Category: Cultura

Moral de esquerdista é assim mesmo

O leitor Henrique Lima postou um link no blog do jornalista Reinaldo Azevedo com a charge que ilustra um post deste blog: Quando é com o PT, flagrante de corrupção é denuncismo; quando é com os outros, é mensalão.(clique no link para ver).

A charge em questão mostra duas imagens. Uma com as ruas esvaziadas, marcada com o subtítulo: Mensalão do PT. A outra, com ruas tomadas por manifestantes, notadamente sindicalistas e estudantes, com bandeiras vermelhas, com o subtítulo: Mensalão do DEM.

Azevedo, uma das vozes mais polêmicas e lúcidas da crônica política nacional também publicou o desenho, criação do chargista Renato, e publicado originalmente no jornal A Cidade, de Ribeirão Preto. Em seu post, o jornalista comenta:

O fato de PSDB e DEM não terem ido às ruas contra o mensalão do PT — ou porque lhes faltou disposição, ou porque, como querem alguns, não têm militantes — não elimina o mau-caratismo das esquerdas, que protestam contra as sem-vergonhices de Arruda e sua turma, mas se calaram e se calam diante das sem-vergonhices da turma de Lula.

A questão é saber quem está usando duas morais: uma para os “amigos” e outra para os “inimigos”. De resto, Arruda já está fora do DEM. E José Dirceu? E José Genoino? Na prática, eles estão na direção do PT.

Como sempre gosto de lembrar, essa postura dúbia, de protestar com veemência contra algo, sem se importar com o evidente telhado de vidro – como no caso desses esquemas de desvio de dinheiro público – não configura, de forma alguma, uma contradição. Não. Isso equivale a aceitar que essa postura é fruto de uma confusão, de uma angústia aou de um desvio acidental. Engano. É MÉTODO, É CÁLCULO!

A lógica doutrinária que serve de alicerce para o pensamento esquerdista, um crime, para ser crime, não corresponde necessariamente a uma má ação, mas primordialmente a quem o pratica. Um crime, para a esquerda, é todo ilícito cometido por seus ADVERSÁRIOS. O juízo de valor não está no ato, mas no sujeito.

Quando o mesmo crime é cometido para beneficiá-los, dois automatismos mentais socorrem o militante esquerdista:

A) sempre há um bom motivo, uma causa, uma estratégia, que serve de desculpa e que procura adornar de virtude o mesmíssimo ilícito. São os fins justificando os meios. Essa situação foi perfeitamente exposta pelo ator petista Paulo Betti, que para justificar o mensalão de seus companheiros, afirmou é preciso colocar a mão na merda para governar. Seria uma espécie de pragmatismo que antecede a utopia.

B) Foi tudo armação e culpa da direita, dos tucanos, da imprensa, da oposição, da elite, dos reacionários, etc. O negócio é transferir a culpa para os outros. Assim: o esquerdista bonzinho estava pensando em como melhorar o mundo quando foi abordado por um corrupto de direita que o ludibriou. Quando o sujeito é flagrado com a cueca entupida de dólares, adivinhem de quem foi o responsável? Ora, quem deu a grana e quem noticiou o fato. Estranhamente, o esquerdista bobinho não revela quem foi que lhe corrompeu, perdendo a chance de desmascarar os golpistas.

A moral dessa gente é assim. Não é improviso. É doutrina. A moral, tal como a entendemos – cristã e kantiana – é apenas, para o esquerdista, uma estratégia de dominação das elites. A moral deles é a de Gramsci, segundo a qual algo só pode ser considerado bom ou ruim, a depender dos interesses do partido.

PS. Agradeço ao Henrique Lima, por estar atento a essas questões, compartilhando-as com tanta gente que não concorda com essa ética de conveniência.

Lula, o Filho do Brasil: Não se faz um mito da noite para o dia

A revista Veja desta semana aborda o filme sobre a vida do presidente Lula e evidencia o óbvio: trata-se de uma construção política premeditada com vistas às eleições de 2010. Financiado por empresas privadas que possuem ligações com o governo do biografado, o filme – que ainda não chegou às salas de cinema – já é a produção nacional mais cara da história, e terá o maior esquema de distribuição já visto no país.

