Category: Jornalismo

O milagre da multiplicação: governo conta como obra sua universidade que já existia!

“E pasmem, para uma coisa que é importante: eu, torneiro mecânico, já sou o presidente da República que mais fez universidades neste país”, anunciou o presidente Lula, na semana passada, em Teófilo Otoni (MG), como já havia feito, só neste ano, em Bacabeira (MA), São Leopoldo (RS), Araçuaí (MG), no Fórum Social de Porto Alegre e em Brasília. 

Das 13 universidades contabilizadas pelo Planalto como obra sua, 9 são mero resultado de fusão, desmembramento ou ampliação de instituições federais de ensino superior inauguradas por outros presidentes – que, em sua época, também se valeram de estruturas preexistentes mantidas por Estados, municípios e empresas privadas.

A se levar a sério o levantamento do Ministério da Educação que sustenta a propaganda oficial, Juscelino Kubitschek supera o ritmo de Lula, com dez universidades em cinco anos de mandato. Até o arquirrival FHC, já acusado pelo petista de não ter criado nenhuma, conta com seis no documento.

O texto acima é de Gustavo Patu, da Folha de São Paulo, publicado na edição desta quinta-feira (18), e disponível apenas para assinantes. Pelo visto, na universidade que Dilma estuda, Lula é professor há muito tempo!

Conferir e analisar os números alardeados por um governo – qualquer um – é tarefa básica do jornalismo. Foi o que fez Gustavo Patu, de forma desconcertante. A matéria ainda mostra outros dados, como a diferença entre o nível de investimento real e o prometido, e a discrepância dos recursos para saneamento. Todos acabam superestimados pelo Governo Federal. Talvez por isso alguns setores governistas não cansam de acusar a imprensa de golpe – além de querer criar mecanismos de “controle social da mídia”. Olhos atentos.

A mentira como norma social

Artigo publicado originalmente no jornal O Estado

A hegemonia esquerdista no sistema educacional brasileiro produziu uma espécie de patologia que, de tão generalizada, virou norma. Vivemos um permanente estado de esquizofrenia coletiva, imersos num mundo de fantasia onde tudo o que existe resulta da luta maniqueísta entre a direita malvada e a esquerda angelical. Para os nossos alunos, essa premissa é um dado real e natural cientificamente comprovado, tal como a lei da gravidade. Isso é chamado de “trabalho de base” pelos agentes que o promovem.

Tais estudantes, claro, crescem e ocupam espaços no mercado de trabalho, onde acabam por reproduzir as manipulações das quais foram vítimas, agora com a autoridade de um “profissional” devidamente qualificado. Na imprensa, essa condição permitiu o massacre midiático da verdade dos fatos pela propaganda ideológica.

Por isso, episódios escancaradamente produzidos para reescrever o passado e enganar o público – no melhor estilo stalinista -, são recebidos sem a devida crítica capaz de restabelecer a realidade falseada. E de tão repetido, o expediente passou a ser absorvido inconscientemente como algo fidedigno e inquestionável.

No último dia 21 de dezembro, a ministra da Casa Civil e candidata ungida do Planalto à Presidência da República, Dilma Rousseff, chorou durante solenidade de entrega do Prêmio Direitos Humanos 2009 à senhora Inês Etiene Romeu. As duas atuaram como extremistas de esquerda numa guerra contra extremistas de direita nos anos 60 e 70. Inês foi presa e torturada por agentes da ditadura brasileira. Ambas pertenciam a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização terrorista que, entre outros crimes, assassinou o capitão do exército americano Charles Rodney Chandler, destino do qual a premiada Inês foi poupada.

Na imprensa, a versão vigente é de que elas lutavam pela reposição do regime democrático no Brasil. Falso! Essas senhoras queriam mesmo era implantar outra ditadura, baseada nos princípios de uma doutrina genocida e torturadora por excelência: o comunismo. Para isso, a dupla estava disposta a fazer (e fez) o que agora condena. E sem arrependimentos, pelo contrário.

Transformar apologistas e operadores do totalitarismo em campeões da liberdade e defensores dos direitos humanos é uma daquelas inversões que deveriam estarrecer a opinião pública. Não foi o que aconteceu. A preocupação geral era com o novo cabelo da companheira Dilma. E assim seguimos: esquizofrenicamente perdidos entre mentiras e irrelevâncias, porém, felizes.

Estreia no Blog da Janga

imagemNesta terça-feira (22) comecei a escrever para o Blog da Janga, do Portal Jangadeiro Online. Divido o espaço com Kézya Diniz, Nonato Albuquerque,  Anésia Gomes e Emílio Moreno.

Meus primeiros posts já estão no ar:

Pesquisa Datafolha no Ceará mostra cenário aberto para disputas;

Cid lidera pesquisa Datafolha para Governo do Estado;

Lula compara carga tributária do Brasil com a da Europa, mas não fala da qualidade dos serviços.

Conto com vocês nos comentários.

Lula, o Filho do Brasil: Não se faz um mito da noite para o dia

A revista Veja desta semana aborda o filme sobre a vida do presidente Lula e evidencia o óbvio: trata-se de uma construção política premeditada com vistas às eleições de 2010. Financiado por empresas privadas que possuem ligações com o governo do biografado, o filme – que ainda não chegou às salas de cinema – já é a produção nacional mais cara da história, e terá o maior esquema de distribuição já visto no país.

Veja faz o que tem que fazer o jornalismo combatido pelos que desejam domesticá-lo em benefício do atual governo. Criticou, com argumentos consistentes, a manobra político-eleitoral. Isso pode soar como heresia para os que defendem o alinhamento automático com um presidente que tem popularidade nas alturas, mas isso é coisa de militante.

