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O desafio de Dilma é sair da sombra de Lula

Dilma e Serra: qual imagem prevalecerá?

Dilma e Serra: qual imagem prevalecerá?

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) afirmou nesta segunda-feira que “Dilma não é líder, é reflexo de um líder”. A estocada foi uma espécie de prévia da estratégia de desconstrução de imagem a ser utilizada pela oposição na campanha eleitoral deste ano. Se por um lado o governo quer a polarização plebiscitária simbolizada na eterna disputa entre Lula e FHC, por outro a oposição tentará focar nas figuras de Dilma e Serra. Um quer olhar para o passado, o outro para o presente.

A intenção dos adversários da candidata oficial é clara: mostrar que Dilma não possui qualidades para o cargo de presidente da República. Faltaria à ministra,  mais especificamente, a experiência e a liderança necessárias para o desafio, e menos explicitamente (para não torná-la vítima), a competência, materializada na lentidão do PAC.

Convenhamos, dado o currículo de José Serra ou mesmo Aécio Neves, administradores bem avaliados e políticos experientes em disputas eleitorais; e dado a falta de passado político-eleitoral de Dilma, parece ser uma estratégia adequada – o que não significa garantia de vitória. Levará a melhor quem conseguir infundir no eleitor a perspectiva que lhe interessar: o governo deseja vender a ideia de que Dilma é a certeza de continuidade; a oposição procura o inverso: demonstrar que ela é uma incógnita.

Nesse sentido, a ministra deve mostrar que é mais do que a escolhida de Lula, de modo que a imagem do presidente não a ofusque e faça de seu trunfo, uma maldição. A provocação de FHC pretende reforçar justamente essa condição subalterna da imagem de Dilma.

Lula confessa ao Financial Times que manteve política fiscal e monetária de FHC. Mas esqueceu de citar FHC…

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu entrevista ao jornal britânico Financial Times, publicada nesta segunda-feira. Alguns trechos podem ser lidos em português na página da BBC-Brasil, dos quais transcrevo três passagens. Entre cada uma, segue o meu comentário na cor azul.

O jornal perguntou ao presidente sobre a interferência do Estado na economia, citando a criação da nova empresa para cuidar das reservas pré-sal e a pressão do governo sobre a Vale para que produza aço no Brasil, ao que Lula respondeu: “duvido que em algum momento da história o setor privado tenha tido tanto respeito do Estado como tem hoje, ou tenha ganhado tanto dinheiro”. “O que peço à Vale é que transforme o minério de ferro em aço no Brasil, e que eles comprem navios de estaleiros brasileiros.” (…) “Sou contra o Estado ser o gerente da economia”.

Trata-se de uma convicção? Como veremos abaixo, Lula não é homem de convicções, mas de oportunidades. As críticas à Vale visam mesmo é reeditar as críticas às privatizações, como se alguma das empresas privatizadas tivesse piorado de desempenho ou não gerasse muitos empregos e dividendos públicos na forma de impostos ao governo. Lula tentou derrubar o presidente da companhia, Roger Agnelli, e colocar em seu lugar alguém mais afeito aos interesses do petismo, no caso, o empresário Eike Batista, sob o pretexto de defender a indústria nacional. O plano fracassou justamente porque o mercado entendeu a manobra como uma interferência indevida.

Lula é contra o Estado ser o gerente da economia? Então por que as críticas à privatização do setor de minérios? Então por que a defesa de monopólios estatais? Essa conversa é para posar de social democrata moderninho. A frase caberia perfeitamente na boca de José Serra ou de FHC, queridinhos do partido Trabalhista inglês.

Sobre a afirmação de que nunca o setor privado ganhou tanto, resta concordar que é mesmo verdade. Mas isso não é obra do governo, como sugere Lula. Ganham porque merecem, porque investem para competir. E porque - claro – não são geridas por burocratas ou companheiros de partido. Na verdade, e isso será confirmado mais abaixo, o mérito do atual governo é justamente ter mantido a política fiscal e monetária do governo anterior, aquela “ditada” pelo FMI.