Veja faz o que tem que fazer o jornalismo combatido pelos que desejam domesticá-lo em benefício do atual governo. Criticou, com argumentos consistentes, a manobra político-eleitoral. Isso pode soar como heresia para os que defendem o alinhamento automático com um presidente que tem popularidade nas alturas, mas isso é coisa de militante.

Reparem nos trechos abaixo, publicados originalmente em Veja:

REALIDADE

Lula foi um líder sindical carismático e pragmático que se encaixou à perfeição no projeto de distensão política do regime militar por ser da esquerda não marxista, não alinhada com o movimento comunista internacional e, por isso, tolerada

Lula foi um líder sindical carismático e pragmático que se encaixou à perfeição no projeto de distensão política do regime militar por ser da esquerda não marxista, não alinhada com o movimento comunista internacional e, por isso, tolerada

FICÇÃO

O sindicalista Lula vira na tela um Gandhi magnânimo, infalível e incorruptível cuja bondade e sabedoria se combinam com uma visão de futuro privativa dos profetas

O sindicalista Lula vira na tela um Gandhi magnânimo, infalível e incorruptível cuja bondade e sabedoria se combinam com uma visão de futuro privativa dos profetas

Crítica – Wanfil

Esse post não é uma resenha do filma Lula, o Filho do Brasil. Mas uma reflexão a partir da reportagem de Veja, que além do acerto ao tentar oferecer ao leitores uma visão mais aprofundada do que parece ser apenas um filme,  tem o mérito de tocar no ponto crucial, que ultrapassa a questão eleitoral: a operação política e cultural, de inspiração totalitária, para fazer de um líder, um mito ainda em vida.

Mito
Veja diz que esse é o real propósito em curso. E lembra que tal manobra pode, com efeito, deturpar aquilo o que o presidente Lula fez realmente de bom e correto em seu mandato (que para mim foi negar o seu passado, agora reescrito pelo melodrama cinematográfico). E nesse ponto a revista acerta quando compara magistralmente o enredo do filme com a história de Cristo: nascimento na pobreza, destino, penitência e ressurreição (no caso, a eleição em 2002).

Mas é bom lembrar que, ao contrário do que pode parecer, construir um mito não é uma missão tão fácil. É preciso muito mais do que o cinema para isso. É preciso toda uma teia de relações sociais, populismo, poder político, carisma e  hegemonia cultural.

Processo
E assim, resta concluir que esse processo de mitificação de Lula vem de longas datas. Para isso, vale a leitura do livro Partido de Deus: Fé, Poder e Política (Alaúde editora – 2007), do historiador Luís Mir. Confiram trecho:

A CNBB necessitava (…) de uma liderança messiânica. Fabricou no ABC nos anos 1980, a partir de uma emergente liderança sindical, Luiz Inácio da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, um Antônio Conselheiro (…) redivivo, contemporâneo.

(…) Esgotado seu papel como líder sindical, a marcha libertadora, a romaria dos despojados, exigiria muito mais, ordenava a construção do mito. Os fundamentos: retirante, sofredor, cristão sincero. (…) Igual a outros milhões de retirantes, sofredores, mas, como fora escolhido (divinamente) para a missão, era o único capaz de guiar a marcha final dos pobres em direção do paraíso.

O que provocou uma tentação inabalável: não se considerar resultado de um processo histórico, muito menos a sua chegada ao poder político máximo do país como concretização, decorrência natural de uma luta política e social coletiva de duas décadas. (…)

O redivivo Antônio Conselheiro acabaria enredado por um ardil alheio a sua vontade: o povo brasileiro e os militantes do PT passam a ser seus filhos, filhos que o veneram como pai.

Regulamentar a profissão de “flanelinha” é legalizar a extorsão

Uma audiência pública realizada ontem (05/10) na Comissão de Viação, Transporte Público, Desenvolvimento Urbano e Interior da Assembleia Legislativa discutiu a situação dos “guardadores e lavadores autônomos de veículos de Fortaleza”, popularmente conhecidos como “flanelinhas”. (V. Situação dos guardadores de carros é discutida em audiência na AL).