Reparem nos trechos abaixo, publicados originalmente em Veja:

REALIDADE

Lula foi um líder sindical carismático e pragmático que se encaixou à perfeição no projeto de distensão política do regime militar por ser da esquerda não marxista, não alinhada com o movimento comunista internacional e, por isso, tolerada

Lula foi um líder sindical carismático e pragmático que se encaixou à perfeição no projeto de distensão política do regime militar por ser da esquerda não marxista, não alinhada com o movimento comunista internacional e, por isso, tolerada

FICÇÃO

O sindicalista Lula vira na tela um Gandhi magnânimo, infalível e incorruptível cuja bondade e sabedoria se combinam com uma visão de futuro privativa dos profetas

O sindicalista Lula vira na tela um Gandhi magnânimo, infalível e incorruptível cuja bondade e sabedoria se combinam com uma visão de futuro privativa dos profetas

Crítica – Wanfil

Esse post não é uma resenha do filma Lula, o Filho do Brasil. Mas uma reflexão a partir da reportagem de Veja, que além do acerto ao tentar oferecer ao leitores uma visão mais aprofundada do que parece ser apenas um filme,  tem o mérito de tocar no ponto crucial, que ultrapassa a questão eleitoral: a operação política e cultural, de inspiração totalitária, para fazer de um líder, um mito ainda em vida.

Mito
Veja diz que esse é o real propósito em curso. E lembra que tal manobra pode, com efeito, deturpar aquilo o que o presidente Lula fez realmente de bom e correto em seu mandato (que para mim foi negar o seu passado, agora reescrito pelo melodrama cinematográfico). E nesse ponto a revista acerta quando compara magistralmente o enredo do filme com a história de Cristo: nascimento na pobreza, destino, penitência e ressurreição (no caso, a eleição em 2002).

Mas é bom lembrar que, ao contrário do que pode parecer, construir um mito não é uma missão tão fácil. É preciso muito mais do que o cinema para isso. É preciso toda uma teia de relações sociais, populismo, poder político, carisma e  hegemonia cultural.

Processo
E assim, resta concluir que esse processo de mitificação de Lula vem de longas datas. Para isso, vale a leitura do livro Partido de Deus: Fé, Poder e Política (Alaúde editora – 2007), do historiador Luís Mir. Confiram trecho:

A CNBB necessitava (…) de uma liderança messiânica. Fabricou no ABC nos anos 1980, a partir de uma emergente liderança sindical, Luiz Inácio da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, um Antônio Conselheiro (…) redivivo, contemporâneo.

(…) Esgotado seu papel como líder sindical, a marcha libertadora, a romaria dos despojados, exigiria muito mais, ordenava a construção do mito. Os fundamentos: retirante, sofredor, cristão sincero. (…) Igual a outros milhões de retirantes, sofredores, mas, como fora escolhido (divinamente) para a missão, era o único capaz de guiar a marcha final dos pobres em direção do paraíso.

O que provocou uma tentação inabalável: não se considerar resultado de um processo histórico, muito menos a sua chegada ao poder político máximo do país como concretização, decorrência natural de uma luta política e social coletiva de duas décadas. (…)

O redivivo Antônio Conselheiro acabaria enredado por um ardil alheio a sua vontade: o povo brasileiro e os militantes do PT passam a ser seus filhos, filhos que o veneram como pai.

Imprensa sob ataque – 2

Em meu artigo semanal para o jornal o Estado abordei a questão o cerco que governos latino americanos tem feito à liberdade de imprensa (ver post anterior). Um dia depois o jornal O Globo publicou matéria que confirma meu alerta. Transcrevo trechos abaixo e depois volto a comentar:

PT defende controle público e sanções à imprensa

Um texto aprovado pelo diretório nacional do PT defende o controle público dos meios de comunicação e a criação de mecanismos de sanção à imprensa. No documento, intitulado “Resolução Sobre a Estratégia Petista na Confecom (Conferência Nacional de Comunicação)”, o PT também defende mudanças no atual modelo de outorga de concessões no setor de comunicação que, segundo o partido, é anacrônico, autoritário e “privilegia grupos comerciais em detrimento dos interesses da população”.

Perguntado se as propostas ferem princípios universais de liberdade de imprensa e expressão, o secretário nacional de Comunicação do PT, Gleber Naime, respondeu:

 - Esta proposta é para garantir a liberdade de imprensa e não a das empresas.

Para o especialista em comunicação Carlos Alberto Di Franco, da Universidade de Navarra, as propostas do PT preocupam pois podem esconder objetivos de controle ideológico como os que foram aplicados em outros países latinoamericanos, como Venezuela e Argentina.

O documento representa uma opinião isolada de um doidivanas? Não. É meta partidária. O chefão Lula tem atacado a imprensa nos últimos meses, sempre com lições para jornalistas e insinuações sobre a necessidade de mudanças. São críticas incompatíveis com o papel de um chefe de estado, e que visam o constrangimento da liberdade de expressão. Lula já disse que “a imprensa não deve fiscalizar, apenas informar”.

O braço sindical do projeto petista também atua para mitigar o jornalismo independente, ou pelo menos, plural. Matérias de fiscalização são tomadas por golpe ou “denuncismo”. O fim da exigência do diploma, não obstante uma criação da ditadura brasileira, é vendida como agressão ao jornalismo.

No site do Sindicato dos Jornalistas no Estado do Ceará (Sindjorce), por exemplo, dois destaques demonstram o grau de adesão do aparelho representativo da categoria aos interesses do PT. Um apelo solidário ao terrorista italiano Cesare Battisti e um vídeo com uma entrevista com o ministro da Previdência José Pimentel, candidato ao Senado em campanha aberta.

O pior de tudo é ver que muitos que acreditam, ou pelo menos dizem acreditar, que as empresas de comunicação são perniciosas, trabalham nas mesmas sem nenhum problema de consciência. Se tivessem firmeza de caráter e convicção, não aceitariam fazer parte daquilo que rejeitam conceitualmente. Eu, por exemplo, jamais trabalharia em um jornal de propriedade, sei lá, de José Pimentel ou de José Guimarães, por incompatibilidade de visão de mundo. Mas eles sempre têm uma boa justificativa para a dubiedade oportunista.

