Venezuela no Mercosul. Muitos falam sobre democracia, poucos a defendem de fato

Ontem, quinta-feira (29), a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou o ingresso da Venezuela no Mercosul. Em linhas gerais, a maioria dos senadores da Comissão votou alinhada com o governo Lula para rejeitar o relatório do senador Tasso Jereissati, que recomendava a não permissão para a entrada na Venezuela no Mercosul.

Em seu parecer, Tasso disse o que todos sabem, mas que alguns, por afinidade ideológica, buscam relativizar: Hugo Chávez, o presidente venezuelano, vem implatando por etapas uma nova forma de ditadura. Sim. Veículos de imprensa que criticam o governo são atacados e alguns já tiveram concessões arbritariamente canceladas. Os juízes, após mudança nas leis (o presidente tem maioria), têm prazos de atuação que só podem ser renovados por – adivinhem -: Chávez. A última foi a criação de uma milícia do governo, no melhor estilo das SS nazistas.

Muito se falou sobre o assunto. Mas o fato incontornável é que existe um protocolo que define critérios para que um país possa entrar (ou ser expulso) do Mercosul. Não se trata de avaliar a situação a partir de simpatias pessoais ou conveniências de qualquer ordem.

Uma rápida lida no Protocolo de Ushuaia, que define as regras do Mercosul, deixa clara a situação:

A República Argentina, a República Federativa do Brasil, a República do Paraguai e a República Oriental do Uruguai, Estados Partes do MERCOSUL, assim como a República da Bolívia e a República de Chile, doravante denominados Estados Partes do presente Protocolo, acordam o seguinte:

ARTIGO 1 – A plena vigência das instituições democráticas é condição essencial para o desenvolvimento dos processos de integração entre os Estados Partes do presente Protocolo.

Nesse sentido, o parecer foi corretíssimo ao definir que a Venezuela, hoje, não contempla os protocolos do Mercosul. As instituições democráticas venezuelanas estão rendidas ao chamado “bolivarianismo”. O Senado brasileiro deveria ter protegido o protocolo, o que significa proteger o continente de novas aventuras caudilhescas, como é tradição na América Latina. Mas preferiu ceder aos caprichos ideológicos do PT, com o argumento de que o ingresso é importante do ponto de vista econômico. É assim mesmo que hoje esses “democratas” enxergam o mundo: se der grana, os outros valores que se danem.

Segue abaixo a lista da votação na Comissão de Relações Exterior. Sempre que você ouvir esses senhores falando sobre a importância da democracia, lembre de como eles votaram, para saber se suas palavras correspondem aos seus atos.

A favor do ingresso da Venezuela no Mercosul:
Eduardo Suplicy (PT-SP)
Antônio Carlos Valadares (PSB-SE)
João Ribeiro (PR-TO)
João Pedro (PT-AM)
Pedro Simon (PMDB-RS)
Francisco Dornelles (PP-RJ)
Romero Jucá (PMDB-RR)
Paulo Duque (PMDB-RJ)
Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR)
Flavio Torres (PDT-CE)
Renato Casagrande (PSB-ES)
Inácio Arruda (PCdoB-CE)

Contra o ingresso da Venezuela no Mercosul:
Heráclito Fortes (DEM-PI)
Flexa Ribeiro (PSDB-PA)
José Agripino (DEM-RN)
Arthur Virgílio (PSDB-AM)
Tasso Jereissati (PSDB-CE)

Partidos políticos – 1ª parte

Artigo publicado no jornal O Estado.

Como é de praxe em anos pré-eleitorais, a movimentação de candidatos e forças políticas começa a se intensificar. A prática da infidelidade partidária e os conchavos ganham maior notoriedade nesses momentos. É a expectativa de poder atuando diretamente no que se convencionou chamar aqui no Brasil de pragmatismo político.

Considerando nossa história, marcada por sucessivos golpes, mudanças de regime, crises e interrupções, não é de estranhar que os partidos sejam frágeis e carentes de maior fixação nas camadas sociais. A regra, com as exceções que a definem como tal, é que essas agremiações sejam vistas apenas como instâncias burocráticas.

No Brasil, clubes de futebol são centenários, partidos políticos não. Já nos Estados Unidos, por exemplo, os democratas, correligionários de Barack Obama, disputam eleições desde 1790, e os republicanos desde 1837. Ou seja, são entidades consolidadas. Em países com inconstância política e institucional, as pessoas costumam seguir apenas indivíduos, ambiente ideal para salvadores da pátria e populistas.

Mas afinal, o que é um partido político? Nas democracias representativas, grosso modo, é o espaço para cidadãos apresentarem um programa de governo à sociedade, com base em pressupostos estabelecidos por uma ideologia, que vem a ser uma proposta de intervenção na realidade. Em suma, é o primeiro passo para por um ideário em prática.

Naturalmente, as circunstâncias e a pluralidade de ideias estimulam a existência de partidos mais ou menos antagônicos, com visões diferentes, que procuram convencer a maioria de que seus encaminhamentos para os problemas da sociedade constituem a melhor opção para resolvê-los.

