Category: Artigo

Quem assume os problemas da segurança pública?

Artigo publicado no jornal O Estado

A constatação de que os índices de violência aumentam paralelamente ao aumento nos investimentos indicam uma verdade incontornável: o dinheiro é gasto de forma errada. Uma vez também que a segurança pública no Brasil varia entre o desastre e a calamidade, resta concluir que o modelo estabelecido no País é inadequado. O máximo que um governador pode desejar é ser menos ruim do que seus colegas.

Diante da incapacidade crônica de resolver a questão, governos e candidatos apelam a slogans e maneirismos retóricos. Adornam discursos com expressões como “segurança cidadã”, “choque de ordem”, “polícia amiga”, e doçuras afins. Mas os resultados…

No Ceará o trunfo eleitoral do governador Cid Gomes, em 2006, foi o famoso “Ronda do Quarteirão”, peça de propaganda que depois ganhou contornos de ação até chegar ao atual modelo. O projeto gerou impacto positivo no início, mas está claro agora que a sensação de segurança não corresponde, necessariamente, à segurança de verdade.

Não é o caso de lançar dúvidas a respeito das intenções de quem trabalha para mitigar essa situação. Mas intenções não bastam. Agora que está no poder, Cid Gomes afirmou, durante entrevista: “Segurança não pode ser um tema que envolva a política, a política no sentido eleitoral. Segurança tem que ser um tema tratado sempre com muita seriedade e é assim que eu vou procurar agir, sempre”. O governador não fez um mea culpa intencional, mas bem que suas palavras serviriam para tanto.

Existe uma falta de conexão entre os anúncios pomposos das autoridades e a realidade, que é constrangedora. Então, aproveitando a deixa de Cid, se é para tratar mesmo seriamente do assunto, é preciso reconhecer o que não está dando certo. E para isso, as falhas, os erros e os rumos que precisam ser corrigidos, não podem ficar somente na conta do secretário de Roberto Monteiro. Não basta a Cid basta dizer que o apoia. É preciso deixar claro que as diretrizes para a área são definidas pelo governador.

Para usar uma metáfora da moda, quando o time não vai bem e não marca gols, o técnico cai antes do centroavante. O maior responsável pela atual situação é o governador Cid Gomes, que, não obstante, faz avaliações periódicas sobre a gestão de cada pasta, no que está certo. É preciso, entretanto, ir além.

Se não for desse jeito e o governador não assumir integralmente o desafio da segurança, o assunto não avançará os limites do cenário eleitoral.

Omissão diante de ditadura cubana mancha imagem do governo brasileiro

Artigo para o Blog da Janga

Em Cuba, Fariña iniciou greve de fome após morte do companheiro Zapata. Pode ser a próxima vítima do castrismoO caso do preso político cubano Orlando Zapata Tamayo, falecido após 85 dias de greve de fome, continua repercutindo em todo o mundo. O Parlamento Europeu aprovou, ontem (11), resolução que condena a “inevitável e cruel” morte de Zapata e alerta sobre o perigo de um “fatal desenlace” para a greve de fome que outro preso político, Guillhermo Fariña (foto), que já dura 17 dias.

Reação brasileira
Sobre a morte de Zapata, que aconteceu durante uma visita de Lula aos ditadores Fidel e Raul Castro, o brasileiro afirmou: “Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome.”

Depois Lula voltou ao tema, em entrevista à agência Associated Press: “Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de prender as pessoas em função da legislação de Cuba, como quero que respeitem a do Brasil”.

Comento:
A posição do governo brasileiro, expressa pelo próprio presidente da República, é constrangedora. Primeiro Lula tergiversou, para depois optar pela omissão deliberada. É bom lembrar que um sistema legal que impeça a livre manifestação de opositores, por si só, já merece repúdio da pessoas de bem. Quando isso implica na MORTE DE CIDADÃOS QUE NÃO COMETERAM CRIMES, a situação deve ser devidamente exposta, como fizeram os europeus. Trata-se de uma obrigação moral.

Liderança internacional
Muitos acreditam que Lula é uma liderança mundial, embora simpatia não garanta espaço político efetivo no palco das nações. O Brasil sonha com uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, mas vacila na hora de se posicionar contra as arbitrariedades cometidas por governos violentos como o cubano. E não custa lembrar que Lula soube meter a colher em assuntos externos na hora de criticar Colômbia e Honduras.

Política externa
Essa alternância de posições revela, claramente, aos olhos do mundo, que o governo brasileiro define suas posições não a partir de convicções, mas de conveniências ideológicas. Se for esquerdista, pode fazer e acontecer, e eliminar opositores vira “questão interna”. Não por acaso a resolução do Parlamento Europeu foi enfática e contrária ao que disse Lula, ao lembrar que a morte do prisioneiro político foi “INEVITÁVEL E CRUEL” justamente por ser resultado de uma violência do governo cubano. A greve de fome foi um pedido de socorro.