A imprensa sob ataque

Artigo publicado no jornal O Estado

A organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF) divulgou ranking indicando que houve um retrocesso da liberdade de imprensa na América Latina. A entidade leva em conta episódios de violência contra jornalistas e órgãos de imprensa.

Entre os 175 países analisados, o Brasil ficou num sofrível 71º lugar. Os que apresentaram maior queda foram Venezuela (124º), Bolívia (95º), Nicarágua (76º) e Equador (84º), todos sob influência de Hugo Chávez.

Na Argentina (47º), o grupo Clarín tem sido alvo de constrangimentos impostos pelo casal Cristina e Néstor Kirchner. Leis feitas para restringir a atuação da imprensa foram aprovadas e operações fiscais buscam intimidar eventuais críticas ao governo argentino.

Em Cuba (170º), a blogueira Yoani Sánchez foi espancada por agentes de repressão da ditadura Castro. Sobre esse episódio, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado brasileiro aprovou, no último dia 11, voto de repúdio ao governo cubano, com posição contrária apenas de Inácio Arruda (PC do B). O senador cearense afirmou que prefere esperar pelas explicações da embaixada cubana. Eis a ética comunista.

Por afinidade ideológica, Arruda lança suspeita sobre a vítima de um regime totalitário, como se não soubesse que ela é proibida de deixar o próprio país, mesmo sem ter cometido crime algum. Somente essa condição de prisioneira por delito de opinião bastaria para que qualquer pessoa decente subscrevesse a nota de repúdio contra Cuba. Mas para um comunista, a decência não passa de um capricho pequeno-burguês e a liberdade de discordar é algo realmente detestável. Raúl Castro fuzilou pessoalmente vários cidadãos que ousaram questionar o irmão Fidel, comprovando o que digo.

No Brasil, curiosamente, essa situação não desperta o interesse de muitos dos que se dizem defensores da liberdade de imprensa. Uma rápida olhada nas páginas de suas entidades de representação basta para ver que eles estão ocupados em lamentar o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, exigência criada pela ditadura militar justamente para controlar a atividade jornalística.

É nesse clima de ataque à liberdade de expressão que o presidente Lula declarou, em recente entrevista, que “o papel da imprensa não é fiscalizar, é informar”. Mas para sindicatos e professores universitários, criminoso mesmo foi o fim da reserva de mercado para jornalistas com diploma.

Jornalismo Ctrl C, Crtl V

Duas notícias postadas no Blog do Eliomar. Em seguida comento.

12.10 – Tasso entre os que mais gastaram verba indenizatória com divulgação e consultoria:
“Levantamento da ONG Transparência Brasil revela que 18 dos 81 senadores usaram mais da metade da verba indenizatória, desde o início do ano, para pagar despesas com divulgação de seus mandatos ou com com a contratação de consultorias. Segundo o levantamento, quatro senadores usaram todo o dinheiro para divulgar os mandatos ou para contratar consultorias: o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Gim Argello (PTB-DF) e Roberto Cavalcanti (PRB-PB). (…) Na avaliação da ONG, as despesas com divulgação do mandato não podem ser pagas com a verba indenizatória porque o Senado já possui canais de comunicação com o público, como a TV Senado, a Rádio Senado, a Agência Senado e o site, onde cada senador tem espaço para hospedagem de sítio pessoal.”

13.10 – Estrelas do Senado correm risco de não se reeleger. Na lista, Tasso Jereissati:
“Como se não bastasse a crise que desmoralizou o Senado neste ano, as eleições de 2010 ameaçam tirar o brilho de antigas estrelas da política nacional, que enfrentam dificuldade para se reeleger. Os obstáculos atingem em cheio senadores de todos os partidos que estão sendo obrigados a fazer arranjos políticos para garantir, ao mesmo tempo, sua sobrevivência e a eleição nos Estados.

Na oposição, há casos emblemáticos como os dos senadores tucanos Sérgio Guerra (PE), atual presidente do PSDB, e Tasso Jereissati (CE), ex-presidente da sigla, que correm o risco de não voltar ao Senado. (…)”.

Wanfil
Isenção e medo
Na faculdade de jornalismo a primeira regra ensinada é a da imparcialidade na apuração dos fatos, mas sempre com a ressalva de que a isenção completa é impossível. Trata-se, portanto, de um ideal a ser constantemente buscado, ainda que inalcançável. Na prática, cada jornalista e alguns veículos precisam orientar suas matérias a partir de valores, digamos, subjetivos. E a subjetividade, evidentemente, é palco para as discordâncias. Dessa forma, a atividade jornalística precisa encontrar um equilíbrio entre o fato e a interpretação (ou a forma de narrá-lo, pois a simples escolha de uma palavra pode inferir escolhas). E sendo tudo tão impreciso, a estratégia de quem se sente atingido ou contrariado por alguma matéria bem feita, que obedece aos critérios técnicos de uma boa reportagem, é rotular profissionais e empresas, de forma a desqualificá-los.

Ocorre que isso deixa alguns jornalistas receosos, especialmente em mercados reduzidos. Ser tachado de radical, tucano, petista, isso ou aquilo, pode fechar portas. Tacitamente, a convenção mais usada para tentar evitar a impressão de que haja alguma parcialidade em seu trabalho, é a de criar uma espécie de “placar” de igualdade nas notícias, boas ou ruins, sobre adversários políticos. Se um personagem é criticado, por exemplo, deve-se em seguida buscar ser crítico om o seu adversário. O problema é que nem sempre os fatos, as realizações, ou as denúncias contra ésses personagens se dão de forma simétrica. Aí, muitas vezes, para compensar, o jornalista acaba forçando a barra, igualando fatos distintos para causar um efeito, operando uma forma de deturpação. Assim foi que o caixa 2 de Eduardo Azeredo se transformou no “mensalão mineiro”, quando o mensalão original nunca foi caixa 2, mas compra sistemática de parlamentares. A ideia era evitar as rotulações partidárias. Isso é bom? Nem sempre, pois mais confunde que explica, como no exemplo acima.