A distância entre a formulação desse modelo de referência e a realidade partidária no Brasil é abismal. Somente o efeito do tempo e a estabilidade das regras eleitorais podem separar as virtudes dos vícios do nosso sistema. Cabe aqueles com maior nível de instrução, portanto, a responsabilidade de assumir a construção desse processo.

Existem políticos e grupos de políticos bem intencionados, porém, são poucos que sobrevivem imersos em indefinições e heranças malditas. Não adianta esperar por reformas. É preciso que o eleitor, de onde emana o poder, deixe de lado os partidos com programas velhos, abandonados no resto do mundo, bem como as siglas de aluguel, com suas propostas vagas, a serviço de arrivistas e oportunistas que lutam com fervor para que os partidos continuem desacreditados.

Continua na próxima quinta.

PS. A ideia para o próximo artigo é relacionar os vícios do nosso sistema partidário com seus protagonistas aqui no Ceará. O papel das principais siglas no Ceará.

Manual Hiperbolation Realization de Comunicação Tabajara

Quer transformar ações pequenas em feitos arrebatadores? Sua gestão carece de obras impactantes e você precisa dizer que é dinâmico e atuante? Seus problemas acabaram! Chegou o revolucionário (no sentido figurado) Manual Hiperbolation Realization de Comunicação Tabajara! Com ele, você, gestor carente de competência, pode fazer da troca de telhas quebradas e da pintura de portas e janelas em escolinhas em fabulosas ações de “reformas estruturais que estabelecem um novo marco no ensino fundamental”.

Agora é sério
Evidentemente, o parágrafo acima é uma referência ao humorístico Casseta & Planeta. No programa, é comum paródias da publicidade rasteira e sensacionalista que tenta vender para o público produtos supérfluos como coisas fundamentais e maravilhosas. Um dos segredos dessa atividade, bem denunciada pelo humor do Casseta, é o uso da hipérbole como compensação para a falta de qualidades inatas ao que se quer passar adiante.

Essa prática – e sua lógica – podem perfeitamente ser transferidas para a comunicação política de partidos e de instituições governamentais. O melhor exemplo hoje em dia desse fenômeno é a Prefeitura de Fortaleza. Sem grandes realizações a mostrar, o negócio é caprichar no “somebody love”, para lembrar outro humorístico (a Escolinha do Professor Raimundo). Já falei sobre isso em outros posts. Venho anotando esse “desafio” que sobrecarrega a assessoria de comunicação da gestão municipal. Mas sempre que leio um texto estilo “Tabajara”, não consigo evitar um misto de consternação, ironia e indignação.

Depois de transformar, na semana passada, a implantação de um simples semáfaro com faixas de pedestres no bairro Aldeota em um “programa de recuperação da sinalização horizontal de Fortaleza”, sem esquecer de explicar a complexidade da operação: “Para implantação de um semáforo é necessária a prévia adequação das sinalizações horizontal e vertical”, agora a Prefeitura utiliza o manual Hiperbolation Realization para fazer propaganda pegando carona no Dia de Finados (notícia do site da PMF):

Cemitérios se preparam para o Dia de Finados
Com a proximidade do Dia de Finados, os cemitérios de Fortaleza começam a se preparar para receber os visitantes. No Cemitério da Parangaba (Rua Napoleão Quezado, 365), cerca de 60 homens estão  realizando uma série de melhorias para garantir o conforto e a tranquilidade de quem vai visitar seus entes queridos. As principais ações são de limpeza, pintura e iluminação, além da poda de árvores. Já no cemitério de Messejana (Rua José Severiano, s/n), que deve receber cerca de 8 a 10 mil visitantes durante todo o dia, 15 homens intensificam os serviços de capinação, varrição e pintura de meio-fio no equipamento público e nas ruas do entorno. Os trabalhos acontecem nos dois turnos, manhã e tarde, com início às 8h.

Viram como ações dignas de uma prefeitura do interior, das pequenas mesmo, podem virar “uma série de melhorias”?

O que deseja o PSDB no Ceará: ser coadjuvante ou protagonista?

A convenção dos tucanos cearenses, no último domingo, agitou o noticiário políticos. O novo presidente da sigla, Marco Penaforte, em discurso eloquente e estrategicamente perfeito, afirmou: “Vamos decretar o fim da ambiguidade do PSDB no Ceará”, em referência ao papel do partido na relação com o governo estadual, liderado pelo PSB de Cid Gomes. Quem conhece Penaforte sabe que se trata de político dado a digressões filosóficas e ideológicas. Coisa rara. É, digamos assim, um romântico da política, do tipo que acredita que os valores de uma agremiação partidária estão acima das conveniências de momento ou da simples busca pelo poder.

Resumindo, o homem fala sério, uma vez que não é de fazer média apenas para agradar este ou aquele. Em certa medida, essas características acabaram por deixá-lo afastado do cenário político por algum tempo. Uns dez anos. Resgatado de seu isolamento – Penaforte sempre defendeu um partido com independência – as palavras do novo presidente soaram duras para muitos por um simples motivo: existe sintonia (e aprovação) entre ele e o senador Tasso Jereissati.