Existe até uma associação da “categoria”, com direito a advogado e tudo. A iniciativa foi do deputado Francisco Caminha, do Partido Humanista da Solidariedade (PHS). ParO parlamentar é tão humanista e solidário que, inspirado em ações promovidas no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul, de fende que a função do guardador seja reconhecida como profissão. “A sociedade, muitas vezes, vê o flanelinha, como é chamado, como marginal”, diz.

Cabe aqui uma correção. Embora eu não tenha procuração para falar em nome da sociedade, posso garantir que muitos – basta uma consulta a amigos e familiares – não olham o flanelinha como marginal, não. Olham é com medo mesmo, constrangidos que são a pagar por um serviço que não pediram. Eu pago, e provavelmente o amigo leitor paga, por receio de ter o veículo danificado. Posso estar errado? Acho que não. Mas onde estão os números mostrando que a “profissão” de flanelinha reduziu os índices de roubos a carros? Não existem. O que há é uma onda politicamente correta tentando vender como discursos bonitos como solução. É claro que uma lei sobre o assunto deixará devidamente anotado que o pagamento não é obrigatório. Mas quem garante que isso não seja visto pelo profissional guardador como um calote? Por favor…

As autoridades deveriam estar preocupadas em preservar as vítimas desse modelo de extorsão. E não me chamem de preconceituoso, por favor. Esse é um clichê que nada acrescenta. Quando a medida foi tomada em outros estados, escrevi sobre o tema. Vale o registro do post Inclusão social é… Criar curso para flanelinhas!:

“Vejam como a fusão do ideário politicamente correto com a falta de competência administrativa vão corroendo o bom senso. Diz o ditado que quando um problema não tem solução, solucionado está. É uma forma de resignação positiva, que convoca o sujeito a mudar o enfoque e as ações para se relacionar com alguma dificuldade. Mas como quase tudo no Brasil, a coisa ganhou ares de política social.

Tem gente catando lixo nas ruas? Ora, vamos legalizá-los e organizar cooperativas, distribuir carrinhos com propagandas de governos para os catadores e comemorar a importância desse trabalho para a preservação do meio ambiente. A violência está grande? Vamos patrocinar um seminário para constatar que equipar melhor a polícia e construir presídios não é a solução. Bom mesmo é fazer mesa redonda, enquanto o crime avança.

Para acabar com o subemprego, vejam só, basta elevá-lo à categoria de emprego regulamentado. Quem for contra é reacionário! Aguardem que em breve outras cidades acompanharão Brasília e Porto Alegre, que partiu na frente. Já imaginaram um curso para flanelinhas? ‘Caro aluno, sinalize para o manobrista com mais simpatia e aborde-o com um cordial bom-dia, antes de solicitar o salário’. É dose!

E vejam como a questão é capciosa. As pessoas saem procurando flanelinhas, para só então estacionarem os seus carros? Claro que não, pelo contrário. O que existe é coação implícita e, algumas vezes, explícita, como nas ruas próximas a casas de shows. Por que alguém paga a um flanelinha? Ora, para evitar “problemas”. E muita gente ainda sente culpa por não gostar de ser intimidado, por ser praticamente obrigada a pagar por um serviço que não quer.

E assim seguimos, com nossos representantes propondo soluções vazias na base do lero-lero. Daqui a pouco vão regulamentar a profissão de mendigo, nomeando-a pomposamente de ‘promotores da filantropia alheia’. Como poderemos exercer a caridade sem eles? Fica a dica para os nossos humanistas solidários.

Direita despida

Artigo publicado no jornal O Estado

Em maio do ano passado escrevi para este jornal um artigo intitulado “Quem for de direita levante a mão”. Tratava-se, evidentemente, de uma ironia para ilustrar a ausência, no Brasil, de forças políticas organizadas para divulgar o pensamento de direita. Pode haver direitistas isolados, aqui ou alhures, mas não existe um movimento coordenado a partir de um ou mais centros irradiadores dessa importante doutrina.

