A coluna Política, do jornal O Povo, comandada pelo jornalista Fábio Campos, é uma referência da crônica política cearense. Envolvido em outros projetos, o titular passou a compartilhar a assinatura da coluna com mais dois colaboradores. Essa opção editorial merece uma reflexão sobre alguns riscos. Falo como leitor assíduo daquele espaço.
Primeiro, a coluna e seu editor, com o tempo, se associaram indelevelmente. Existe ali uma identidade e um estilo bem construídos e devidamente aceitos por seus leitores. Ainda que se discorde que lá é publicado, é preciso reconhecer que suas ideias são colocadas com cuidado e esmero. Mesmo quando somente às segundas o texto era escrito por outra pessoa, mantinha-se mais ou menos o tom da coluna.
Mas ultimamente a linha editorial que fez o sucesso da coluna parece não ter mais a mesma unidade. É claro que os outros jornalistas que divedem o memso espaço tem suas próprias análises, mas quando elas passam a destoar demasidamente do estilo e da essência do titular, fica estranho.
O texto deste domingo (30), assinado por Kamila Fernandes, é um bom exemplo. Transcrevo trecho abaixo e em seguida comento:
Quanto custa uma aliança
Que o Governo Lula depende do PMDB para a sua “governabilidade”, ninguém duvida. (…) A situação é explicável pela seguinte lógica: se a disputa ao Senado ganhar um terceiro candidato forte, além de Tasso e Eunício, como defende a futura presidente do Diretório Estadual do PT, a prefeita Luizianne Lins, que já repetiu que quer o ministro José Pimentel no páreo, o embate ficará bem mais acirrado, já que um dos três ficará sem mandato no final. (…) Afinal, o que se quer, eleger um aliado específico a todo custo ou fortalecer a base governista – para, aí sim, garantir a tal da “governabilidade” sem precisar passar por constrangimentos como os vistos no caso Sarney e no Mensalão (na hipótese de Dilma Rousseff se eleger)?
Vamos entender a lógica do que foi exposto por uma analista política profissional que passou a ocupar um valioso espaço. De cara, para ela, o mensalão e a indecência do apoio a Sarney foram meros “constrangimentos” impostos ao petismo por conta da governabilidade. O PT mesmo nem queria, mas se viu obrigado…
Em seguida, de forma explícita, é sugerido o reforço da base governista no Senado para que o Planalto não necessite dos serviços de parlamentares inescrupulosos. Fica claro então, que a solução, no Ceará, é o governo Cid pensar na governabilidade do PT e apoiar as candidaturas de Eunício e de Pimentel. Mas, o que Cid ganharia com isso? Ela não diz, pois sua argumentação se baseia no ponto de vista de apenas uma das partes.
Resumindo: para evitar constrangimentos, a solução, segundo a analista, é riscar do mapa o único desses políticos que critica abertamente o mensalão e a presidência de Sarney no Senado, que é o senador Tasso Jereissati. Dessa simpática equação, podemos concluir que os problemas éticos do governo Lula são causados pela… oposição. Quanto menor e mais fraca ela for, mas virtuoso será o governo petista. Quem sabe, para que o governo não tivesse mais problemas com a governabilidade, a oposição devesse aderir (!?). José Dirceu iria às lágrimas.
A hipótese de Lula romper com Sarney e apoiar outro candidato no Maranhão não existe.
A possibilidade de que picaretas que haviam perdido poder nos últimos anos tenham voltado a se fortalecer porque o governo Lula patrocina o descrédito institucional do parlamento também não existe.
A sugestão de que o mensalão foi uma ação deliberada e calculada justamente para fortalecer picaretas, essa nem passa no horizonte.
José Pimentel, com certeza, concorda com a coluna deste domingo. E Fábio Campos? Endossaria ele o texto de Kamila Fernandes?