Mas ocorre que, apesar da conclamação e da sintonia, o PSDB não deixou a ambiguidade totalmente de lado. Tasso vai ser o candidato como pedem as bases de seu partido? Ele diz que prefere uma renovação nos quadros da sigla, mas não afasta inteiramente a possibilidade de disputar o cargo ao afirmar que está à disposição para fazer o que for necessário pelo Ceará e pelo PSDB. Na verdade, no diria que isso seja uma ambiguidade de todo calculada, como é comum na política. Tasso, em conversas que tive com ele, aparenta ter dúvidas sobre o futuro. No mundo ideal, ele seria reeleito senador e o partido lancaria um nome forte para disputar o governo do estado, de forma a se manter competitivo e atuante. Mas, no mundo real, isso pode significar um enfraquecimento fatal para o partido – uma vez que no momento não existem nomes fortes para substituí-lo – e a morte de um projeto ao qual ele dedicou a vida. Além disso, existem as responsabilidade inerentes àqueles que assumem a liderança de processos políticos. Parlamentares, militantes, prefeitos e simpatizantes dependem de suas decisões.

Precipitação
Se é precipitado dizer que Tasso é candidato ao Palácio Iracema, também é cedo para dizer que tudo é jogo de cena, como alguns já se apressaram em fazer. O cenário está aberto. Tasso poderia ter dito que não será candidato e pronto. Não foi o que aconteceu. Adiantando um pouco mais as peças do tabuleiro, o senador ainda afirmou que o mais importante agora é o PSDB pensar em termos de projeto, para só depois falar em nomes. Discurso que casa perfeitamente com a disposição de Penaforte em consultar, durante 90 dias, as bases e diretórios tucanos no estado para saber qual rumo tomar.

De resto é o seguinte: Cid é um parceiro dos tucanos que, por força das contingências, vive de braços dados com o PT. É sim uma situação constrangedora para o PSDB. Não adianta dizer que Cid nasceu no ninho tucano. A postura ambígua denunciada por Penaforte foi uma espécie de acomodação para garantir espaços. Mas um partido que se contenta com migalhas, convenhamos, não pode aspirar retomar o comando do processo político e administrativo no Ceará.

Vamos aguardar. O recado foi passado a Cid. O governador, evidentemente, não deve romper – especialmente um governo de “coalizão”, que trabalha para evitar o surgimento de nichos oposicionistas. Os parlamentares tucanos também não têm interesse em brigar com o governo, de forma a exporem seus colégios eleitorais. Esses somente se movimentarão conforme os próximos passos de Tasso. Entre eles há um pensamento que vem se consolidando. Tasso teria chances reais de ganhar o governo estadual pela quarta vez. E isso significaria trocar o papel de coadjuvantes pelo de protagonistas do poder. E isso soa como música para seus ouvidos.

Charge: coalizão infernal

A essa altura todos sabem que Lula usou mais uma de suas metáforas para explicar, digamos assim, o seu pragmatismo político adaptado aos vícios estruturais do sistema político nacional. Segundo o presidente, se Jesus fizesse política no Brasil, teria que se aliar a Judas para governar. Uma espécie de teologia do oportunismo. Dom Dimas, da CNBB, lembrou, para bem situar a inconveniência da metáfora, que Cristo jamais faria alianças com os fariseus.

Sobre o assunto, a charge do Newton Silva, para o Jangadeiro Online, é precisa e sucinta.

charge_coalizão infernal

Por que a oposição lidera as pesquisas?

Artigo publicado no jornal O Estado

Faltando ainda um ano para as eleições de 2010, muito pouco se pode afirmar sobre as condições dos possíveis candidatos que buscam galvanizar seus projetos eleitorais.

Os fatos que hoje mais atraem a atenção da mídia, como a dúvida do PSDB entre Serra e Aécio; ou como a campanha explícita que o presidente Lula faz para sua escolhida, a ministra Dilma Rousseff; não passam de assessórios que orbitam uma questão central: que discursos serão personificados por eventuais candidatos dessas forças políticas?

O ponto de partida é saber reconhecer que o eleitor brasileiro é conservador, ou seja, é avesso a mudanças radicais. Nesse sentido, o fato mais instigante e revelador do quadro eleitoral, atualmente, é constatar a liderança de José Serra nas pesquisas, que configura a inusitada circunstância onde um opositor é o favorito para suceder o governo de um presidente com alta popularidade.

Por enquanto o que temos é um governo com boa aprovação e um presidente bem avaliado que não conseguem produzir no eleitorado uma expectativa de continuação de sua obra.

A conclusão óbvia é que para esse eleitorado a opção por José Serra não significa, até o momento, uma ruptura, da mesma forma que o Lula da Carta aos Brasileiros não representou uma ruptura com o governo FHC. O petismo, nesse sentido, é refém do programa social-democrata dos tucanos. Com o agravante de ter produzidos distorções que ficam para agora não cabem ser discutidos (fica para outro artigo). De resto, desafio alguém a mostrar algo genuinamente criado pelo atual governo que tenha impactado na vida da população (não me venham com programas rebatizados ou segmentados).

Na verdade, é possível afirmar que o governador paulista encarna hoje a continuação de certas políticas do governo federal, já herdadas de seu antecessor, como a econômica e as sociais compensatórias.