Copiar, colar
Vejam o caso do Blog do Eliomar. A rigor, as matérias destacadas, envolvendo o senador Tasso Jereissati, não se sustentam. Mas a ideia é passar a mensagem – para a patrulha – de que ali existe aquela isenção idealizada. Se irregularidades dos adversários dos tucanos são noticiadas, como as denúncias do TCU sobre superfaturamento no Hospital da Mulher, a lógica é que também as dele sejam expostas. E os fatos? Eliomar de Lima, experiente jornalista, provavelmente se considera livre de conferir a veracidade do que vai publicado no site da Transparência Brasil ou no Estadão. A responsabilidade, imagina, é deles. Pode ser. Mas aí vem aquele papo de subjetividade. Por que escolher matérias que não repercutiram no restante da mídia? Por que dar importância a “denúncias” ou “análises” que ninguém mais deu crédito? Será que o jornalista que reproduz uma matéria, ainda que registre a origem e dê os devidos créditos, não a subscreve?

Apurar ou não?
Quer dizer que o Eliomar não pode criticar o  Tasso? Claro que pode! Se não quiser dar opinião, pode reproduzir a dos outros, claro. Especialmente em um blog. Mas aí serve qualquer notícia? Acho que não. O senador recentemente se posicionou contra a entrada da Venezuela no Mercosul. Eis um assunto que pode gerar inúmeros conflitos de ordem ideológica, legal, política, geopolítica etc. Mas os casos acima reproduzidos são pueris. Onde está a irregularidade no gasto de verba indenizatória na divulgação de atividades? Que lei foi infringida? A assessoria do senador foi procurada? Alguém pelo menos leu o Regimento do Senado? Além do mais, é gasto previsto, limitado e registrado. A Câmara de Fortaleza e a Assembleia Legislativa possuem televisão, rádio e site, e nem por isso nem Eliomar, nem ninguém mais vê problema quando parlamentares e essas instituições publicam anúncios nos jornais locais. Sem contar que são gastos bem mais difíceis de controlar.

Qual indício sustenta a tese de que Tasso pode não se reeleger? Alguma pesquisa? Algum levantamento? Não, nada. Apenas a opinião da repórter do Estadão, Eugênia Lopes, quem nem articulista é. Mas essa técnica de copiar e colar para causar impressão de isenção deve deixar alguns satisfeitos. Posso até ver José Pimentel, o ministro que faz campanha antecipada aberta para o Senado, dizendo satisfeito: “Isso é que é imparcialidade!”. 

Lula no Ceará: filme repetido

Artigo publicado no jornal O Estado

Filme repetido

Filme velho e repetido

Escrevo este artigo um dia antes da visita do presidente Lula ao Ceará, prevista para esta quinta-feira (10). No entanto, não é preciso possuir dons premonitórios para saber o que vai ser dito nos palanques festivos. Basta observar com atenção os acontecimentos das passagens anteriores do presidente para perceber que existe um método de autopromoção pessoal e enganação para celebrar a figura de Lula.

Em julho de 2007 o presidente veio a Fortaleza lançar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na ocasião ele que gostaria de voltar “logo, logo” (prazo indefinido) “inauguração dessa tal siderúrgica que deixou tanta gente nervosa”.

No mundo real, a piada não tem graça. Segundo levantamento do site Contas Abertas, com dados atualizados até abril de 2009, dos 815 empreendimentos carimbados com a sigla PAC no Ceará, apenas 60 haviam sido concluídos – boa parte deles investimentos privados. E olha que o programa em aceleração. Quanto a siderúrgica…

Esse é apenas um exemplo entre tantos. A prometida refinaria também não está nem mesmo perto de ser uma realidade para o cearense. O padrão das visitas de Lula é baseado no alarde de factóides que mudam conforme o período. Uma hora é biocombustível à base de óleo de mamona, outra é um investimento de 90 bilhões de reais (os números nunca são modestos), depois o PAC da Copa, o PAC do Saneamento, o PAC da Juventude, a auto-suficiência de petróleo, a refinaria de novo e por aí vai.

Na visita desta quinta o factóide é o pré-sal, que fará do Brasil uma potência etc. e tal. A mesma conversa do etanol. No dia seguinte, os jornais noticiarão novas promessas de investimentos bilionários. De concreto, apenas nos resta ver o presidente e sua comitiva inaugurando obras de pequeno porte e assinando papéis, sem nada que possa contribuir de forma substancial para o desenvolvimento do Ceará e do Nordeste.

Enquanto o presidente faz campanha para Dilma e para Pimentel em eventos públicos e trabalha para salvar o companheiro José Sarney no Senado, sempre pensando nas equações eleitorais, o Ceará perde espaço para a Bahia e para Pernambuco. Todos sabem.

A visita de Lula é previsível. Consiste na recauchutagem de promessas antigas e na elaboração de outras mais mirabolantes ainda. Nessas ocasiões, observem, os verbos são conjugados quase sempre no futuro do presente. Faremos, será, investiremos, construirão… Não vai ser diferente agora. Tudo com a garantia de manchetes positivas e aplausos de autoridades, algumas delas com ficha corrida nos escândalos nacionais.

Quanto custa uma linha editorial

A coluna Política, do jornal O Povo, comandada pelo jornalista Fábio Campos, é uma referência da crônica política cearense. Envolvido em outros projetos, o titular passou a compartilhar a assinatura da coluna com mais dois colaboradores. Essa opção editorial merece uma reflexão sobre alguns riscos. Falo como leitor assíduo daquele espaço.

Primeiro, a coluna e seu editor, com o tempo, se associaram indelevelmente. Existe ali uma identidade e um estilo bem construídos e devidamente aceitos por seus leitores. Ainda que se discorde que lá é publicado, é preciso reconhecer que suas ideias são colocadas com cuidado e esmero. Mesmo quando somente às segundas o texto era escrito por outra pessoa, mantinha-se mais ou menos o tom da coluna.