Valores
Democracia não é capricho nem concessão de um líder . É um sistema de valores construído pela coletividade e que leva em consideração, sobretudo, os direitos humanos de CADA INDIVÍDUO, tenha ele as convicções políticas que tiver. Se por uma lado o Parlamento Europeu está de parabéns por se posicionar firme ao lado da democracia, o Brasil saiu menor nesse episódio. E Lula mais ainda.

Coincidência ou método?

Artigo publicado no jornal O Estado

Outra vez um tesoureiro do PT aparece envolvido num escândalo milionário relacionado com financiamento ilegal de campanhas eleitorais. A revista Veja desta semana mostrou uma investigação do Ministério Público de São Paulo sobre o esquema Bancoop, sigla para Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo.

Após analisarem 8.000 páginas de registros de transações bancárias realizadas pela cooperativa entre 2001 e 2008, os procuradores acusam figurões do Partido dos Trabalhadores, entre eles o seu novo tesoureiro, João Vaccari, homem de confiança de Lula e Dilma, de comandar o desvio de dinheiro dos cooperados e de estatais para financiar campanhas e enriquecer companheiros.

Antes de continuar, um desvio ilustrador. Participei recentemente de um encontro com estudantes de jornalismo e publicidade numa faculdade particular. Na ocasião, uma produtora de vídeos, ao falar sobre profissionalismo, revelou que, mesmo sendo “petista de carteirinha”, já havia trabalhado em campanhas de outros partidos. Segundo o seu relato, pelo menos uma vez ela sentiu-se constrangida. Foi quando, fazendo uma campanha para Roseana Sarney, testemunhou Lula, no palanque, segurando as mãos da candidata e de seu pai, José Sarney.

E o que tem a ver um caso com o outro? Simples. Na cachola da militante petista, a cena de união entre Lula – o símbolo da pureza na política, segundo o PT – e Sarney – o símbolo da corrupção, segundo o PT na oposição –, configurava um desvio digno de lamento, mas nada que conspurcasse aquela pureza original. Por isso ela continua uma “petista de carteirinha” (essa expressão mostra um forte sentimento de grupo).

Ocorre que nem a militante inocente, nem muita gente boa, querem enxergar o óbvio: as coligações com antigos desafetos acusados de corrupção (mas cujo pecado era ser adversário) e os recorrentes problemas com tesoureiros envolvidos com caixa 2 não constituem meros desvios acidentais, mas, antes disso, comprovam um método de atuação. O perfil e o currículo de seus operadores, não por acaso, se assemelham.

Enquanto a militante sonhadora se agarra à lembrança mítica do PT que vinha para mudar, daquele que era o partido da ética, deixa passar como simples desatenção, aquilo que, no fundo, é a essência da sigla da qual tanto se orgulham.

A lição que não queremos aprender

Artigo publicado originalmente no jornal O Estado

A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, a Unesco, divulgou relatório no final de janeiro deste ano demonstrando que a qualidade do ensino nas escolas brasileiras é inferior a de países como Paraguai, Equador e Bolívia. Das 128 nações avaliadas no estudo, o Brasil ficou em 88º lugar. Em 2004, o país estava em 72º lugar.

Segundo a Unesco, os principais gargalos da educação no Brasil são a má qualidade e a infraestrutura física precária. Alguns dados são constrangedores. Mais de 17,8 mil escolas não têm energia elétrica e só 37% possuem bibliotecas.

Diante de dados coletados com metodologia elaborada por pesquisadores renomados, o Ministério da Educação considerou os números “estranhos”, alegando que houve ampliação do ensino fundamental para nove anos e queda na evasão. Seria interessante e útil se os burocratas do ministério explicassem como redução de evasão e mudanças nominais de classificação poderiam conferir qualidade ao conteúdo ministrado nas salas de aula.

A posição vexaminosa do Brasil na educação seria “estranha” se a pesquisa da Unesco fosse uma anomalia que destoasse de outras avaliações. No entanto, nossos estudantes secundários tiram sistematicamente os últimos lugares no Pisa – Programa internacional de avaliação promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na última avaliação, em 2007, o Brasil ficou no 52º lugar, dentre os 57 países participantes.

Durante muito tempo imaginei que essa precariedade de resultados fosse resultado de uma tradição de descaso, mas que isso seria paulatinamente corrigido com o ingresso de uma nova geração de professores com formação acadêmica adequada e mais preparados para o desafio da pedagogia. A pesquisa da Unesco revela que, ao contrário, estamos piorando.