Para os governistas, urge desconstruir essa imagem. E aí mora o perigo. Na ânsia de fazer Dilma uma candidata competitiva, capaz de representar avanços, os governistas apostam na falsa questão das privatizações, enquanto traficantes derrubam helicópteros, a desigualdade aumenta e a arrecadação cai pelo 11º mês consecutivo. Mas o desafio é grande, uma vez que para ter chance, Dilma precisa do apoio de figuras que representam retrocessos, como José Sarney e Renan Calheiros. Haja marqueteiro.

Fortaleza Bela e Che Guevara: tudo a ver

cheChe Guevara, não obstante sua aura mítica e falsa de angelical protetor dos oprimidos (logo um totalitarista), foi – como é fácil constatar em qualquer biografia, mas em especial naquela assinada por Jon Lee Anderson -, um fracasso como gestor de qualquer tipo de emprendimento. Por isso Fidel, após ter nomeado o companheiro para comandar a economia cubana, o despachou na primeira oportunidade, primeiro para missões diplomáticas, depois para espalhar a revolução no Congo e na Bolívia. Os resultados nunca passaram de fracassos. Fidel sempre foi mais astuto.

Esse breve preâmbulo ser de ponto referencial para que possamos entender as diretrizes gerenciais do projeto conhecido como “Fortaleza Bela”, comandado pela prefeita Luizianne Lins (PT), na capital cearense. Não por acaso a nossa marxista esotérica tem pendurado em sua sala um cartaz com uma pintura baseada na célebre (e editada) foto do revolucionário tirada por Alberto Koda. Não por acaso, mas por puro senso de sintonia, o Cuca, sua principal obra até o momento (a primeira de seis prometidas em 2004), foi batizada de Che Guevara.

Alguns falaram sobre uma possível polêmica nessa escolha. De minha parte, a considero justa. Justíssima. A obra de Che Guevara é a melhor figura para resumir a obra de Luizianne: muita propaganda e fracasso operacional. Com receio de parecer injusto (esse pudores pequeno-burgueses…), fui conferir o que está sndo feito pela Prefeitura de Fortaleza em seu site oficial. E vejam que maravilha (grifos meus):

Cruzamento na Aldeota recebe novo semáforo
A Divisão de Engenharia da Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e de Cidadania (AMC) implanta, na noite de hoje (20.10.09), um semáforo no cruzamentos (sic) das ruas Barbosa de Freitas com Desembargador Leite Albuquerque, na Aldeota. Trata-se de uma demanda da população que trafega/trabalha naquela área da cidade, onde o trânsito é bastante adensado devido à proximidade de shoppings centers e de vários outros prédios comerciais. Para implantação de um semáforo é necessária a prévia adequação das sinalizações horizontal e vertical. Faixas de pedestres e avisos de ’sinal’  foram pintados no chão nas ruas adjacentes.

SINALIZAÇÃO
Em continuidade ao programa de recuperação da sinalização horizontal de Fortaleza, a AMC iniciou nesta semana o restauro das faixas que balizam o trânsito na Avenida Raul Barbosa. Os trabalhos tiveram início na altura da confluência com a BR-116 e deverão se estender até a Avenida Beira-Mar, contemplando também a Avenida Desembargador Moreira. Os trabalhos são realizados sempre à noite para minimizar os transtornos no trânsito.

Já disse e repito. Esse pessoal da assessoria de imprensa da PMF é bom. Com bom humor e criatividade tentam dar ares de grandiloquência e sofisticação ao simples fato de se pintar faixas no chão. Varrer ruas, reparar meio-fio, consertar porta de prédio público, tudo isso se transforma em grandes obras, na evidente falta de algo consistente para mostrar. Che Guevara era igualmente hábil na arte do não-fazer, independentemente da vontade de fazer.

Um exemplo para ecncerrrar, em matérias publicadas no O Povo:

- Hospital da Mulher está afundando, afirma oposição (O Povo): “No calor da discussão, a bancada petista acabou admitindo que as denúncias dos opositores procedem”.

Nem Che Guevara não faria melhor.

Você conhece Friedrich Hayek? O que pensou Joaquim Nabuco? Fuja da doutrinação e procure suas respostas

PANFLETO_FA7_UFCA academia brasileira está prestes a testemunhar uma empreitada intelectual inédita no país. De Porto Alegre a Fortaleza, um grupo de jovens intelectuais percorrerá 13 cidades durante o mês de outubro com uma missão: apresentar aos estudantes universitários brasileiros o pensamento libertário, de apoio ao livre mercado, paz e direitos individuais.

O objetivo é apresentar diretamente a tradição liberal, muito distante das caricaturas inventadas por seus oponentes intelectuais, de direita e esquerda, como “neoliberalismo”. A iniciativa é do OrdemLivre.org, projeto da Atlas Economic Research Foundation em cooperação com o Cato Institute, dois think tanks sediados em Washington, sem vínculos partidários e sem qualquer patrocínio estatal. Todo o financiamento do OrdemLivre.org vem de contribuições voluntárias e da venda de publicações. O projeto consiste na realização de seminários nas principais instituições de ensino do país (UFGRS, UFSC, Unicuritiba, USP, FAAP, Faculdade Mario Schenberg, Ibmec-MG, UFMG, UFES, UFBA, UFAL, UFPE, UFRN, UFC e FA7) com conferências versando sobre crise econômica, globalização, socialismo, cultura.