Mas ultimamente a linha editorial que fez o sucesso da coluna parece não ter mais a mesma unidade. É claro que os outros jornalistas que divedem o memso espaço tem suas próprias análises, mas quando elas passam a destoar demasidamente do estilo e da essência do titular, fica estranho.

O texto deste domingo (30), assinado por Kamila Fernandes, é um bom exemplo. Transcrevo trecho abaixo e em seguida comento:

Quanto custa uma aliança
Que o Governo Lula depende do PMDB para a sua “governabilidade”, ninguém duvida. (…) A situação é explicável pela seguinte lógica: se a disputa ao Senado ganhar um terceiro candidato forte, além de Tasso e Eunício, como defende a futura presidente do Diretório Estadual do PT, a prefeita Luizianne Lins, que já repetiu que quer o ministro José Pimentel no páreo, o embate ficará bem mais acirrado, já que um dos três ficará sem mandato no final. (…) Afinal, o que se quer, eleger um aliado específico a todo custo ou fortalecer a base governista – para, aí sim, garantir a tal da “governabilidade” sem precisar passar por constrangimentos como os vistos no caso Sarney e no Mensalão (na hipótese de Dilma Rousseff se eleger)?

Vamos entender a lógica do que foi exposto por uma analista política profissional que passou a ocupar um valioso espaço. De cara, para ela, o mensalão e a indecência do apoio a Sarney foram meros “constrangimentos” impostos ao petismo por conta da governabilidade. O PT mesmo nem queria, mas se viu obrigado…

Em seguida, de forma explícita, é sugerido o  reforço da base governista no Senado para que o Planalto não necessite dos serviços de parlamentares inescrupulosos. Fica claro então, que a solução, no Ceará, é o governo Cid pensar na governabilidade do PT e apoiar as candidaturas de Eunício e de Pimentel. Mas, o que Cid ganharia com isso? Ela não diz, pois sua argumentação se baseia no ponto de vista de apenas uma das partes.

Resumindo: para evitar constrangimentos, a solução, segundo a analista, é riscar do mapa o único desses políticos que critica abertamente o mensalão e a presidência de Sarney no Senado, que é o senador Tasso Jereissati. Dessa simpática equação, podemos concluir que os problemas éticos do governo Lula são causados pela… oposição. Quanto menor e mais fraca ela for, mas virtuoso será o governo petista. Quem sabe, para que o governo não tivesse mais problemas com a governabilidade, a oposição devesse aderir (!?). José Dirceu iria às lágrimas.

A hipótese de Lula romper com Sarney e apoiar outro candidato no Maranhão não existe.

A possibilidade de que picaretas que haviam perdido poder nos últimos anos tenham voltado a se fortalecer porque o governo Lula patrocina o descrédito institucional do parlamento também não existe.

A sugestão de que o mensalão foi uma ação deliberada e calculada justamente para fortalecer picaretas, essa nem passa no horizonte.

José Pimentel, com certeza, concorda com a coluna deste domingo. E Fábio Campos? Endossaria ele o texto de Kamila Fernandes?

Meia notícia pode render um mentira inteira

O site Congresso em Foco publicou na sengunda-feira (27) a seguinte matéria: Sarney foi o mais faltoso do primeiro semestre. Otexto falava sobre a assiduidade dos parlamentares no Senado, contabilizando anotações de presença, faltas e ausências em plenário. As informações foram tabuladas nessa tabela.

Um dia depois, o jornal O Povo abordou o tema na matéria Faltas dos cearenses, para relatar o desempenho dos três senadores que representam o Ceará.  Curiosamente o jornal mostrou apenas parte das informações disponíveis, deixando de lado outras essenciais para a correta compreensão do público. No final, O Povo mostra o seguinte resumo:

O percentual desconsidera os períodos de licença ou viagem em missão oficial
TASSO JEREISSATI. 3 sessões; 5,5% de faltas
PATRÍCIA SABOYA. 1 sessão; 2,5% de faltas
INÁCIO ARRUDA. 1 sessão; 2% de faltas

“Esquecimento”
Engraçado que O Povo utilizou as faltas mas não mostrou as ausências (que é a soma de faltas e licenças), como fez Congresso em Foco. Nesse segundo ponto, Patrícia Saboya (PDT), apesar de ter apenas uma falta, contabiliza 21 ausências (35% do total).  O senador Inácio Arruda (PCdoB), tem 12 ausências (20% do total). Já Tasso Jereissati, apontado como o “menos assíduo” pelo O Povo, tem apenas 8 ausências (13,3% do total) resgistradas nas sessões de trabalho.

Ou seja, dado o critério de presença física no Senado, dos três senadores, o tucano é o mais assíduo. Deve ter sido um esquecimento na hora de compilar o material.

Candidata Dilma, falar em herança maldita no segundo mandato é confissão de incompetência!

Dia corrido, muito trabalho e notícias isentas repletas de conveniências. Segue em vermelho uma dessas, seguida de breve comentário meu. Mas antes, vale lembrar que o jornalista norte-americano Gay Talese, 77 anos, referência na área e sem diploma (ui), reclama de que os novos jornalistas confiam demasiadamente nas autoridades. Concordo. Vejam o caso abaixo. Uma ministra fala o que dá na telha, sem compromisso algum com os fatos, sem comprovar as acusações que faz, mesmo que a realidade se imponha contra o discurso. Confira:

Agência Estado – Dilma: PAC demorou porque governo não herdou projetos -  A ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, reafirmou hoje que o governo Lula não herdou projetos do antecessor e “teve que trocar a roda do carro com ele andando”. Dilma disse que o governo dedicou o ano de 2007 para “produzir papel”, numa referência à elaboração de projetos para as obras de infraestrutura previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Wanfil
Como candidata em campanha, Dilma Rousseff continua uma grande assaltante de bancos (é amigos, ela fazia isso na juventude, mas era, como se diz em certos círculos, pela “causa”). Poucas vezes pude ver um discurso tão frágil, carente de uma estrutura argumentativa sólida. As contradições da fala de Dilma correspondem, no campo da retórica, ao buracos nas ruas da administração Luizianne Lins em Fortaleza. Se a eleição da ex-guerrilheira depender de sua eloquência, haja marqueteiro. Vamos ao ponto.