A conclusão não pode ser outra: licenciaturas e diplomas de professores não são garantia de qualidade na educação das nossas crianças, pelo simples fato de que as nossas universidades não conseguem produzir educadores. Formam, quando muito, meros propagandistas ideológicos aptos a ensinar analfabetos a escrever o básico. O importante mesmo é ensinar a historinha de que candidatos de esquerda estão do lado dos trabalhadores.

É a pedagogia da luta de classes, que não prepara o indivíduo para pensar por conta própria, que rejeita os conceitos de competitividade, concorrência e livre iniciativa. Nossas crianças são educadas a esperar pelos favores do papai-Estado. Eis o resultado.

Obras, festas e eleições

Artigo publicado originalmente no jornal O Estado

Uma rápida olhada no noticiário político no final de 2009 e no início de 2010 basta para que possamos fazer uma boa projeção para os próximos meses. É só combinar as partes para obter a conjuntura que marcará o ano eleitoral.

O Ministério do Turismo virou o campeão das emendas individuais de deputados e senadores no Orçamento Geral da União para 2010, deixando o Ministério da Saúde apenas em 4º lugar nesse ranking de atração orçamentária. Qual a explicação? Simples. A Pasta do Turismo possui uma verba destinada a financiar eventos festivos, que dispensa licitação e é paga até dois meses após sua autorização. É dinheiro rápido e sem burocracia (e controle) para as festas que fazem a alegria de milhares de eleitores.

O Tribunal de Contas da União pede na Justiça que o governo do Ceará devolva dinheiro aos cofres federais por causa de irregularidades nas obras do Metrofor. O custo inicial para o empreendimento, que deveria ter sido concluído em 2002, quadruplicou.

O TCU também desconfia de superfaturamento de preço e erros graves no projeto inicial de outra obra que se arrasta: o Hospital da Mulher, em Fortaleza. Promessa de campanha ainda para o primeiro mandato da prefeita Luizianne Lins (PT), parte da construção apresentou problemas estruturais e de projeto, devidamente constatados pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) no final do ano passado.

Existem, é claro, as notícias alvissareiras, como a que informa que Fortaleza pode ser a cidade mais beneficiada com royalties do pré-sal. Se somarmos ainda recursos milionários que virão (quem ainda não decorou?) com a refinaria, a siderúrgica e o aquário, além tudo o que será feito para a Copa de 2014, o futuro já está garantido.

No presente, entretanto, o que resta é isso: construções inconclusas, algumas motivos de investigação; festas caras e inúteis na capital e no interior; e promessas de novos amanhãs que nunca chegam. Pelo visto, para obter sucesso em ano eleitoral não é preciso muito mais que alguns tijolos num canteiro de obras, uma banda de forró e muita cara de pau para prometer novamente o que já deveria ter sido feito nos últimos anos.

A mentira como norma social

Artigo publicado originalmente no jornal O Estado

A hegemonia esquerdista no sistema educacional brasileiro produziu uma espécie de patologia que, de tão generalizada, virou norma. Vivemos um permanente estado de esquizofrenia coletiva, imersos num mundo de fantasia onde tudo o que existe resulta da luta maniqueísta entre a direita malvada e a esquerda angelical. Para os nossos alunos, essa premissa é um dado real e natural cientificamente comprovado, tal como a lei da gravidade. Isso é chamado de “trabalho de base” pelos agentes que o promovem.

Tais estudantes, claro, crescem e ocupam espaços no mercado de trabalho, onde acabam por reproduzir as manipulações das quais foram vítimas, agora com a autoridade de um “profissional” devidamente qualificado. Na imprensa, essa condição permitiu o massacre midiático da verdade dos fatos pela propaganda ideológica.

Por isso, episódios escancaradamente produzidos para reescrever o passado e enganar o público – no melhor estilo stalinista -, são recebidos sem a devida crítica capaz de restabelecer a realidade falseada. E de tão repetido, o expediente passou a ser absorvido inconscientemente como algo fidedigno e inquestionável.

No último dia 21 de dezembro, a ministra da Casa Civil e candidata ungida do Planalto à Presidência da República, Dilma Rousseff, chorou durante solenidade de entrega do Prêmio Direitos Humanos 2009 à senhora Inês Etiene Romeu. As duas atuaram como extremistas de esquerda numa guerra contra extremistas de direita nos anos 60 e 70. Inês foi presa e torturada por agentes da ditadura brasileira. Ambas pertenciam a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização terrorista que, entre outros crimes, assassinou o capitão do exército americano Charles Rodney Chandler, destino do qual a premiada Inês foi poupada.

