. Sem os americanos, não teríamos o que comemorar. É ufania local financiada pelo estrangeiro; uma espécie de nacionalismo importado. Antes disso, em 2008, o próprio Cielo revelou, quando todos comemoravam sua conquista em Pequim: “De 2006 até antes do Pan do Rio, tudo foi bancado pelo meu pai, puro ‘paitrocínio’.”

Todos nós temos um pouco de César Cielo, com a diferença de que vivemos no anonimato. Homens e mulheres trabalham arduamente para construir e manter o Brasil, submetidos a uma carga de impostos indecente, para depois serem solenemente ignorados, enquanto políticos posam de benfeitores desinteressados. Adaptando Brecht, só resta concluir: pobre do país que precisa de outro país para ter heróis.

Na passarela…

Charge do Clayton para o jornal O Povo (ler post anterior- O socialismo de boutique contra o neoliberalismo):

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