As idéias de liberdade individual são universais, e unem pensadores como Joaquim Nabuco e Friedrich Hayek, mas suas aplicações encontram resistência de grupos de interesse que se beneficiam do status quo. O objetivo é convidar alunos e professores de todas as áreas do ensino para participar de um diálogo aberto que associe a teoria à prática das políticas públicas.

“Por décadas, os intelectuais de esquerda foram praticamente os únicos a apresentar aos estudantes brasileiros uma causa política baseada em princípios”, diz Diogo Costa, coordenador do OrdemLivre.org.

“Chegou a hora de mudarmos esse paradigma, e mostrar o liberalismo como um ideal sublime que promove a paz e a prosperidade, e que não tem um histórico sangrento como o do socialismo”.

Bruno Garschagen, gerente de relações institucionais do OrdemLivre.org, completa: “o debate entre diferentes correntes filosóficas é necessário para que a Universidade não fique refém das ortodoxias do pensamento de esquerda e permita aos estudantes o acesso a autores e obras liberais”.

Participarão da turnê: Adolfo Sachsida (economista), Bruno Garschagen (cientista político), Diogo Costa (cientista político), Hélio Beltrão (economista), Lucas Mafaldo (filósofo) e Rodrigo Constantino (economista).

As palestras em Fortaleza acontecem em dois horários. Na UFC, das 8 às 12h, no auditório Geraldo da Silva Nobre (Avenida da Universidade, 2486). Na FA7, das 18 às 22h, no teatro da faculdade (Rua Almirante Maximiniano da Fonseca, 1395). Repetindo: dia 23 de outubro.

The Soviet Story – Socialismo: por que matar é essencial?


Esse é um trecho do documentário A História Soviética, produzido pelo Parlamento Europeu – as imagens são impressionantes e irrefutáveis. Mais informações no site Soviet Story. A versão completa pode ser vista no Youtube. São imagens e depoimentos perturbadores e emocionantes, um relato fundamental para quem deseja conhecer a realidade da experiência socialista.

Lula no Ceará: É inauguração? Não, é factóide eleitoral!

Às vezes é constrangedor refletir sobre certos eventos políticos, tamanha a evidência de que são peças toscas, simples factóides para gerar manchetes e alimentar discursos demagogos.

Lula vem ao Ceará nesta sexta-feira para “vistoriar” as obras da Transposição do Rio São Francisco em Mauriti, região sul do estado. É a segunda visita do presidente em um mês e meio.

No artigo Lula no Ceará: filme repetido, publicado no dia 10 de setembro passado, antecipei com um dia de antecedência (e o texto foi escrito no dia 9), as promessas que seriam feitas em palanque, com o habitual tom triunfal de Lula. Na mosca! Foi um festival de refinaria, siderúrgica e Transnordestina, essas obras que não existem, além de auto-elogios e números maravilhosos.

Nessa nova visita, o exercício é mais fácil ainda. O presidente vai repetir o mesmíssimo discurso que fez em Pernambuco e em Minas Gerais, estados em que esteve nesta semana fazendo campanha eleitoral para Dilma Rousseff, com igual pretexto de conferir a tal transposição.

Um resumo: Lula, o operário, vai cumprir o que Dom Pedro II, o fidalgo, prometeu: levar a água do São Francisco para o sertanejo. Dirá ser o único a dar prioridade à obra por ser nordestino castigado pela seca. Vai lembrar que o sertanejo agora terá água em abundância para plantar o que quiser. Enfim, venderá amanhãs radiantes, ainda que não tenha muito o que mostrar em sete anos de governo, quando o assunto é obra.

Números X lorotas
Mas Wanfil, como você é ranzinza, rapaz! Por acaso torce contra o Brasil e o Nordeste? Você prefere que o pai de família no sertão continue a passar sem água? Pois é. Nem adianta vir com chantagem emocional. Vamos ao números publicados ontem (15) pelo Estadão, sobre a execução financeira das obras da Transposição do São Francisco:

Planalto só pagou 3,68% do R$ 1,68 bilhão previsto – Cenário da campanha informal da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a região do Rio São Francisco não tem sido tão prestigiada em verbas federais. Em 2009, segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi), para uma dotação de R$ 1,68 bilhão para projetos que tratam diretamente do rio, o Planalto pagou apenas 3,68%, cerca de R$ 61,8 milhões.

Lula faz comício no São Francisco, mas segura dinheiro para obra - Ao levar ao Nordeste e sertão de Minas, principais redutos do “lulismo”, a ministra da Casa Civil e pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acabou admitindo, num ato falho, caráter eleitoral na visita às obras de transposição do Rio São Francisco. “No nosso projeto original de fazer essa viagem não estava previsto a gente fazer comício. Estava previsto fazer visitas às obras”, disse Lula. Na prática, contudo, o empreendimento não tem recebido prioridade na destinação de recursos – apenas 3,68% do R$ 1,68 bilhão reservado em 2009 foram efetivamente pagos.

Como explicar isso? Como fazer tanta algazarra em cima de algo que não, absolutamente, uma prioridade para o governo? Ou então que é a prova cabal de sua incompetência gerencial? Se algum dia um sertanejo beber água proveniente da Transposição do São Francisco, o fará apesar de Lula. Mas a resposta para coroar o factóide já está pronta: a culpa é da legislação ambiental, da burocracia, e dos órgãos de fiscalização, especialmente o TCU.