Na imprensa, a versão vigente é de que elas lutavam pela reposição do regime democrático no Brasil. Falso! Essas senhoras queriam mesmo era implantar outra ditadura, baseada nos princípios de uma doutrina genocida e torturadora por excelência: o comunismo. Para isso, a dupla estava disposta a fazer (e fez) o que agora condena. E sem arrependimentos, pelo contrário.

Transformar apologistas e operadores do totalitarismo em campeões da liberdade e defensores dos direitos humanos é uma daquelas inversões que deveriam estarrecer a opinião pública. Não foi o que aconteceu. A preocupação geral era com o novo cabelo da companheira Dilma. E assim seguimos: esquizofrenicamente perdidos entre mentiras e irrelevâncias, porém, felizes.

O lulismo como vício

Artigo publicado no jornal O Estado

As inserções que o Partido dos Trabalhadores veiculou durante esta semana revelam que apesar de ser a mais poderosa máquina partidária do País, a sigla hoje depende demasiadamente, senão inteiramente, da figura do Lula mítico, aquele cuja construção da imagem ficou mais evidenciada com lançamento do filme chapa-branca Lula, O Filho do Brasil.

Esse dualismo entre o lulismo – produto híbrido de marketing político e personalismo messiânico – e o petismo – fusão de submarxismo latino-americano e sindicalismo arrivista – foi, por muitas vezes, útil a ambos.

Já escrevi noutra oportunidade que “a divisão imaginária entre lulismo e petismo não passa de um conveniente instrumento de transferência de responsabilidade na hora de tentar justificar o injustificável. Quando o mensalão estourou, Lula rapidamente responsabilizou o petismo. Acuado pelas chantagens do PMDB, relativas à CPI da Petrobras, o petismo correu para culpar o lulismo pela defesa que fez de Sarney. Ou seja, dependendo da enrascada, o pepino sobra para um ou para outro, e no fim todos se dizem inocentes.”

O problema é que o hábito, de repetido, virou vício, e como tal, cria dependência e exige doses cada vez maiores para se sustentar. No programa, o que se viu foi uma tentativa de aprofundamento do processo de transferência de votos do presidente Lula para a ministra Dilma Rousseff, candidata do Planalto que estacionou na última pesquisa do Ibope, enquanto o tucano José Serra voltou a abrir a diferença na preferência dos eleitores. É o petismo buscando sobrevivência na exploração descarada do lulismo.

Os vídeos da propaganda procuram enaltecer o doador, enquanto a receptora fica passiva, afirmando que existe um Brasil antes e depois de Lula na presidência, não em virtude de suas escolhas ideológicas e morais, mas de suas qualidades pessoais e telúricas. Até o fim da inflação foi creditado ao atual presidente, uma evidente mentira. Os exageros costumam gerar desconfiança. Assim, se por um lado boa parte dos eleitores venera a imagem do Lula populista, por outro começa a duvidar que Dilma possa ser igual a esse ser mitificado.

Transferência de votos tem limites. Quando precisar de combustível próprio para tentar eleger sua enigmática candidata, o PT poderá perceber que já lhe falta uma identidade própria para sobreviver a Lula. Por enquanto, pelas pesquisas, José Serra agradece.

A imprensa sob ataque

Artigo publicado no jornal O Estado

A organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgou ranking indicando que houve um retrocesso da liberdade de imprensa na América Latina. A entidade leva em conta episódios de violência contra jornalistas e órgãos de imprensa.

Entre os 175 países analisados, o Brasil ficou num sofrível 71º lugar. Os que apresentaram maior queda foram Venezuela (124º), Bolívia (95º), Nicarágua (76º) e Equador (84º), todos sob influência de Hugo Chávez.

Na Argentina (47º), o grupo Clarín tem sido alvo de constrangimentos impostos pelo casal Cristina e Néstor Kirchner. Leis feitas para restringir a atuação da imprensa foram aprovadas e operações fiscais buscam intimidar eventuais críticas ao governo argentino.

Em Cuba (170º), a blogueira Yoani Sánchez foi espancada por agentes de repressão da ditadura Castro. Sobre esse episódio, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado brasileiro aprovou, no último dia 11, voto de repúdio ao governo cubano, com posição contrária apenas de Inácio Arruda (PC do B). O senador cearense afirmou que prefere esperar pelas explicações da embaixada cubana. Eis a ética comunista.

