Contra a criminalização dos movimentos sociais
Cansado de ser reacionário e conservador decidi experimentar ser progressista para encampar a luta pelas causas dos movimentos sociais. Qualquer causa tem o meu apoio agora, desde que seja devidamente liderado por um companheiro de alguma ONG financiado com gordas verbas públicas e que lute contra “tudo isso que está aí” para dizer que “outro mundo é possível”. Vamos lá.
Nessa nova e superior condição, procurei dar uma lida no pior de todos os jornais, a Folha de São Paulo que, vejam só, é uma propriedade privada (pode?) cujos jornalistas (menos os vendidos) são obrigados a mentir para agradar a classe dominante. E o curioso é que o povo nem percebe isso, somente os mais esclarecidos, que, evidentemente, pensam como nós progressistas. Aposto que aquela blogueira cubana, a Yoane Sánchez, que apanhou da polícia por criticar o governo dos Castro, iria adorar trabalhar na Folha.
Não precisou muito tempo para encontrar um armadilha próprio de um país retrógrado:
PM É ATACADA AO TENTAR PRENDER SEM-TERRA NO PA
A Justiça do Pará decretou ontem a prisão de seis sem-terra suspeitos de invadir e depredar, na semana passada, a fazenda Espírito Santo, em Xinguara (PA). A Justiça não especificou a que movimento eles pertencem. Ontem a Secretaria de Segurança Pública informou que 58 policiais foram atacados a tiros quando tentavam cumprir os mandados de prisão. A polícia revidou, mas os agressores, que estavam ocultos na mata, fugiram. O ataque ocorreu em uma fazenda da Agropecuária Santa Bárbara em Xinguara.
Estão de brincadeira? A nota não informa, na verdade sonega de propósito a verdade, que a “invasão” (o politicamente correto é ocupação) e a “depredação”, que no fundo foi um protesto veemente, como diz Tarso Genro, constituem ações de legítima luta pela justiça social. O Judiciário, evidentemente, toma lado na questão agrária ao criminalizar o MST usando como desculpa a Constituição, essa artimanha pequeno burguesa. E notem o absurdo. O jornal acha normal a polícia revidar ao ataque, ou melhor, ao protesto veemente dos trabalhadores. Era só o que faltava. Percebam que a propriedade privada é mais importante que o bem da coletividade, representado por esses heróis, mesmo que a coletividade não lhes tenha pedido que a representasse.
Cuidado. Estamos chegando a um nível próximo ao da barbárie, exigindo que leis sejam cumpridas e que bandidos (uma difamação contra essas vítimas da sociedade) sejam presos. Que os nossos companheiros não se intimidem e tomem para si o que entenderem serem direito seu, à revelia das instituições e da legislação. Quando é que criminoso do colarinho branco é preso?
Atenção! Nesse momento uma questão dialética me abala a nova convicção! Sim, poderosos não respeitam a lei e não são alcançados pela Justiça. Mas em vez de agir para que isso seja corrigido, os movimentos sociais, embalados pela cantilena esquerdista do vitimismo social, querem é o mesmo privilégio. Então temos duas categorias com passe livre para a bandidagem: os ricos e os movimentos sociais – ambos com honrosas exceções. Todos se locupletando com dinheiro público. E eu pagando impostos.
Pronto. Voltei a ser reacionário.