Se a DEMORA do PAC é culpa dos governos anteriores, que não deixaram projetos para o atual governo, é lícito concluir que aquilo que não demora e que dá certo é mérito também do governo passado, que, seguindo o critério de análise de Dilma, deve ter deixado os projetos prontos. De certa forma, vendo o que deu mais ou menos certo neste governo – a política econômica – não deixa de ser uma verdade, ainda que não fosse essa a intenção da ministra.

Quando alega que a falta de projetos do governo passado é a causa da demora do PAC, Dilma contrata um duplo problema: 1) o governo passado do atual governo é o próprio governo Lula, que foi reeleito. Como o PAC foi lançado em 2007 e Lula assumiu em 2003, foram CINCO anos para que projetos fossem elaborados. Dilma, assim, confessa a incompetência de seu próprio padrinho; 2) a fala mostra o que será o discurso do petismo pós-Lula no poder: deixamos projetos para o sucessor! Como se isso fosse um grande feito.

Ah! Engolir essa cascata de falta de projetos é subserviência grossa. Sim, Dilma afirma que o governo não herdou projetos, enquanto percorre o país se gabando da Transnordestina, do Porto do Pecém e do Metrofor. Como se fossem criações, sei lá, do PAC. O jornalismo que não se rende a agenda da candidata é tomado por golpista. Bom jornalismo, aquele devidamente praticado por diplomados, não deve misturar as coisas e começar a fazer perguntas embaraçosas.

Dado que o padrão Lula de – digamos assim – manifestação intelectual é o que é, pensando bem, tanto faz as besteiras que Dilma diz. Como bem alerta o jornalista Themístocles de Castro, quem distribui dinheiro jamais será impopular ou perderá eleição. É isso o que Dilma vai prometer continuar. Que se danem os projetos.

STF derruba obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Mais um anacronismo é descartado na lata de lixo da história

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu ontem, quarta-feira (17), derrubar a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Tenho amigos e colegas honestos, alguns profissionais de primeira linha com formação em jornalismo, que eram contrários ao fim da exigência do diploma. Gente séria, cuja opinião eu respeito, mas da qual discordo.

Por isso não posso deixar de observar que na hora de apresentar as justificativas de suas posições, a maioria, na verdade todos, apelava a reducionismos apregoados por lideranças sindicais, como a preservação da ética, por exemplo. Ora, até parece que a ética pode ser objeto conquistado somente com o concurso da formalidade acadêmica, como se fosse uma exclusividade da área. Basta lembrar que hoje, todo e qualquer jornalista antiético se formou em alguma faculdade de jornalismo, o que invalida a tese de princípio causal que sugere o ensino universitário é provedor único e infalível da ética.

A defesa da obrigatoriedade sempre careceu de argumentação sólida, como ficou evidenciado no placar do STF: oito a um. Na verdade, certa resistência era mais uma adesão automática ao corporativismo, uma espécie de solidariedade e tributo ao espírito de grupo. Quando não, era fruto do medo do patrulhamento: “Você é contra o diploma? Contra o jornalismo ético?”, perguntavam os inquisidores com ar de espanto. Intimidados, muitos aceitavam a impostura e diziam que não. Outros deixavam claro que lamentavam ter passado anos na faculdade para depois perder essa exclusividade duramente conquistada. Na verdade, sempre achei esse o argumento mais sincero, posto que admite o interesse pessoal.

Os mais obtusos – esses não são meus amigos – tratavam a questão como uma emulação da luta de classes. O velho papo de patrões contra empregados, dos bons contra os maus etc. Coisa de museu.

O fato ´´e que ninguém diz como combinar o direito à livre expressão com a limitação do exercício do jornalismo. Muitos apelavam para outro reducionismo: a técnica. Ora, a base do jornalismo é saber escrever e possuir um bom conteúdo de conhecimentos gerais. Além de percepção aguçada e talento. Jornalismo não é ciência!

A reserva de mercado, que na ditadura serviu de instrumento de controle para o governo e que na democracia serviu de instrumento de controle para movimentos políticos de esquerda (sim, eles dominam os cursos universitários de jornalismo. Desafio alguém a me apresentar uma cadeira, de qualquer faculdade de jornalismo, cuja bibliografia básica não seja basicamente composta de autores de esquerda, especialmente a tal Escola de Frankfurt). Trata-se, a obrigatoriedade do diploma, de um anacronismo que impedia o direito a liberdade PLENA de expressão. Essa história que profissionais de outras áreas podem colaborar é uma limitação a esse direito. Ou a Constituição garante a integralidade da liberdade de expressão, ou não vivemos mais numa democracia.

No mais, vale lembrar que a internet é o veículo que pulverizou o conceito de reserva de mercado para a produção de notícias. Como controlar isso? Blogs de não jornalistas estariam proibidos de produzir e divulgar notícias? Repito: vivíamos um anacronismo. Doravante, o diploma continua valendo como indicador de formação profissional, o que pode ser uma vantagem na hora de disputar uma vaga de emprego. Mas o que vai contar mesmo é a competência.

Não sou contra o diploma de jornalismo – nem a favor

Atualização – 12.06.09 – O Supremo Tribunal Federal (STF) remarcou o novo julgamento para o próximo dia 17 de junho. Informação do blog Liberdade Digital

O STF julga hoje o recurso contra a obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercício da profissão. Essa é uma daquelas discussões capazes de mobilizar aquele pessoal que tem tempo para fazer passeata, preocupado apenas com o bem geral da sociedade. É a turma que sempre age em nome da coletividade, embora não tenha sido eleita para isso. Os mais modestos garantem que defendem a “categoria”, como se profissionais de uma categoria pudessem escolher entre mais de um sindicato.