Por afinidade ideológica, Arruda lança suspeita sobre a vítima de um regime totalitário, como se não soubesse que ela é proibida de deixar o próprio país, mesmo sem ter cometido crime algum. Somente essa condição de prisioneira por delito de opinião bastaria para que qualquer pessoa decente subscrevesse a nota de repúdio contra Cuba. Mas para um comunista, a decência não passa de um capricho pequeno-burguês e a liberdade de discordar é algo realmente detestável. Raúl Castro fuzilou pessoalmente vários cidadãos que ousaram questionar o irmão Fidel, comprovando o que digo.

No Brasil, curiosamente, essa situação não desperta o interesse de muitos dos que se dizem defensores da liberdade de imprensa. Uma rápida olhada nas páginas de suas entidades de representação basta para ver que eles estão ocupados em lamentar o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, exigência criada pela ditadura militar justamente para controlar a atividade jornalística.

É nesse clima de ataque à liberdade de expressão que o presidente Lula declarou, em recente entrevista, que “o papel da imprensa não é fiscalizar, é informar”. Mas para sindicatos e professores universitários, criminoso mesmo foi o fim da reserva de mercado para jornalistas com diploma.

O muro de Berlim foi obra do socialismo

Artigo publicado no jornal O Estado

Na esteira das comemorações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, na última segunda-feira (9), reportagens, textos jornalísticos, ensaios e artigos rederam homenagens ao evento. Em linhas gerais, o argumento central do que pude ler e assistir centrou discurso na história da reunificação política que simbolizava o doce fim da Guerra Fria e o pacífico ocaso do socialismo soviético.

Acontece que essa sistematização simplificada dos eventos que culminaram na queda do muro serve mesmo é para escamotear a informação principal que deles podemos extrair. Afinal, por que o levantaram? Para que a compreensão integral daqueles fatos, é preciso, naturalmente, entender o contexto que os possibilitaram.

A verdade é que o Muro de Berlim representa a materialização das palavras de Churchill, ditas já em 1946: “De Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente”. E foi criado pelas autoridades socialistas da Alemanha Oriental para evitar que seus habitantes fugissem para a Alemanha Ocidental capitalista. Um alemão oriental, assim como um cubano nos dias de hoje, não podia sair de seu país. Vivia confinado em sua própria pátria.

Mas por que as pessoas queriam fugir do paraíso socialista? Por vários motivos, desde consciência política até instinto de sobrevivência. Depois do fim da Segunda Guerra, todos os países que ficaram sob domínio norte-americano, inclusive o Japão, foram devolvidos aos seus cidadãos e prosperaram. Já os países que ficaram sob a tutela da União Soviética, todos, sem exceção, experimentaram o horror de um regime responsável por aproximadamente 30 milhões de mortes causadas por fuzilamentos, enforcamentos, espancamentos, torturas e inanição forçada. Fora o colapso econômico.

Eis o sonho socialista. A imposição de uma ordem economicamente planificada e ineficaz e da supressão das divergências políticas. A disparidade entre esse modelo e o das democracias liberais é de tal envergadura que foi necessário uma intervenção física, um muro fortemente vigiado por guardas prontos para matar quem ousasse atravessá-lo. Muitos falam que outros muros precisam ser derrubados, como o da pobreza e o da intolerância, desviando o foco daquele episódio. A queda do Muro de Berlim vale pelo que é: a derrota do totalitarismo. Não foi por outro motivo que a chanceler Angela Merkel disse que a data marca uma “vitória da liberdade”.

Partidos Políticos – 2ª parte

Artigo publicado no jornal O Estado

No artigo anterior abordei a fragilidade do sistema partidário brasileiro. Por se tratar de um modelo recente, com apenas 30 anos, as siglas procuram discursos e testam práticas, tateando no escuro, procurando consolidar uma identidade perante o eleitorado.

Além da imaturidade institucional, os partidos convivem com velhos vícios próprios de uma cultura personalista, populista e clientelista.

Não bastassem essas características, ainda há, digamos assim, o paradoxo da esquerda europeia, que após a queda do Muro de Berlim perdeu a capacidade de formular alternativas econômicas ao capitalismo financeiro. Fenômeno que fez os partidos adotarem discursos semelhantes na área, distinguindo-se mais no aspecto cultural.

No Brasil, o quadro incipiente é relativamente simples. As maiores forças momento, capazes de lançar candidatos competitivos para comandar o país, são PSDB e PT.

O PSDB é um partido de base parlamentar, criado a partir de um racha no PMDB. Com efeito, essa gênese de gabinete dificultou uma maior interlocução com os setores organizados da sociedade civil. Do ponto de vista ideológico, a agremiação tem um bom corpo doutrinário, mas seus militantes o desconhecem. Carece de unidade operacional.