Após a publicação do referido artigo, alguns palpiteiros adestrados vieram a público indignados com tamanha inverdade. Outros, mais preparados, demonstraram surpresa: “Wanderley, a direita é o PSDB”. No fundo, essas pessoas apenas repetiam o discurso produzido nas universidades por um exército de intelectuais engajados na tarefa de distorcer o real sentido do que venha a ser direita no resto do mundo. Direita, aqui, é palavrão; quando menos, um conveniente cacoete retórico.Sempre que um esquerdista se vê em apuros, acusa a direita, de forma genérica e amorfa.

Por isso de nada adianta lembrar a qualquer interlocutor que o PSDB é social-democrata. Somente numa sociedade em que a educação virou instrumento de doutrinação geral, é possível acreditar que é de direita um partido cuja inspiração programática seja Edward Bernstein e Hélio Jaguaribe.

No entanto, vejam como o mundo dá voltas. Não é que finalmente alguém concordou comigo? E ninguém menos que Lula, o chefão da esquerda brasileira. No último dia 16 de setembro, o presidente comemorou: “Pela primeira vez não vamos ter um candidato de direita na campanha. Não é fantástico isso? (…) Começou a melhorar já comigo e com o Fernando Henrique Cardoso. Depois eu e Serra, também.”

Como sempre, ao expor seu pensamento em mais de uma frase, Lula entrou em contradição. Mas, nesse caso, a essência do pensamento foi preservada. Não será em 2010 a primeira eleição sem direita, como disse Lula. A verdade, também dita pelo mesmo Lula, no mesmo discurso, é que desde que disputou a presidência (e perdeu) com FHC, não há direita para atrapalhar a hegemonia esquerdista no Brasil.

As declarações de Lula não causaram escândalo, nem reclamações, comprovando que a direita realmente é fraca. Nem candidato consegue lançar. Boa parte dos formadores de opinião nunca leu um autor de direita ou pelo menos um precursor do liberalismo.

Ver com naturalidade um presidente celebrar a ausência de contraponto ideológico é sinal de assimetria política, pobreza intelectual e degradação institucional. Pior. Não reconhecer a legitimidade da divergência revela um pensamento de matriz autoritária.

Nosso herói importado

Artigo publicado no jornal O Estado

“Pobre do país que precisa de heróis”, dizia Bertold Brecht, o dramaturgo oficial da extinta Alemanha Oriental, mas que no Brasil virou símbolo do humanismo socialista. Assim como Karl Marx, Brecht amava o povo, desde que se concordasse com ele. Para o resto, um bom pelotão de fuzilamento bastaria. Eis o humanismo dessa gente.

Sendo assim, o correto então é dizer: feliz o país que possui heróis. Mas heróis genuínos, forjados pela combinação de coragem para enfrentar as adversidades vividas por seus compatriotas e a consciência cívica no cumprimento dos deveres humanitários.

Na ausência dessas figuras capazes de representar a identidade e o espírito de um povo, o negócio é apelar para personagens de menor estatura e elevá-los a uma condição maior. Assim é que um país, ao viver crises profundas, mas carente de pessoas que possam servir de referência para atravessar o período conturbado, acaba confundindo ídolos com heróis. Erro semelhante ao de imaginar que paixão é amor.

O herói nacional que precisou sair do país para ter uma chance foi capa de Veja

O herói nacional que precisou sair do país para ter uma chance foi capa de Veja

No Brasil, esse fenômeno tem uma característica bem acentuada. É que nas últimas décadas, temos feito de esportistas heróis nacionais. O mais novo é o nadador César Cielo, o fenomenal campeão olímpico que na semana passada quebrou o recorde mundial dos 100 metros, em Roma.

Evidentemente ele possui qualidades que servem de exemplo não só aos brasileiros, mas a todos, sem distinção de nacionalidade. Mas herói? Isso é um exagero. Bem vista a trajetória de Cielo, podemos notar que ele é antes uma amostra cruel de como o Brasil abandona os seus jovens talentos a própria sorte.

Sim. Só temos o nosso herói campeão graças a Universidade Auburn, nos Estados Unidos, que lhe pagava bolsa de 35.000 dólares anuais. Sem os americanos, não teríamos o que comemorar. É ufania local financiada pelo estrangeiro; uma espécie de nacionalismo importado. Antes disso, em 2008, o próprio Cielo revelou, quando todos comemoravam sua conquista em Pequim: “De 2006 até antes do Pan do Rio, tudo foi bancado pelo meu pai, puro ‘paitrocínio’.”