O fato é que sou estudante de jornalismo e não acredito na obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Por incrível que pareça, dizer isso choca alguns puros que defendem a pluralidade de ideias desde que se concorde com eles. Afirmar isso em público corresponde ao risco de ser apontado pela patrulha sindicalista como alguém CONTRA O DIPLOMA, que deseja sabotar a imprensa e outras bobagens. É a clássica deturpação que visa fugir ao cerne do debate. A rigor, não sou contra o diploma. Nem a favor. Quem quiser cursar uma faculdade de jornalismo, como eu, que o faça e obtenha o diploma. Mas isso não me faz acreditar que pessoas de outras áreas não possam fazer jornalismo.

Os defensores da obrigatoriedade não se conformam, via de regra e com exceções ingênuas, é com a possibilidade de perderem o monopólio da formação acadêmica, etapa crucial para influenciar o estudante para que ele seja um jornalista “consciente”, ou seja, devidamente doutrinado naquele palavreado politicamente correto que serve ao discurso fast-food da esquerda brasileira. Lá o jovem jornalista aprenderá a fazer “jornalismo comunitário”, a importância da “democracia participativa”, além de ser treinado a repetir automaticamente, sempre que desejar parecer profundo, que a mídia existe para atender os interesses das classes dominantes e exploradoras etc e tal.

No mais, jornalismo não é uma ciência e ponto. É um meio, uma técnica basilar. Depende mais do instinto do que de um manual. Dizer que existem requisitos científicos que apenas a Academia pode oferecer a um repórter é puro mito. Peça a um bom aluno de segundo grau para entrevistar um professor que ele fará a entrevista. Pode ser boa ou ruim, mas fará. Mas peça para que ele opere um professor com crise de apendicite para ver o que acontece. Quem trabalha em redação sabe. Seis meses no batente ensinam muito mais que um curso de jornalismo. Se eu tivesse um jornal, e a obrigatoriedade caísse, daria preferência a estudantes de letras…

O texto já ficou longo. Quero apenas lembrar que reserva de mercado não faz bons profissionais em certas áreas. E o jornalismo é uma delas. Basta ver o que acontece na internet. E o mais curioso é que tem blogueiro que acha que só pode escrever notícia  quem tiver um diploma.

Para ler mais, ver o post: Diploma de jornalismo é criação da ditadura

A razão entre relâmpagos e trovões

Reproduzo abaixo texto do jornalista Fábio Campos, publicado na coluna Política, na edição desta quinta-feira do jornal O Povo. Em seguida comento:

Luizianne entre relâmpagos e trovões
Na coletiva de ontem, convocada para tratar dos projetos da Copa de 2014, a prefeita Luizianne Lins (PT), ao lado do governador Cid Gomes (PSB), abriu sua exposição chamando a atenção para a situação de Fortaleza castigada por um período de chuvas sem precedência em anos recentes. Primeiro, os buracos. (…) Outro ponto levantado pela prefeita é até mais relevante: as chuvas fortes, e em uma sequência que não estamos acostumados, não provocaram mortes em Fortaleza. Ao contrário de invernos de outros e recentes tempos, não ocorreram grandes enchentes. Nenhum bairro foi inundado a ponto de desabrigar e matar cidadãos. O último grande inverno de Fortaleza, muito menos rigoroso que o de hoje, matou seis pessoas, por que a tragédia não se deu agora? Sorte? Vontade divina? Nada disso. Prevenção é a resposta. Uma das primeiras medidas adotadas pela petista logo após sentar na cadeira de prefeita foi criar uma Defesa Civil municipal e uma estrutura específica para monitorar e se antecipar aos problemas causados pelas chuvas. Noutros tempos, o aguaceiro teria causado mortes. (…)

Wanfil
Não costumo abordar considerações de formadores de opinião. Mas nesse caso, como considero Fábio Campos um dos melhores comentaristas políticos da imprensa cearense, resolvi comentar sua coluna de hoje. No fundo, de uns tempos pra cá, venho sentindo falta do Fábio Campos mais, digamos assim, instigante. Vamos ao que interessa.

Ao dizer que na capital cearense não foram registradas mortes decorrentes das chuvas deste ano de 2009, Campos lembra, para fazer o contraste, que no “último grande inverno de Fortaleza” (não diz o ano) morreram seis pessoas. Dadas essas premissas, sua conclusão é a de que hoje, ao contrário de ontem, houve um trabalho preventivo e técnico capaz de evitar o pior. Ou seja, a ação do poder público, mais especificamente do gestor municipal, salvou vidas agora. Que ações foram essas? Campos relaciona a criação de uma Defesa Civil municipal e de uma “estrutura específica para monitorar e se antecipar aos problemas causados pelas chuvas”. Mas o que é isso? Não sei e a coluna não revela detalhes. Do jeito que está, parece um discurso.

O problema é que para a analogia não parecer forçada, é preciso também concluir como verdadeiro a base do raciocínio que a sustenta. Se algo é claro, o seu oposto é escuro. Se pessoas não morrem com chuvas intensas por causa da previdência do poder público, é justo aceitar que se elas morrem nessas circunstância, a responsabilidade é do poder público que não foi previdente o suficiente ou mesmo omisso.

Acontece que segundo a Secretaria Nacional de Defesa Civil os recentes temporais provocaram 18 mortes no Ceará. Se a lógica utilizada por Campos serviu para enaltecer a prefeita, obrigatoriamente ela não só deprecia, mas criminaliza os poderes públicos municipais das cidades onde essas mortes aconteceram e também o governo estadual, na figura do governador Cid Gomes.

