Imprensa sob ataque – 2

Em meu artigo semanal para o jornal o Estado abordei a questão o cerco que governos latino americanos tem feito à liberdade de imprensa (ver post anterior). Um dia depois o jornal O Globo publicou matéria que confirma meu alerta. Transcrevo trechos abaixo e depois volto a comentar:

PT defende controle público e sanções à imprensa

Um texto aprovado pelo diretório nacional do PT defende o controle público dos meios de comunicação e a criação de mecanismos de sanção à imprensa. No documento, intitulado “Resolução Sobre a Estratégia Petista na Confecom (Conferência Nacional de Comunicação)”, o PT também defende mudanças no atual modelo de outorga de concessões no setor de comunicação que, segundo o partido, é anacrônico, autoritário e “privilegia grupos comerciais em detrimento dos interesses da população”.

Perguntado se as propostas ferem princípios universais de liberdade de imprensa e expressão, o secretário nacional de Comunicação do PT, Gleber Naime, respondeu:

 - Esta proposta é para garantir a liberdade de imprensa e não a das empresas.

Para o especialista em comunicação Carlos Alberto Di Franco, da Universidade de Navarra, as propostas do PT preocupam pois podem esconder objetivos de controle ideológico como os que foram aplicados em outros países latinoamericanos, como Venezuela e Argentina.

O documento representa uma opinião isolada de um doidivanas? Não. É meta partidária. O chefão Lula tem atacado a imprensa nos últimos meses, sempre com lições para jornalistas e insinuações sobre a necessidade de mudanças. São críticas incompatíveis com o papel de um chefe de estado, e que visam o constrangimento da liberdade de expressão. Lula já disse que “a imprensa não deve fiscalizar, apenas informar”.

O braço sindical do projeto petista também atua para mitigar o jornalismo independente, ou pelo menos, plural. Matérias de fiscalização são tomadas por golpe ou “denuncismo”. O fim da exigência do diploma, não obstante uma criação da ditadura brasileira, é vendida como agressão ao jornalismo.

No site do Sindicato dos Jornalistas no Estado do Ceará (Sindjorce), por exemplo, dois destaques demonstram o grau de adesão do aparelho representativo da categoria aos interesses do PT. Um apelo solidário ao terrorista italiano Cesare Battisti e um vídeo com uma entrevista com o ministro da Previdência José Pimentel, candidato ao Senado em campanha aberta.

O pior de tudo é ver que muitos que acreditam, ou pelo menos dizem acreditar, que as empresas de comunicação são perniciosas, trabalham nas mesmas sem nenhum problema de consciência. Se tivessem firmeza de caráter e convicção, não aceitariam fazer parte daquilo que rejeitam conceitualmente. Eu, por exemplo, jamais trabalharia em um jornal de propriedade, sei lá, de José Pimentel ou de José Guimarães, por incompatibilidade de visão de mundo. Mas eles sempre têm uma boa justificativa para a dubiedade oportunista.

A imprensa sob ataque

Artigo publicado no jornal O Estado

A organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgou ranking indicando que houve um retrocesso da liberdade de imprensa na América Latina. A entidade leva em conta episódios de violência contra jornalistas e órgãos de imprensa.

Entre os 175 países analisados, o Brasil ficou num sofrível 71º lugar. Os que apresentaram maior queda foram Venezuela (124º), Bolívia (95º), Nicarágua (76º) e Equador (84º), todos sob influência de Hugo Chávez.

Na Argentina (47º), o grupo Clarín tem sido alvo de constrangimentos impostos pelo casal Cristina e Néstor Kirchner. Leis feitas para restringir a atuação da imprensa foram aprovadas e operações fiscais buscam intimidar eventuais críticas ao governo argentino.

Em Cuba (170º), a blogueira Yoani Sánchez foi espancada por agentes de repressão da ditadura Castro. Sobre esse episódio, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado brasileiro aprovou, no último dia 11, voto de repúdio ao governo cubano, com posição contrária apenas de Inácio Arruda (PC do B). O senador cearense afirmou que prefere esperar pelas explicações da embaixada cubana. Eis a ética comunista.

Por afinidade ideológica, Arruda lança suspeita sobre a vítima de um regime totalitário, como se não soubesse que ela é proibida de deixar o próprio país, mesmo sem ter cometido crime algum. Somente essa condição de prisioneira por delito de opinião bastaria para que qualquer pessoa decente subscrevesse a nota de repúdio contra Cuba. Mas para um comunista, a decência não passa de um capricho pequeno-burguês e a liberdade de discordar é algo realmente detestável. Raúl Castro fuzilou pessoalmente vários cidadãos que ousaram questionar o irmão Fidel, comprovando o que digo.

No Brasil, curiosamente, essa situação não desperta o interesse de muitos dos que se dizem defensores da liberdade de imprensa. Uma rápida olhada nas páginas de suas entidades de representação basta para ver que eles estão ocupados em lamentar o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, exigência criada pela ditadura militar justamente para controlar a atividade jornalística.

É nesse clima de ataque à liberdade de expressão que o presidente Lula declarou, em recente entrevista, que “o papel da imprensa não é fiscalizar, é informar”. Mas para sindicatos e professores universitários, criminoso mesmo foi o fim da reserva de mercado para jornalistas com diploma.

WordPress Themes