Todos nós temos um pouco de César Cielo, com a diferença de que vivemos no anonimato. Homens e mulheres trabalham arduamente para construir e manter o Brasil, submetidos a uma carga de impostos indecente, para depois serem solenemente ignorados, enquanto políticos posam de benfeitores desinteressados. Adaptando Brecht, só resta concluir: pobre do país que precisa de outro país para ter heróis.

Declínio cultural

No post anterior citei de passagem a teoria da decadência do jornalista e filófoso espanhol Ortega Y Gasset, segundo a qual – grosso modo –  todo período de declínio numa sociedade é precedido por uma omissão de suas elites. Quando Gasset fala em elite, não se trata do conceito marxista, preso apenas ao critério econômico, mas sim de lideranças em várias áreas: religiosa, cultural, espiritual, econômica, política e moral.

Nesse sentido, pessoas pobres e com pouco estudo podem constituir uma elite capaz de criar modelos de pensamento e postura, servindo de exemplo para as massas (que são os homens comuns, acomodados, que podem até ser ricos). Aleijadinho e Patativa do Assaré, por essa perspectiva, pertencem a uma elite rara.

Falo isso porque acredito que vivemos, no Brasil, um período de declínio cultural gravíssimo, cujas consequências ainda não se manifestaram. Conforme explica Gasset, na obra A Rebelião das Massas, quando essa elite falha, seja por incompetência ou omissão, resta à massa tentar produzir, ela mesma, os referenciais de convivência de que necessita, como crianças sem pais que as orientem.

Daí que hoje muitos imaginem que gente como Marcelo D2, MV Bill e Falcão (do grupo Rappa), sejam pensadores densos e pertinentes, quando estes apenas procuram, com muito, mas muito esforço, reproduzir chavões caducos contra o sistema. O interessante é que esses indivíduos lucram muita grana posando de críticos do capitalismo e das injustiças sociais.

Mas não quero discutir a questão do protesto na música (Falcão, o humorista cearense, dá de chinelo nessa turma). Quero apenas mostrar que o fato de artistas inócuos assumirem um papel de liderança artística é sinal de fragilidade. A consequência desse estado mental é que, com o tempo, não seremos mais capazes de compreender os problemas que vivemos, tornando-nos incapazes de prover soluções.

Uma rápida olhada na produção de um desses artistas basta para ilustrar o que digo. O Rappa fez shows nesses dias pelo Ceará. Resolvi olhar algumas letras dele, que escolhi aleatoriamente. Vejam que primor de raciocínio, sintaxe, elegância e discernimento desses intelectuais:

7 Vezes
“Será que é preciso pensar,
começado a andar pra trás, ao contrário.
Colorir todo de amor,
inventar um novo jeito de brincar.
Saber perder é, saber perder é,
saber perder alguma coisa pra sobreviver”

Catequeses do medo
“A fome é um esperma
Por entre as pernas da violência
E o egoísmo que excitou
As diferenças em que merece
Um aborto imediato”

Pescador de ilusões
“Se eu ousar catar
Na superfície
De qualquer manhã
As palavras
De um livro
Sem final! Sem final!
Sem final! Sem final!
Final…

Valeu a pena
Êh! Êh!
Valeu a pena
Êh! Êh!
Sou pescador de ilusões”

Toda criança sabe que o segredo da comunicação eficaz é fazer-se entender. Mas o Rappa e seus congêneres não precisam se fazer entender. Sabem como é, basta a “atitude”. Ou seja, vestir uma bermuda caída, um tênis bacana, um boné para trás e uma camisa tamanho GG e dizer coisas como “sou um pescador de ilusões que não aceita a catequese do medo”. É a decadência. As letras acima são grosseiras, dispensáveis, incompreensíveis.

Esses senhores – sim, os citados não são mais adolescentes, e alguns já passaram dos 40 -, que não conseguem nem sequer construir períodos simples e que se escondem atrás de elipses amalucadas, são os modelos de pensamento para a nossa juventude. É constrangedor.

Entenda porque ele foi o Rei do Pop

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