O PT é de longe a sigla mais poderosa, influente e rica do país. Seu comando é dividido entre sindicalistas e intelectuais de esquerda, alguns radicais. Menos influente, ainda há uma ala ligada à Teologia da Libertação. Por duas décadas o PT encenou a maior farsa política do país, segundo a qual seus líderes teriam o monopólio da ética pública. O mensalão de Dirceu e o caixa 2 de Delúbio desmontaram essa idealização.

O PMDB, já virou clichê, é uma colcha de retalhos composta de interesses regionais, incapaz de construir um plano nacional. O PC do B é um cadáver adiado, dependente de um ou dois parlamentares. Vive de aparelhar o movimento estudantil. O PSB e o PDT apenas orbitam o petismo. O PPS se resume a Roberto Freire. O resto é sigla de aluguel. O PV, por enquanto, é uma promessa. O DEM não tem coragem de assumir o espaço entre o eleitorado mais à direita.

Dessa geleia geral temos o seguinte panorama: os partidos, em sua maioria, para agradar formadores de opinião, adotam discursos parecidos. Lula já constatou que as próximas eleições serão disputadas apenas por candidatos de esquerda. Romper com essa assimetria ideológico-oportunista hoje é o maior desafio do sistema político nacional.

Partidos políticos – 1ª parte

Artigo publicado no jornal O Estado.

Como é de praxe em anos pré-eleitorais, a movimentação de candidatos e forças políticas começa a se intensificar. A prática da infidelidade partidária e os conchavos ganham maior notoriedade nesses momentos. É a expectativa de poder atuando diretamente no que se convencionou chamar aqui no Brasil de pragmatismo político.

Considerando nossa história, marcada por sucessivos golpes, mudanças de regime, crises e interrupções, não é de estranhar que os partidos sejam frágeis e carentes de maior fixação nas camadas sociais. A regra, com as exceções que a definem como tal, é que essas agremiações sejam vistas apenas como instâncias burocráticas.

No Brasil, clubes de futebol são centenários, partidos políticos não. Já nos Estados Unidos, por exemplo, os democratas, correligionários de Barack Obama, disputam eleições desde 1790, e os republicanos desde 1837. Ou seja, são entidades consolidadas. Em países com inconstância política e institucional, as pessoas costumam seguir apenas indivíduos, ambiente ideal para salvadores da pátria e populistas.

Mas afinal, o que é um partido político? Nas democracias representativas, grosso modo, é o espaço para cidadãos apresentarem um programa de governo à sociedade, com base em pressupostos estabelecidos por uma ideologia, que vem a ser uma proposta de intervenção na realidade. Em suma, é o primeiro passo para por um ideário em prática.

Naturalmente, as circunstâncias e a pluralidade de ideias estimulam a existência de partidos mais ou menos antagônicos, com visões diferentes, que procuram convencer a maioria de que seus encaminhamentos para os problemas da sociedade constituem a melhor opção para resolvê-los.

A distância entre a formulação desse modelo de referência e a realidade partidária no Brasil é abismal. Somente o efeito do tempo e a estabilidade das regras eleitorais podem separar as virtudes dos vícios do nosso sistema. Cabe aqueles com maior nível de instrução, portanto, a responsabilidade de assumir a construção desse processo.

Existem políticos e grupos de políticos bem intencionados, porém, são poucos que sobrevivem imersos em indefinições e heranças malditas. Não adianta esperar por reformas. É preciso que o eleitor, de onde emana o poder, deixe de lado os partidos com programas velhos, abandonados no resto do mundo, bem como as siglas de aluguel, com suas propostas vagas, a serviço de arrivistas e oportunistas que lutam com fervor para que os partidos continuem desacreditados.

Continua na próxima quinta.

PS. A ideia para o próximo artigo é relacionar os vícios do nosso sistema partidário com seus protagonistas aqui no Ceará. O papel das principais siglas no Ceará.

Para não esquecer o que foi a guerrilha do Araguaia

Artigo publicado no jornal O Estado

O sepultamento dos restos mortais do estudante cearense Bergson Gurjão Farias, militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B) e membro da guerrilha do Araguaia, desaparecido e morto em 1972, aos 25 anos de idade, deu margem a manifestações diversas, algumas muito justas, outras bastante equivocadas.

É certo que a tragédia que se abateu sobre o guerrilheiro, morto por forças militares em circunstâncias não esclarecidas, assim como a ocultação do cadáver, marcou para sempre parentes e amigos do jovem. Mas, infelizmente, episódios assim têm sido usados como propaganda ideológica para escamotear a natureza da guerrilha do Araguaia e a atuação do PC do B no período.

Não é possível permitir que as injustiças e a violência cometidas contra jovens militantes, muitos deles idealistas sonhadores que agiam por paixão e impulso, sirvam para encobrir o papel daqueles que recrutavam esses jovens e que hoje posam de democratas, quando, na verdade, queriam mesmo era instalar uma ditadura de pólo invertido, tão ou mais violenta quanto a já que existia: a comunista.