“O Estado tem que ser forte – mas como um catalisador do desenvolvimento. E temos mantido sólidas políticas fiscal e monetária. Foi por isso que o setor bancário não quebrou durante a crise no Brasil.”

Suspeito que a correção na concordância do plural seja obra do editor, mas tudo bem. O que importa é o conteúdo. Na prática, e como Lula sabe que não pode, no exterior, dizer que é o marco inaugural da política econômica brasileira, o presidente confessa que “MANTEVE” o que já existia. E foi mesmo por isso que o setor bancário foi menos afetado no Brasil: estimulado por essas políticas fiscal e monetária, banco não empresta dinheiro a pobre. Empresta é para o governo conseguir fechar o caixa de despesas correntes sem deixar de pagar os juros da dívida, o famoso superávit fiscal. Já o papo de Estado forte como indutor da economia é outro clichê social democrata.

Entre ser eleito e tomar posse, Lula lembra que escreveu uma carta ao povo brasileiro – que na verdade era direcionada aos investidores estrangeiros – afirmando que iria honrar todos os contratos e evitar uma aventura.

Voltamos ao terreno das convicções de araque. A carta foi redigida depois que a expectativa de vitória de Lula em 2004, já antecipada pelas pesquisas, assustou o mercado. Ora, muitos acreditavam que o discurso de 20 anos do candidato Lula seria levado a efeito. Quem vendia “aventura” era o próprio Lula. Na época, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, convocou TODOS os candidatos para que se manifestassem a respeito dos compromissos assumidos pelo Brasil. Diante disso, Duda Mendonça resolveu transformar o constrangimento em ativo eleitoral e bolou a tal carta. Em suma, Lula diz ter sido uma ação sua o que na verdade foi uma reação imposta. Seu mérito foi ter levado a carta a sério, deixando para o passado as convicções anteriores. Isso é uma virtude? Não sei não. Sabe como é. Depende do caso. E tudo que fica por conta das circunstâncias é de pouca confiança.

PS. Por que Lula não critica FHC em entrevistas concedidas a jornais europeus? Simples. É que lá eles sabem que o governo Lula é CONTINUAÇÃO do governo FHC quando o assunto é economia. Se aqui o petismo tenta sequestrar até a estabilidade dos preços, lá fora ele se comporta direitinho.

Por que a oposição lidera as pesquisas?

Artigo publicado no jornal O Estado

Faltando ainda um ano para as eleições de 2010, muito pouco se pode afirmar sobre as condições dos possíveis candidatos que buscam galvanizar seus projetos eleitorais.

Os fatos que hoje mais atraem a atenção da mídia, como a dúvida do PSDB entre Serra e Aécio; ou como a campanha explícita que o presidente Lula faz para sua escolhida, a ministra Dilma Rousseff; não passam de assessórios que orbitam uma questão central: que discursos serão personificados por eventuais candidatos dessas forças políticas?

O ponto de partida é saber reconhecer que o eleitor brasileiro é conservador, ou seja, é avesso a mudanças radicais. Nesse sentido, o fato mais instigante e revelador do quadro eleitoral, atualmente, é constatar a liderança de José Serra nas pesquisas, que configura a inusitada circunstância onde um opositor é o favorito para suceder o governo de um presidente com alta popularidade.

Por enquanto o que temos é um governo com boa aprovação e um presidente bem avaliado que não conseguem produzir no eleitorado uma expectativa de continuação de sua obra.

A conclusão óbvia é que para esse eleitorado a opção por José Serra não significa, até o momento, uma ruptura, da mesma forma que o Lula da Carta aos Brasileiros não representou uma ruptura com o governo FHC. O petismo, nesse sentido, é refém do programa social-democrata dos tucanos. Com o agravante de ter produzidos distorções que ficam para agora não cabem ser discutidos (fica para outro artigo). De resto, desafio alguém a mostrar algo genuinamente criado pelo atual governo que tenha impactado na vida da população (não me venham com programas rebatizados ou segmentados).

Na verdade, é possível afirmar que o governador paulista encarna hoje a continuação de certas políticas do governo federal, já herdadas de seu antecessor, como a econômica e as sociais compensatórias.