PS. Factóide na Wikipédia: O propósito de um factóide é gerar deliberadamente um impacto diante da opinião pública de forma à manipulá-la de acordo com as aspirações de poderosos grupos que se utilizam de sua influência na mídia. Estes, em alguns casos estão, ou aspiram ao poder.

Lula faz comício no São Francisco, mas segura dinheiro para obra

Para não esquecer o que foi a guerrilha do Araguaia

Artigo publicado no jornal O Estado

O sepultamento dos restos mortais do estudante cearense Bergson Gurjão Farias, militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B) e membro da guerrilha do Araguaia, desaparecido e morto em 1972, aos 25 anos de idade, deu margem a manifestações diversas, algumas muito justas, outras bastante equivocadas.

É certo que a tragédia que se abateu sobre o guerrilheiro, morto por forças militares em circunstâncias não esclarecidas, assim como a ocultação do cadáver, marcou para sempre parentes e amigos do jovem. Mas, infelizmente, episódios assim têm sido usados como propaganda ideológica para escamotear a natureza da guerrilha do Araguaia e a atuação do PC do B no período.

Não é possível permitir que as injustiças e a violência cometidas contra jovens militantes, muitos deles idealistas sonhadores que agiam por paixão e impulso, sirvam para encobrir o papel daqueles que recrutavam esses jovens e que hoje posam de democratas, quando, na verdade, queriam mesmo era instalar uma ditadura de pólo invertido, tão ou mais violenta quanto a já que existia: a comunista.

A guerrilha do Araguaia tem sido apresentada como um movimento pela restauração da ordem democrática no Brasil. Isso é falso. Forças revolucionárias de esquerda eram subsidiadas pelos totalitarismos soviético e chinês. O historiador Jacob Gorender, de formação marxista e ex-membro do “Partidão”, lançou na última quinta-feira (8), na Universidade de Brasília, o documentário “A Esquerda Revelada”. É uma boa oportunidade para evitar essas distorções.

“Atentados terroristas, seqüestros, assaltos a bancos estavam entre as estratégias dos partidos e facções de esquerda para implantar o comunismo no Brasil entre as décadas de 1960 e 1970”, afirma Gorender. Não é possível confundir a promoção de crimes com ações filantrópicas, apenas considerando eventuais alegações superiores.

Que se discuta os parâmetros da anistia, tudo bem. Mas que não se pense que uma causa, qualquer causa, possa servir de sustentação moral para a prática de crimes. Os fins não justificam os meios. Quem lutou por democracia no Brasil foi dom Eugênio Sales e Ulisses Guimarães, por exemplo, sem nunca incitar estudantes à luta armada.

Partidos comunistas que idolatram Mao, Che, Fidel, Lênin, Stálin e seus esbirros, não lamentam a tortura, mas sim o fracasso de suas revoluções. O resto é jogo de cena.

Como não criminalizar “movimentos sociais”

Charge do Jorge Braga para o jornal O Popular (GO)

jb

Jornalismo Ctrl C, Crtl V

Duas notícias postadas no Blog do Eliomar. Em seguida comento.

12.10 – Tasso entre os que mais gastaram verba indenizatória com divulgação e consultoria:
“Levantamento da ONG Transparência Brasil revela que 18 dos 81 senadores usaram mais da metade da verba indenizatória, desde o início do ano, para pagar despesas com divulgação de seus mandatos ou com com a contratação de consultorias. Segundo o levantamento, quatro senadores usaram todo o dinheiro para divulgar os mandatos ou para contratar consultorias: o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Gim Argello (PTB-DF) e Roberto Cavalcanti (PRB-PB). (…) Na avaliação da ONG, as despesas com divulgação do mandato não podem ser pagas com a verba indenizatória porque o Senado já possui canais de comunicação com o público, como a TV Senado, a Rádio Senado, a Agência Senado e o site, onde cada senador tem espaço para hospedagem de sítio pessoal.”

13.10 – Estrelas do Senado correm risco de não se reeleger. Na lista, Tasso Jereissati:
“Como se não bastasse a crise que desmoralizou o Senado neste ano, as eleições de 2010 ameaçam tirar o brilho de antigas estrelas da política nacional, que enfrentam dificuldade para se reeleger. Os obstáculos atingem em cheio senadores de todos os partidos que estão sendo obrigados a fazer arranjos políticos para garantir, ao mesmo tempo, sua sobrevivência e a eleição nos Estados.

Na oposição, há casos emblemáticos como os dos senadores tucanos Sérgio Guerra (PE), atual presidente do PSDB, e Tasso Jereissati (CE), ex-presidente da sigla, que correm o risco de não voltar ao Senado. (…)”.