A guerrilha do Araguaia tem sido apresentada como um movimento pela restauração da ordem democrática no Brasil. Isso é falso. Forças revolucionárias de esquerda eram subsidiadas pelos totalitarismos soviético e chinês. O historiador Jacob Gorender, de formação marxista e ex-membro do “Partidão”, lançou na última quinta-feira (8), na Universidade de Brasília, o documentário “A Esquerda Revelada”. É uma boa oportunidade para evitar essas distorções.

“Atentados terroristas, seqüestros, assaltos a bancos estavam entre as estratégias dos partidos e facções de esquerda para implantar o comunismo no Brasil entre as décadas de 1960 e 1970”, afirma Gorender. Não é possível confundir a promoção de crimes com ações filantrópicas, apenas considerando eventuais alegações superiores.

Que se discuta os parâmetros da anistia, tudo bem. Mas que não se pense que uma causa, qualquer causa, possa servir de sustentação moral para a prática de crimes. Os fins não justificam os meios. Quem lutou por democracia no Brasil foi dom Eugênio Sales e Ulisses Guimarães, por exemplo, sem nunca incitar estudantes à luta armada.

Partidos comunistas que idolatram Mao, Che, Fidel, Lênin, Stálin e seus esbirros, não lamentam a tortura, mas sim o fracasso de suas revoluções. O resto é jogo de cena.

Direita despida

Artigo publicado no jornal O Estado

Em maio do ano passado escrevi para este jornal um artigo intitulado “Quem for de direita levante a mão”. Tratava-se, evidentemente, de uma ironia para ilustrar a ausência, no Brasil, de forças políticas organizadas para divulgar o pensamento de direita. Pode haver direitistas isolados, aqui ou alhures, mas não existe um movimento coordenado a partir de um ou mais centros irradiadores dessa importante doutrina.

Após a publicação do referido artigo, alguns palpiteiros adestrados vieram a público indignados com tamanha inverdade. Outros, mais preparados, demonstraram surpresa: “Wanderley, a direita é o PSDB”. No fundo, essas pessoas apenas repetiam o discurso produzido nas universidades por um exército de intelectuais engajados na tarefa de distorcer o real sentido do que venha a ser direita no resto do mundo. Direita, aqui, é palavrão; quando menos, um conveniente cacoete retórico.Sempre que um esquerdista se vê em apuros, acusa a direita, de forma genérica e amorfa.

Por isso de nada adianta lembrar a qualquer interlocutor que o PSDB é social-democrata. Somente numa sociedade em que a educação virou instrumento de doutrinação geral, é possível acreditar que é de direita um partido cuja inspiração programática seja Edward Bernstein e Hélio Jaguaribe.

No entanto, vejam como o mundo dá voltas. Não é que finalmente alguém concordou comigo? E ninguém menos que Lula, o chefão da esquerda brasileira. No último dia 16 de setembro, o presidente comemorou: “Pela primeira vez não vamos ter um candidato de direita na campanha. Não é fantástico isso? (…) Começou a melhorar já comigo e com o Fernando Henrique Cardoso. Depois eu e Serra, também.”

Como sempre, ao expor seu pensamento em mais de uma frase, Lula entrou em contradição. Mas, nesse caso, a essência do pensamento foi preservada. Não será em 2010 a primeira eleição sem direita, como disse Lula. A verdade, também dita pelo mesmo Lula, no mesmo discurso, é que desde que disputou a presidência (e perdeu) com FHC, não há direita para atrapalhar a hegemonia esquerdista no Brasil.

As declarações de Lula não causaram escândalo, nem reclamações, comprovando que a direita realmente é fraca. Nem candidato consegue lançar. Boa parte dos formadores de opinião nunca leu um autor de direita ou pelo menos um precursor do liberalismo.

Ver com naturalidade um presidente celebrar a ausência de contraponto ideológico é sinal de assimetria política, pobreza intelectual e degradação institucional. Pior. Não reconhecer a legitimidade da divergência revela um pensamento de matriz autoritária.

Um ano de crise e o capitalismo ainda não acabou

Artigo publicado no jornal O Estado.

Há um ano a cara da crise financeira mundial foi exposta aos desavisados com o pedido de concordata do banco de investimentos Lehman Brothers, nos Estados Unidos. Um misto de incredulidade e desespero contaminou os negócios. Investimentos foram postergados e o crédito secou. Os governos temeram o pior: um colapso sistêmico. Autoridades monetárias de vários países injetaram dinheiro público no mercado.