Para os governistas, urge desconstruir essa imagem. E aí mora o perigo. Na ânsia de fazer Dilma uma candidata competitiva, capaz de representar avanços, os governistas apostam na falsa questão das privatizações, enquanto traficantes derrubam helicópteros, a desigualdade aumenta e a arrecadação cai pelo 11º mês consecutivo. Mas o desafio é grande, uma vez que para ter chance, Dilma precisa do apoio de figuras que representam retrocessos, como José Sarney e Renan Calheiros. Haja marqueteiro.

IDH: desigualdade no Brasil é comparável a da Namíbia e a de Honduras, que não possuem Bolsa-família

Da Folha Online. Comento em seguida.

IDH do Brasil sobe impulsionado pela renda, mas mantém 75ª posição
Impulsionado mais uma vez pelo aumento na renda, o Brasil registrou uma melhora em seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), mas permaneceu estável no ranking de nações elaborado anualmente pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), na 75ª posição.

(…) Os indicadores brasileiros no IDH serão detalhados hoje pelo escritório do Pnud no país, mas, na comparação com o relatório de 2008, é possível verificar que o avanço se deu principalmente por causa do PIB per capita.

(…) É possível destacar, por exemplo, que apesar de ter registrado queda na desigualdade desde o início da década, o Brasil ainda permanece no grupo de dez países mais desiguais do relatório, atrás apenas de Namíbia, Ilhas Comores, Botsuana, Haiti, Angola, Colômbia, Bolívia, África do Sul e Honduras. No Brasil, os 10% mais ricos detêm 43% da riqueza nacional, enquanto os 10% mais pobres, apenas 1%.

Wanfil
O IDH cresceu, mas se mantivemos a mesma posição anterior – a 75ª -, significa que o IDH dos outros cresceu pelo menos no mesmo ritmo. De cara, o índice joga luz sobre dois discursos influentes nos dias de hoje: 1) a propalada conversa de que somos a 8ª economia mundial (Lula prevê o quinto lugar em breve), 2) e a constatação de que o Brasil deixou países ricos para trás por causa da crise.

Atenção: não estou dizendo que não somos a 8ª economia, nem negando que a crise teve menor impacto nos países emergentes. Digo apenas que é preciso equalizar certas conclusões. Particularmente não confio no IDH. Qualquer índice que tenha como principal elemento constitutivo a renda per capta, a meu ver, corre o tremendo risco de pasteurizar a realidade e esconder desequilíbrios.

Fórmula velha
De qualquer forma, teria sido pior se o Brasil caísse posições. No entanto, é preciso entender o seguinte: a estagnação da posição no ranking do IDH, que cresce inercialmente a reboque do aumento da renda per capita, demonstra que esses resultados derivam de uma política econômica que já não tem muito mais a oferecer, que é a política adota no governo FHC e depois continuada por Lula, embora o segundo repita ad nauseum ser o marco inaugural de tudo no país. Ela trouxe avanços importantes, evidente, como a estabilização dos preços, mas foi um primeiro passo.

O dado mais revelador dessa situação é a manutenção da concentração de renda com os 10% mais ricos, que mantém o Brasil entre os últimos lugares, com índices africanos, no quesito desigualdade. E qual é a revelação? Ora, para efeito de crescimento econômico eficaz, as políticas sociais de transferência de renda (chamadas também de compensatórias) não passam de uma maquiagem: tira-se dinheiro da classe média e para doá-la aos mais pobres. O dinheiro a circular é o mesmo, sem capacidade de reprodução compatível com o crescimento demográfico, apenas para satisfazer necessidades básicas e compras de bem duráveis à prestação.

A ideia geral, mesmo entre analistas que deveriam desconfiar da propaganda oficial, é a de que as bolsas-esmola teriam o condão de alavancar o desenvolvimento sustentado. E no entanto, após uma década e meia, após FHC e Lula, temos uma situação comparável a da Namíbia e da miserável, vejam só, Honduras. Temos andado em círculos e ainda comemoramos o feito como algo genial.

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