Wanfil
Isenção e medo
Na faculdade de jornalismo a primeira regra ensinada é a da imparcialidade na apuração dos fatos, mas sempre com a ressalva de que a isenção completa é impossível. Trata-se, portanto, de um ideal a ser constantemente buscado, ainda que inalcançável. Na prática, cada jornalista e alguns veículos precisam orientar suas matérias a partir de valores, digamos, subjetivos. E a subjetividade, evidentemente, é palco para as discordâncias. Dessa forma, a atividade jornalística precisa encontrar um equilíbrio entre o fato e a interpretação (ou a forma de narrá-lo, pois a simples escolha de uma palavra pode inferir escolhas). E sendo tudo tão impreciso, a estratégia de quem se sente atingido ou contrariado por alguma matéria bem feita, que obedece aos critérios técnicos de uma boa reportagem, é rotular profissionais e empresas, de forma a desqualificá-los.

Ocorre que isso deixa alguns jornalistas receosos, especialmente em mercados reduzidos. Ser tachado de radical, tucano, petista, isso ou aquilo, pode fechar portas. Tacitamente, a convenção mais usada para tentar evitar a impressão de que haja alguma parcialidade em seu trabalho, é a de criar uma espécie de “placar” de igualdade nas notícias, boas ou ruins, sobre adversários políticos. Se um personagem é criticado, por exemplo, deve-se em seguida buscar ser crítico om o seu adversário. O problema é que nem sempre os fatos, as realizações, ou as denúncias contra ésses personagens se dão de forma simétrica. Aí, muitas vezes, para compensar, o jornalista acaba forçando a barra, igualando fatos distintos para causar um efeito, operando uma forma de deturpação. Assim foi que o caixa 2 de Eduardo Azeredo se transformou no “mensalão mineiro”, quando o mensalão original nunca foi caixa 2, mas compra sistemática de parlamentares. A ideia era evitar as rotulações partidárias. Isso é bom? Nem sempre, pois mais confunde que explica, como no exemplo acima.

Copiar, colar
Vejam o caso do Blog do Eliomar. A rigor, as matérias destacadas, envolvendo o senador Tasso Jereissati, não se sustentam. Mas a ideia é passar a mensagem – para a patrulha – de que ali existe aquela isenção idealizada. Se irregularidades dos adversários dos tucanos são noticiadas, como as denúncias do TCU sobre superfaturamento no Hospital da Mulher, a lógica é que também as dele sejam expostas. E os fatos? Eliomar de Lima, experiente jornalista, provavelmente se considera livre de conferir a veracidade do que vai publicado no site da Transparência Brasil ou no Estadão. A responsabilidade, imagina, é deles. Pode ser. Mas aí vem aquele papo de subjetividade. Por que escolher matérias que não repercutiram no restante da mídia? Por que dar importância a “denúncias” ou “análises” que ninguém mais deu crédito? Será que o jornalista que reproduz uma matéria, ainda que registre a origem e dê os devidos créditos, não a subscreve?

Apurar ou não?
Quer dizer que o Eliomar não pode criticar o  Tasso? Claro que pode! Se não quiser dar opinião, pode reproduzir a dos outros, claro. Especialmente em um blog. Mas aí serve qualquer notícia? Acho que não. O senador recentemente se posicionou contra a entrada da Venezuela no Mercosul. Eis um assunto que pode gerar inúmeros conflitos de ordem ideológica, legal, política, geopolítica etc. Mas os casos acima reproduzidos são pueris. Onde está a irregularidade no gasto de verba indenizatória na divulgação de atividades? Que lei foi infringida? A assessoria do senador foi procurada? Alguém pelo menos leu o Regimento do Senado? Além do mais, é gasto previsto, limitado e registrado. A Câmara de Fortaleza e a Assembleia Legislativa possuem televisão, rádio e site, e nem por isso nem Eliomar, nem ninguém mais vê problema quando parlamentares e essas instituições publicam anúncios nos jornais locais. Sem contar que são gastos bem mais difíceis de controlar.

Qual indício sustenta a tese de que Tasso pode não se reeleger? Alguma pesquisa? Algum levantamento? Não, nada. Apenas a opinião da repórter do Estadão, Eugênia Lopes, quem nem articulista é. Mas essa técnica de copiar e colar para causar impressão de isenção deve deixar alguns satisfeitos. Posso até ver José Pimentel, o ministro que faz campanha antecipada aberta para o Senado, dizendo satisfeito: “Isso é que é imparcialidade!”. 

Comunismo neoconcretista ou dialética da concretude

O PC do B, sigla nanica que sobrevive ocupando aparelhos estudantis, e que se vangloria de sua história (o que significa dizer que tem orgulhos da doutrina mais morticida da história da humanidade, deixando os crimes de seus camadaras nazistas bem atrás), tem veiculado sua propaganda na televisão. Nela, o deputado federal cearense Chico Lopes fala sobre as maravilhas dos governos apoiados pelos comunistas, o que era de se esperar mesmo.

Mas sabem como são esses marqueteiros… A certa altura, um Lopes sorridente, com cara de bonachão, diz candidamente que a REFINARIA e a SIDERÚRGICA, já SÃO realidades concretas. Onde? O comunista não fala, nem mostra imagens. Apela à nossa fé. Deve ser a dialética da concretude. Entendam. Sendo o concreto o contrário de abstrato, é certo entender que algo definido por esse adjetivo seja, como diz o dicionário Priberam:

1. Consistente, espesso, condensado, que tem consistência (mais ou menos sólida).
2. Que tem corpo (opõe-se a abstrato).
3. Que é perceptível! aos sentidos.

