Por que Lula chora tanto? De onde vem tanta comoção e enternecimento?
Depois de chorar na entrevista coletiva concedida por ocasião da escolha do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016, Lula voltou a verter lágrimas diante de uma câmera de televisão ao relembrar, na Rede TV, a morte de sua primeira esposa, há 38 anos. No entanto, veja o vídeo, essa não foi uma de suas melhores apresentações. A voz não embargou o suficiente e os dedos cobriram os olhos com muita rapidez, antes que ficassem suficientemente marejados. Mas isso não chega a comprometer a performance, devidamente edulcorada pelo repórter Kennedy Alencar.
Com essas manifestações, ainda que sejam espontâneas, Lula reforça o mito de político sensível às dores e alegrias do mundo. Gente como a gente. Será que ele chora em seu quarto ao pensar, por exemplo, nos aposentados que esperam ter seus vencimentos reajustados com o mesmo índice aplicado ao salário mínimo? Quem haverá de saber?
Sobre a pujante capacidade lacrimejante do presidente cordial (de cordis, como diz Sérgio Buarque), reproduzo trechos de um instigante texto do professor Olavo de Carvalho – Bondade Mesquinha:
“Nosso presidente, que jamais derramou uma lágrima pelos 40 mil brasileiros assassinados anualmente e muito menos fez algo para protegê-los, derreteu-se em prantos ante a escolha do Rio para sede dos próximos Jogos Olímpicos. Não é a primeira vez que ele dá mostras de sua notável capacidade lacrimejante. Ele chorou duplamente ao ser eleito e ao ser empossado, chorou vezes inumeráveis ao anunciar do alto dos palanques seus planos de governo, chorou no enterro do deputado petista Carlos Wilson, no das vítimas da chuva em Sta. Catarina e no dos mortos do acidente em Alcântara, chorou ao inaugurar o projeto “Luz Para Todos”, chorou ao enaltecer seus próprios feitos num encontro de estudantes em São Paulo, chorou no Senegal dizendo que era de arrependimento pela escravatura, chorou ao prometer acabar com o desemprego em 2003 e depois novamente em 2006 (os desempregados continuam chorando até agora), e chorou quando o deputado Roberto Jefferson lhe falou do Mensalão: soluçou tão convulsivamente que ficou até parecendo que era o último a saber do imbroglio. São apenas amostras colhidas a esmo. Digitando “Lula chora” no Google obtive 29.600 respostas, e ante a mera perspectiva de examiná-las uma a uma quem sente ganas de chorar sou eu.
Diante dessa torrente de lágrimas, seria injusto negar que o sr. presidente tenha bons sentimentos. Que os tem, tem. O problema é que são morbidamente seletivos: para seus companheiros de militância, para os grupos sociais onde espera recrutar eleitores, e sobretudo para si próprio, coitadinho, é uma comoção arrebatadora, um enternecimento irresistível, um transbordamento de compaixão sem fim. Para os demais, tudo o que ele tem a oferecer é aquela forma requintada de crueldade passiva que se chama a indiferença.
Longe de mim a suspeita de que as lágrimas de S. Excia. sejam fingidas. É justamente a espontaneidade delas que mostra o quanto os bons instintos presidenciais são seletivos, daquela seletividade natural e até inconsciente que revela, num instante, uma personalidade, a forma inteira de uma alma e de uma consciência. Se essa seletividade privilegia, enfatiza e enaltece com naturalidade espantosa os interesses político-publicitários do sr. presidente e ao mesmo tempo o torna cego e insensível para tudo o mais, não é porque haja nela alguma premeditação astuta, mas, bem ao contrário, é porque, simplesmente, ele é assim.
Se seus acessos de bondade vêm a ser sempre politicamente oportunos, não é porque ele os planeje, mas porque, no fundo da sua alma, ele não consegue conceber o bem senão sob a forma estreita e específica de uma estratégia partidária, sendo perfeitamente indiferente a tudo o que fique fora ou acima dela.”