Todos sabem que na noite de terça-feira (10) um apagão na rede elétrica deixou 18 estados às escuras. No entanto, chegamos ao final da semana sem que o governo federal, que é o responsável pelo sistema, apresente uma única explicação convincente. A conversa de que foi o mau tempo, tocada pelo ministro Edson Lobão, já foi solenemente desmentida pelo INPE.
Temos até agora o seguinte: o governo tenta fingir que não houve apagão. Não colou. E agora tenta mudar de assunto, procurando uma pauta positiva. Ontem o Planalto fez uma grande cerimônia para celebrar a diminuição do desmatamento na Amazônia. No entanto, dada a qualidade dos discursos, é visível que o apagão deixou as autoridades desnorteadas.
No evento, o presidente Lula falou sobre meio ambiente e poluição, em um de seus momentos mais constrangedores desde que tomou posse pela primeira vez. Transcrevo reportagem do jornal O Globo:
O presidente Lula citou até o criador da psicanálise para tentar desvendar os mistérios da natureza. “Eu já disse várias vezes: Freud dizia que tinha algumas coisas que a humanidade não controlaria. Uma delas eram as intempéries”.
Em seguida, o presidente tentou explicar o porquê do clima ser tão imprevisível. “Então, essa questão do clima é delicada por quê? Porque o mundo é redondo. Se o mundo fosse quadrado ou retangular e a gente soubesse que o nosso território está a 14 mil quilômetros de distância dos centros mais poluidores, ótimo, vai ficar só lá. Mas como o mundo gira e a gente também passa lá embaixo onde está mais poluído, a responsabilidade é de todos”.
Que cacetada! Freud, para variar, foi distorcido. A tese de que passamos por baixo da poluição dos outros países quando o planeta gira é a coisa mais estúpida que já ouvi. Mas vá falar que foi burrice! Não faltará que o advirta: isso é preconceito. Então tá.
Exploração política
A base aliada e o núcleo duro do governo correram para desqualificar as críticas da oposição, espalhando que esta quer politizar uma questão técnica para tirar proveito eleitoral. E parte da imprensa já comprou a tese. Ora, a oposição tem mesmo é que denunciar – politicamente – o que acredita ser uma falha de governo. Esse é o seu papel, ora bolas! E qual oposição não quer vencer eleições explorando os erros do governo? O PT fará isso algum dia? Pelo amor de Deus.
O mais revelador em todo esse episódio é a reação da ministra da Casa Civil Dilma Rousseff. Ex-ministra de Minas e Energia, ela sempre procurou vender a imagem de mulher competente. Até falsificou o currículo. Mas o que ele fez de tão especial? A conversa é que tinha resolvido os problemas de insegurança da rede elétrica… Como vimos, o apagão matou essa historinha. Dilma tentou, num primeiro instante, submergir para escapar das críticas (porque sabia que lhe seriam feitas cobranças) e deixar o ministro Lobão arcar com o ônus.
Pegou mal e Dilma voltou para tentar “administrar” a crise. Mas pela postura, demonstrou ser uma candidata difícil de emplacar. Ficou com raiva da imprensa, batendo o pezinho com o dedo em riste: “Não foi apagão, foi blecaute!”. E depois, com arrogância, decretou: “Caso encerrado”. Como assim encerrado? E as causas? E as provas do que aconteceu?
Reação atrapalhada
Para ser sincero, as declarações desencontradas e muitas vezes contraditórias das autoridades me surpreenderam e deixam a impressão de que o próprio governo está assustado por não saber o que houve e por medo de que o sistema volte a cair. Até parece que o governo está sendo assessorado pelo pessoal da Uniban para gerenciar os danos de imagem. A melhor resposta a ser dada no momento não poderia ser outra: “Estamos averiguando o que houve. Por enquanto podemos afirmar que o sistema está estável e sem indicador de que volte a ocorrer outra interrupção. No entanto, envidamos todos os esforços nessa investigação. Vamos destacar a ministra Dilma para chefiar uma equipe de análise para ajudar a esclarecer tudo. A população pode ficar certa de que as respostas serão devidamente dadas assim que possível”. Ou seja. O negócio seria ganhar tempo e mostrar ação.
Mas o governo prefere tentar diminuir a importância do caso, postura que apenas reforça a impressão de incompetência administrativa.