Inácio Arruda não fala sobre cláusula democrática para comemorar entrada da Venezuela no Mercosul. Pudera.
O senador Inácio Arruda (PC do B – CE) assina artigo publicado na edição desta quarta do jornal O Povo. O título é a Consolidação do Mercosul. O texto versa sobre as maravilhas da provável entrada da Venezuela no Mercosul, após a maioria Comissão de Relações Exteriores de o Senado ter rejeitado o relatório do senador Tasso Jereissati (veja como votaram os senadores aqui).
Arruda despeja com desenvoltura os clichês políticos de resistência da América Latina contra o imperialismo norte-americano, associando-os a fabulosas estratégias comerciais benéficas, sobretudo, ao Brasil. A certa altura ele afirma que “a América Latina e a América do Sul sempre foram alvos de cobiça”. Bom. A América do Sul está contida na América Latina, mas o senador considera importante tratá-las como unidades separadas. De resto, é verdade. Tanto que Cuba financiou grupos terroristas armados – antes da ditadura militar, como bem revelou Jacob Gorender, ele mesmo um comunista - para fazer uma revolução no Brasil. Deu errado e o contragolpe militar, apoiado pelos EUA, se transformou em golpe. E esse foi o máximo de interesse que a AL despertou. No fundo, os países ricos estão preocupados é com o Oriente Médio.
Em outro trecho, Arruda manda ver: “Em 1998, a miséria na Venezuela atingia a (sic) 20% dos habitantes; em 2008, havia diminuído para 9%”. De onde o senador tirou esses números? Ele não disse. Talvez sejam dados do governo venezuelano, sei lá. Apesar de tamanha pujança, no mesmo artigo, o nosso comunista lembra que “entre 1998 e 2008, nossas exportações para a Venezuela aumentaram 850%, representando hoje o maior superávit individual da balança comercial brasileira”. O que exportamos para a Venezuela? Ele não diz, mas eu digo: comida. E ainda não basta para eliminar o desabastecimento nos supermercados de lá. Essa vantagem comercial não tem nada a ver com o Mercosul. Na verdade, os venezuelanos têm um crescente déficit conosco pela redução da capacidade produtiva doméstica. É o socialismo do século XXI de Chávez. Qualquer semelhança com Cuba não é mera coincidência.
Lapso?
No final, Inácio Arruda diz: “É inestimável a importância da ampliação do Mercosul para o nosso país. (…) O ingresso da Venezuela representa forte estímulo ao desenvolvimento das nações sul-americanas, com trocas de bens e serviços mais intensas e justas entre os países”.
Em todo o artigo, curiosamente, o comunista cearense não cita uma vez sequer a palavra democracia. Não é uma graça? Será a intuição de que o tema é constrangedor para o companheiro Hugo Chávez ou apenas uma natural convergência de compreensão sobre regimes de governo? Evidentemente o texto também não faz referências às milícias armadas na região, às prisões de sindicalistas que ousam fazer greves, aos presos políticos, às agressões contra a imprensa na Venezuela.
E o que Inácio pensa sobre a cláusula do Mercosul que faz da democracia plena um requisito fundamental para entrar no grupo? Bom, pelo visto, esse deve ser um mero detalhe diante das vantagens econômicas tão bem colocadas pelo parlamentar. Aliás, o argumento do relatório que sugeria a recusa em ter a Venezuela como participante do Mercosul era esse negócio inconveniente de democracia. Mas desde quando, sejamos francos, um comunista de verdade fez dos princípios democráticos uma prioridade?