Críticos do capitalismo denunciaram, alarmados, as vicissitudes do modelo excludente. Em êxtase, lembraram que o sistema traz consigo o germe da sua destruição. O espectro do marxismo rondava a análise política e econômica. Karl Marx voltou a ser citado como profeta apocalíptico.

Muitos gritavam: “É preciso regular o mercado financeiro e acabar com a ciranda da especulação!” Intelectuais repetiam: “Marx previu”. Os amalucados do Fórum Social Mundial diziam: “Outro mundo é possível”, enquanto comiam em fast-foods.

Marx, ainda bem, não acertou nada. Morreu sem concluir o terceiro volume de O Capital, incapaz de explicar, por exemplo, como a lucratividade das empresas aumentava mesmo com a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias. O conceito de mais-valia como teoria econômica morreu para sobreviver apenas como chavão anacrônico em salas de aula do Terceiro Mundo.

Passado um ano as previsões pessimistas começam a mudar de rumo, mesmo sem a tal regulação do “capital especulativo”. Confiante, Lula prevê crescimento no próximo ano. Os EUA já sinalizam redução de perdas e aumento de produção. Crises econômicas são como abalos sísmicos. Guardadas as diferenças óbvias, são eventos de acomodação, de ajuste e reposicionamento, perfeitamente compreensíveis. Sabemos que novos terremotos e novas crises acontecerão, mas não podemos determinar quando e aonde.

Os governos agiram pontualmente e cumpriram o seu papel intervindo onde foi preciso e corrigindo distorções eventuais. Para isso existe a figura do Banco Central. Mais uma crise cíclica veio e o capitalismo continua firme e forte.

É bom que seja assim. O segredo de sua prosperidade e longevidade é justamente sua capacidade de adaptação. As contradições e as limitações do sistema, evidentemente, expressam as contradições e as limitações da natureza humana. Imaginar que é impossível controlar isso por meio de decretos ou de normas internacionais não passa de uma ilusão que, no presente caso, não durou um ano.

Lula no Ceará: filme repetido

Artigo publicado no jornal O Estado

Filme repetido

Filme velho e repetido

Escrevo este artigo um dia antes da visita do presidente Lula ao Ceará, prevista para esta quinta-feira (10). No entanto, não é preciso possuir dons premonitórios para saber o que vai ser dito nos palanques festivos. Basta observar com atenção os acontecimentos das passagens anteriores do presidente para perceber que existe um método de autopromoção pessoal e enganação para celebrar a figura de Lula.

Em julho de 2007 o presidente veio a Fortaleza lançar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na ocasião ele que gostaria de voltar “logo, logo” (prazo indefinido) “inauguração dessa tal siderúrgica que deixou tanta gente nervosa”.

No mundo real, a piada não tem graça. Segundo levantamento do site Contas Abertas, com dados atualizados até abril de 2009, dos 815 empreendimentos carimbados com a sigla PAC no Ceará, apenas 60 haviam sido concluídos – boa parte deles investimentos privados. E olha que o programa em aceleração. Quanto a siderúrgica…

Esse é apenas um exemplo entre tantos. A prometida refinaria também não está nem mesmo perto de ser uma realidade para o cearense. O padrão das visitas de Lula é baseado no alarde de factóides que mudam conforme o período. Uma hora é biocombustível à base de óleo de mamona, outra é um investimento de 90 bilhões de reais (os números nunca são modestos), depois o PAC da Copa, o PAC do Saneamento, o PAC da Juventude, a auto-suficiência de petróleo, a refinaria de novo e por aí vai.

Na visita desta quinta o factóide é o pré-sal, que fará do Brasil uma potência etc. e tal. A mesma conversa do etanol. No dia seguinte, os jornais noticiarão novas promessas de investimentos bilionários. De concreto, apenas nos resta ver o presidente e sua comitiva inaugurando obras de pequeno porte e assinando papéis, sem nada que possa contribuir de forma substancial para o desenvolvimento do Ceará e do Nordeste.

Enquanto o presidente faz campanha para Dilma e para Pimentel em eventos públicos e trabalha para salvar o companheiro José Sarney no Senado, sempre pensando nas equações eleitorais, o Ceará perde espaço para a Bahia e para Pernambuco. Todos sabem.

A visita de Lula é previsível. Consiste na recauchutagem de promessas antigas e na elaboração de outras mais mirabolantes ainda. Nessas ocasiões, observem, os verbos são conjugados quase sempre no futuro do presente. Faremos, será, investiremos, construirão… Não vai ser diferente agora. Tudo com a garantia de manchetes positivas e aplausos de autoridades, algumas delas com ficha corrida nos escândalos nacionais.

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