O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu entrevista ao jornal britânico Financial Times, publicada nesta segunda-feira. Alguns trechos podem ser lidos em português na página da BBC-Brasil, dos quais transcrevo três passagens. Entre cada uma, segue o meu comentário na cor azul.
O jornal perguntou ao presidente sobre a interferência do Estado na economia, citando a criação da nova empresa para cuidar das reservas pré-sal e a pressão do governo sobre a Vale para que produza aço no Brasil, ao que Lula respondeu: “duvido que em algum momento da história o setor privado tenha tido tanto respeito do Estado como tem hoje, ou tenha ganhado tanto dinheiro”. “O que peço à Vale é que transforme o minério de ferro em aço no Brasil, e que eles comprem navios de estaleiros brasileiros.” (…) “Sou contra o Estado ser o gerente da economia”.
Trata-se de uma convicção? Como veremos abaixo, Lula não é homem de convicções, mas de oportunidades. As críticas à Vale visam mesmo é reeditar as críticas às privatizações, como se alguma das empresas privatizadas tivesse piorado de desempenho ou não gerasse muitos empregos e dividendos públicos na forma de impostos ao governo. Lula tentou derrubar o presidente da companhia, Roger Agnelli, e colocar em seu lugar alguém mais afeito aos interesses do petismo, no caso, o empresário Eike Batista, sob o pretexto de defender a indústria nacional. O plano fracassou justamente porque o mercado entendeu a manobra como uma interferência indevida.
Lula é contra o Estado ser o gerente da economia? Então por que as críticas à privatização do setor de minérios? Então por que a defesa de monopólios estatais? Essa conversa é para posar de social democrata moderninho. A frase caberia perfeitamente na boca de José Serra ou de FHC, queridinhos do partido Trabalhista inglês.
Sobre a afirmação de que nunca o setor privado ganhou tanto, resta concordar que é mesmo verdade. Mas isso não é obra do governo, como sugere Lula. Ganham porque merecem, porque investem para competir. E porque - claro – não são geridas por burocratas ou companheiros de partido. Na verdade, e isso será confirmado mais abaixo, o mérito do atual governo é justamente ter mantido a política fiscal e monetária do governo anterior, aquela “ditada” pelo FMI.
“O Estado tem que ser forte – mas como um catalisador do desenvolvimento. E temos mantido sólidas políticas fiscal e monetária. Foi por isso que o setor bancário não quebrou durante a crise no Brasil.”
Suspeito que a correção na concordância do plural seja obra do editor, mas tudo bem. O que importa é o conteúdo. Na prática, e como Lula sabe que não pode, no exterior, dizer que é o marco inaugural da política econômica brasileira, o presidente confessa que “MANTEVE” o que já existia. E foi mesmo por isso que o setor bancário foi menos afetado no Brasil: estimulado por essas políticas fiscal e monetária, banco não empresta dinheiro a pobre. Empresta é para o governo conseguir fechar o caixa de despesas correntes sem deixar de pagar os juros da dívida, o famoso superávit fiscal. Já o papo de Estado forte como indutor da economia é outro clichê social democrata.
Entre ser eleito e tomar posse, Lula lembra que escreveu uma carta ao povo brasileiro – que na verdade era direcionada aos investidores estrangeiros – afirmando que iria honrar todos os contratos e evitar uma aventura.
Voltamos ao terreno das convicções de araque. A carta foi redigida depois que a expectativa de vitória de Lula em 2004, já antecipada pelas pesquisas, assustou o mercado. Ora, muitos acreditavam que o discurso de 20 anos do candidato Lula seria levado a efeito. Quem vendia “aventura” era o próprio Lula. Na época, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, convocou TODOS os candidatos para que se manifestassem a respeito dos compromissos assumidos pelo Brasil. Diante disso, Duda Mendonça resolveu transformar o constrangimento em ativo eleitoral e bolou a tal carta. Em suma, Lula diz ter sido uma ação sua o que na verdade foi uma reação imposta. Seu mérito foi ter levado a carta a sério, deixando para o passado as convicções anteriores. Isso é uma virtude? Não sei não. Sabe como é. Depende do caso. E tudo que fica por conta das circunstâncias é de pouca confiança.
PS. Por que Lula não critica FHC em entrevistas concedidas a jornais europeus? Simples. É que lá eles sabem que o governo Lula é CONTINUAÇÃO do governo FHC quando o assunto é economia. Se aqui o petismo tenta sequestrar até a estabilidade dos preços, lá fora ele se comporta direitinho.