A Petrobras já afirmou que a realidade concreta da refinaria será adiada para depois de 2013, sem data definida. E a siderúrgica, vejam só, é um empreendimento PRIVADO. Isso mesmo! No Brasil chagamos ao cúmulo de ver um comunista se jactar de projetos tocados – ó ironia – por porcos capitalistas que vivem em busca de lucro (arghh!), explorando os trabalhadores coitadinhos que deveriam votar em gente como Chico Lopes.

Mas como todos sabem, e como provam as urnas, quem gosta de comunista é “estudante” que monopoliza a emissão de carteirinhas de meia-entrada e “intelectual” capaz de aceitar que algo possa ser simultaneamente real e imaginário, ser e não ser ao mesmo tempo, e ainda assim se julgar moralmente superior aos que efetivamente levam o mundo concreto nas costas.

Dia das crianças

As lembranças da minha infância eram, até bem pouco tempo, a referência maior a qual recorria na hora de falar sobre crianças. A vida tratou de mudar isso e agora, ao pensar no dia das crianças, lembro primeiramente das minhas filhas. Mais precisamente, penso em aproveitar toda a beleza contida na infância delas e na melhor forma de tornar essa época uma experiência positiva e enriquecedora para toda a família. No curso dessas considerações, acabo sempre por imaginá-las no futuro, quando elas já estiverem adultas e um dia, assim como faço hoje, recordarem da própria infância que tiveram.

Nas horas desse porvir, desejo com muito ardor constatar ter cumprido o meu papel de orientador e ver que minhas filhas tornaram-se pessoas capazes de escolher, com destemor, os caminhos que considerarem melhor para elas. E assim, o dia das crianças que ontem eu comemorava como o meu dia, se transformou num ponto de interseção entre a nostalgia e a esperança contida na infância delas.

Para comemorar essa data especial, resolvi transcrever uma passagem do longa metragem infantil Ratatouille, animação gráfica da Pixar. Na história, um ratinho sonha em ser um grande chefe de ratatouillecozinha. Apesar de conpirar contra o seu desejo, com coragem e determinação o roedor procura realizar o seu projeto e encaminhar sua vocação. Para isso, num momento antológico, o ratinho enfrenta o crítico gastronômico Anton Ego, o mais severo e impiedoso da França. É uma lição de vida. Ratatouille, o pequenino roedor, prefere correr o risco do fracasso a se enconder debaixo da autopiedade, ou a culpar terceiros, governos e adversidades circunstanciais pela própria sorte. O ratinho assume a sua vida e as consequências de suas escolhas. No final do filme, Anton Ego, cuja voz é interpetrada pelo ator Peter O´Toole, rendido ao talendo culinário de Ratatoullie, faz um dos melhores monólogos da história do cinema, que reproduzo a seguir:

De certa forma, o trabalho de um crítico é fácil. Nos arriscamos pouco e temos prazer em avaliar com superioridade os que nos submetem seu trabalho e reputação. Ganhamos fama com críticas negativas, que são divertidas de escrever e ler. Mas a dura realidade que nós, críticos, devemos encarar é que no quadro geral a mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que a nossa crítica.

Mas há vezes em que um crítico arrisca de fato alguma coisa, como quando descobre e defende uma novidade. O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, às novas criações, o novo precisa ser incentivado.

Ontem, à noite, eu experimentei algo novo. Um prato extraordinário, de uma fonte inesperadamente singular. Dizer que tanto o prato quanto quem o fez desafiam minha percepção sobre gastronomia é extremamente superficial. Eles conseguiram abalar minha estrutura.

No passado, eu não fazia segredo quanto ao meu desdém pelo famoso lema do chefe Gusteau: “Qualquer um pode cozinhar”. Mas eu percebo que só agora compreendo realmente o que ele queria dizer. Nem todos podem se tornar grandes artistas. Mas um grande artista pode vir de qualquer lugar.

É difícil imaginar origem mais humilde do que a desse gênio que cozinha no Gusteau’s, que é, na opinião deste crítico, nada menos do que o melhor chefe da França. Eu voltarei ao Gusteau’s em breve, com muita fome.

Isso é o que eu desejo para as minhas filhas e para as crianças em geral. Que elas cresçam e aprendam a reconhecer e a cultivar suas singularidades sem se acomodarem com pressões de grupos, sem ceder ao espírito de rebanho, que percebam que “um grande artista pode vir de qualquer lugar”, que vivam sem medo de ter as estruturas “abaladas” na aventura de descobrir o mundo e as idéias que o fazem, que saibam que podem ser o que quiserem, ou pelo menos, que podem tentar, e mudar, e tentar de novo. Que tenham a consciência, enfim, que o destino é soma das escolhas que fazemos, tal como o ratinho do filme. E ciente disso, assumo a responsabilidade de ser referência para elas.

Parabéns pelo dia das crianças, parabéns aos pais zelosos, e parabéns às minhas pequeninas Clarissa e Cecília.

 

PS 1 – Texto escrito em 2008, posteriormente perdido por uma pane no meu servidor e agora recuperado no Google Reader.

PS2 – Em homenagem a essa data comemorativa, viajo com a família e volto a postar somente na próxima terça-feira.

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