Duas notícias esquentaram os cadernos de política na imprensa. Primeiro a desistência do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, de postular a Presidência da República, deixando o caminho livre para o governador de São Paulo, José Serra ser o candidato do PSDB.
A outra notícia é a nova pesquisa Datafolha mostrando que José Serra permanece numa folgada liderança nas intenções de voto.
O problema é que as análises dos cronistas de jornal sobre os impactos da desistência de Aécio contrastam de tal forma com a realidade detectada pela pesquisa que não resta outra conclusão: esses formadores de opinião cada vez mais se comportam como meros palpiteiros, com graves deficiências teórica em marketing político e na área de lógica elementar. Vejamos.
Caso Aécio
Grosso modo, esses analistas concluíram – basta uma rápida pesquisa para confirmar – que a saída de Aécio da corrida seria prejudicial a Serra e benéfica para Ciro ou Dilma. Por que seria assim? Porque Serra seria obrigado a assumir a condição de candidato e assim teria que polarizar com o próprio Lula. Já Ciro poderia herdar os votos de quem não gosta de paulista. Isso não é análise, é fofoca!
O jornal O Povo deste domingo mostra bem isso. Entre muitos cientistas políticos que existem por aí, o jornal optou por publicar a declaração de um mineiro, lá da terra de Aécio Neves, com estreitas ligações com o petismo: Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais, que afirmou: “Com a renúncia de Aécio, Serra se vê forçado a carregar o estandarte do PSDB na corrida à sucessão do presidente Lula. A disputa volta a ficar polarizada e favorece o cenário plebiscitário que o PT tanto deseja”.
Como assim? Quem o forçará? Serra permanecerá onde está, caladinho. Não vai declarar que é candidato porque não é burro. Vai fazer como Dilma e continuar atuando no Executivo. A estratégia, convenhamos, está dando certo para o governador paulista, como demonstram as pesquisas. Serra vai adiar ao máximo qualquer definição oficial, pois sua intenção não é rivalizar com Lula – que tem alto índice de popularidade e nem candidato é, mas com Dilma, que por sua vez, apesar de todo o esforço do presidente, estacionou nas pesquisas. Por enquanto, uma polarização entre Serra é Dilma é boa para… Serra. Isso é lógica e estratégia. O resto é torcida.
Caso Ciro
Agora outro exemplo, também no O Povo. Esse não é surpresa, mas vale como ilustração dessa condição analítica da nossa imprensa. E logo na boa coluna de Fábio Campos, que na edição de hoje é assinada por Kamila Fernandes. Reproduzo trecho:
Em meio a isso tudo, há uma leitura que indica que o maior favorecido da desistência de Aécio pode ser justamente Ciro, amigo de longa data e forte aliado em Minas. E foi de Ciro a reação mais enfática sobre a atitude do colega mineiro: para ele, Aécio deve estar sofrendo “constrangimento de todo tipo”, para ter tomado tal atitude agora. (…) Porém, o principal beneficiado nessa história pode ser mesmo o presidente Lula, que está conseguindo fechar o cenário “dos sonhos” para sua sucessão, polarizado entre Serra, cuja face remete diretamente ao governo mal-avaliado de FHC, e Dilma Rousseff (PT), sua pupila.
Vamos ver a estrutura desse pensamento. Quer dizer que um PSDB dividido entre duas pré-candidaturas seria algo positivo para o partido, mas que agora, podendo concentrar forças e tempo para trabalhar estratégias de captação de recurso, além de moldar um discurso mais focado em um perfil único, que é o que acontece quando o partido tem um candidato consensual, é péssimo negócio para a sigla. Não sei, não. A lógica que sustenta essas premissas é inusitada: divididos, os tucanos seriam fortes, unidos, seriam fracos… “Mas Aécio pode não ajudar Serra”. Ou não. Isso, por enquanto, é chute. E pela forma como o mineiro saiu da disputa, não me parece que esse seja o caminho.
De resto, Ciro falar em constrangimento é que é constrangedor. Afinal, o deputado mudou de domicílio eleitoral a mando de Lula. O jornalista Reinaldo Azevedo se refere a ele como o “deputado ex-cearense”. Triste.
A pesquisa
Para não dizer que sou implicante, tem a pesquisa do Datafolha. E o que ele revela? Atenção: que se as eleições fossem hoje, no cenário sem Ciro, José Serra Seria eleito no primeiro turno! E mais. Num eventual segundo turno, com Dilma ou com Ciro, o tucano venceria também – ver tabelas com números aqui.
Conclusão
Para o leitor de jornal mais apressado, a semana se deu assim: Aécio desistiu e isso prejudicou Serra e beneficiou Dilma e Ciro. Isso é trabalho de desinformação a serviço da candidatura Dilma. Os números desmentiram os palpiteiros. Alguns podem dizer que a saída de Aécio ainda não pode ser medida pelas pesquisas. Correto. No entanto, os cenários que mostram a vitalidade da candidatura de Serra não contemplavam o nome do mineiro. É claro que esses índices irão mudar, mas não como efeito da saída de Aécio. Será mais pela força da máquina de propaganda montada pelo Planalto para tentar fortalecer Dilma. A grande surpresa mesmo, até o momento, é que isso está demorando para acontecer.