Bom, aí a coisa complica. Em todo o Brasil foram 64 mortes em dez estados causadas pelas chuvas. Considerando que existe uma Defesa Civil nacional, a responsabilidade por essas mortes deve ser estendida aos demais governadores desses estados e ao próprio presidente Lula. Ou, resgatando a indagação de Fábio Campos, alguém acredita que essas pessoas morreram por azar ou vontade divina?

Se tais conclusões parecem absurdas, é preciso aceitar que o seu contrário também é, por princípio, igualmente inverossímel.

Se você escreve assim, você é um pouco PT

Amigos, esse texto ficou um pouco mais longo, mas vale ser lido. É uma amostra com fatos reais de como agem os propagandistas governistas na hora de difamar a imprensa. Abraço, Wanderley.

Recebi de uma grande amiga um e-mail com um texto do jornalista Leandro Fortes, da revista Carta Capital, e que tem um blog chamado Brasília, eu vi. Normalmente eu não teria lido nada da Carta Capital, a revista que nove de cada dez professores indica como exemplo de jornalismo isento. É a mesma publicação que dá descontos de 50% para assinantes que sejam filiados do PT (clique aqui e confira).

Mino Carta, dono de Carta Capital, em flagrante de isenção jornalística

Aí está Mino Carta, dono da Carta Capital, patrão de Leandro Fortes, em flagrante de isenção jornalística

A revista é uma espécie de central para abastecer de argumentos a  militância esquerdista. Funciona mais ou menos assim: o núcleo pensante do partido, formado por intelectuais e políticos graduados, analisa o problema e emite versões sobre o ocorrido. Em caso de ataque a adversários, são comuns discursos de difamação, boatos, teorias conspiratórias e mentiras que, associadas a fatos reais de conhecimento público, ganham verossimilhança. Em caso de defesa, quando pegos com as calças na mão, a preferência é por discursos de desinformação, contrainformação, teorias conspiratórias, além da tradicional ativação de chavões anteriormente disseminados nas escolas e universidades.

No terceiro momento, cabe ao exército de formadores de opinião – que orbitam os centros de produção retórica – espalhar as peças de ataque ou defesa que lhes foram repassadas.  Leandro Fortes está nessa posição. Portanto, exercendo o seu papel de agente de influência, o citado jornalista escreveu o post que me foi enviado. Ele faz o estilo agressivo, talvez na intenção de intimidar e de mostrar que suas opiniões são verdades nascidas da indignação, repletas de adjetivos degradantes. Transcrevo abaixo alguns trechos e depois comento.

Petrobrax para iniciantes
Eu estava mesmo querendo falar sobre essa incrível cruzada ao fundo do poço que a oposição, PSDB à frente, decidiu empreender contra a Petrobras, justo no momento em que a empresa se posiciona como uma das grandes do planeta. Sim, a inveja é uma merda, todo mundo sabe disso, mas mesmo a mais suntuosa das privadas tem um limite de retenção. 

Como não se faz CPI no Brasil sem um acordo prévio com publishers e redações, fiquei quieto, aqui no meu canto, com meus olhos de professor a esperar por um bom exemplo para estudo de caso (…) Pois bem, esse dia chegou.
(…)

Assinante do UOL há cinco anos, é com ele que acordo para o mundo, o que não tem melhorado muito o meu humor matutino, diga-se de passagem. De cara, vejo estampada, em letras garrafo-digitais, a seguinte manchete: Petrobras gastou R$ 47 bi sem licitação em seis anos.   

Wanfil
Fortes lembra em seu texto que a própria matéria da FSP revela que o governo FHC gastou  R$ 25 bilhões com dispensas de licitação na Petrobras entre 2001 e 2002, mas vê nisso um truque, pois a informação, no seu entendimento, deveria ter composto a manchete, fazendo menção ao gasto do governo anterior, como se isso fosse uma obrigação normatizada. Todo enfezado, ele ensina como deveria ter sido a manchete:  Petrobrás gastou R$ 72 bi em contratos sem licitação, em oito anos. No fundo, Fortes deseja provar duas coisas. Primeiro, que todos são iguais quando o assunto diz respeito a qualquer investigação sobre as denúncias contra o petismo, desqualificando assim a acusação; segundo, que a Folha de São Paulo trabalha para tucanos, assim com Carta Capital trabalha para petistas. Daí a chateação com o título da matéria. Para esses fiscais do jornalismo, quando existe alguma suspeita contra o PT, só pode existir isenção se essa suspeita for estendida ao PSDB

Em seguida, Fortes passa pelo vexame de ser contradito em seu próprio blog pelo autor da matéria, Rubens Valente: 

(…) Não faça isso: não elimine, ao informar os internautas, uma parte fundamental da matéria que escrevi. Eu escrevi que a própria atual gestão da Petrobras disse não ser possível nenhuma comparação entre os números das gestões Lula e FHC, já que entre 2001 e 2002 o país viveu um apagão histórico, o que gerou gastos sem licitação muito além do normal. Seria um erro tremendo comparar duas realidades incomparáveis. E a própria atual gestão da Petrobras concorda com isso (em casos de emergência, como um apagão, a lei 8.666 abre espaço para a dispensa da licitação). Essa informação está no meu texto original, mas vc omitiu-a do seu post.

Como sempre acontece com esses valentões que são ferozes apenas quando estão entre amigos, Leandro Fortes, contestado pelo repórter da Folha, deu pra trás e tratou logo de se desculpar dizendo que o problema era a versão online da FSP. De quebra, o , insinuando assim que tucano é o chefe de Valente, e que esse teria sido prejudicado por ela. Mas vejam o texto do jornalista de Carta Capital: ele critica a MANCHETE. E quem a escreveu foi o jornalista da Folha.

Corolário
Por isso é que esquerdista fala grosso em sala de aula e em blogs de amigos, mas amansa quando escreve artigos ou participa de debates. No fundo eles sabem que suas argumentações são peças de propaganda que não resistem a uma investigação analítica mais criteriosa.

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